O que o clip This is… de Gambino diz sobre a nossa América

Toni C.*

Lá vamos nós.

Assim que o videoclipe This is América estorô na net, opiniões e críticas pipocaram de maneira quase tão frenética quanto os 284 segundos críticos da obra prima do rapper Childish Gambino ou se preferir do ator Donald Glover produtor da série Atlanta. Então o que estou fazendo ao me aventurar em também analisar a peça audiovisual mais polêmica de 2018?

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Minha cara é interpretar essa obra dentro da realidade do Brasil. Yes, nosso país também é América! Somos campeões mundiais em linchamentos, temos Bolsonaros, chacinas, milícias e  motivos de sobra para nos envergonhar, por isso aperte a tecla “Tradutor da Quebrada” e assista Gambino mandando nudes da nossa realidade, vai:

Jim Crow

Di cara somos pegos desprevenidos com tiro na nuca do mano do violão, pow! Para dominar um povo mate a sua arte. É uma forma de explicar esta cena?

O gesto do atirador, dizem, ser uma alusão a Jim Crown, um ator racista branco que pintava o rosto com carvão e a boca com baton vermelho técnica conhecida como blackface, quando atuava representando um negro preguiçoso e malandro em menestréis numa representação tão forte que as leis pra zuar os preto dos Estados Unidos ganharam seu nome.

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Pois bem, o videoclipe foi ao ar na gringa na mesma semana em que por aqui a maior emissora do país teve de se retratar por sua nova novela ambientada na Bahia, sem atores negros. O Segundo Sol não foi suficiente para bronzear o elenco. Quem sabe no desenrolar da novela a emissora inove com a volta do blackface.  

“Lua cheia, lobos em ceia
Estrobo clareia os cantos com lodo
E eu com boot branco, tão branco
Que eu chamo de elenco da Globo” – Todos os olhos em nóiz (Emicida)

Tio Ruckus

A careta com um olho esbugalhado e o outro fechado faz alusão ao personagem Tio Ruckus do desenho animado The Boondocks. O personagem negro com o cérebro sequestrado, pensa, age, fala como branco racista, esperando ser visto como um deles. Como Stephan o negro capataz da casa grande que alerta a todos aos gritos: “Um negro montado no cavalo” quando avista o protagonista no filme de Tarantino DJango Livre.

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Em tempos em que Kanye West despiroca apoiando Trump e vomitando declarações sugerindo que a escravidão foi uma escolha. This is América é um videoclipe obrigatório.

Capataz da casa grande em nosso país infelizmente não é algo raro. O melhor do pior exemplo é Fernando Holiday o vereador Feriado afirma que as cotas incentiva o racismo, o vitimismo, e pede o fim do dia da Consciência Negra.

“Ovelha branca da raça, traidor!
Vendeu a alma ao inimigo, renegou sua cor!
Mas nosso júri é racional, não falha!
Por que?
Não somos fãs de canalha!” – Juri Racional (Racionais Mc´s)

Um pouco diferente é Joaquim Barbosa, ele quase foi capturado, por pouco não se torna o negro mais amado pelos brancos. E só não aconteceu porque retirou a sua candidatura à presidência. Voltou a ser um negro imprestável para a elite.  

A dança

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É unânime as afirmações de que a dança no clip serve para distrair do caos rolando ao fundo do vídeo. Nada mais óbvio e ao mesmo tempo nada tão profundo ao expor com tamanha beleza e sofisticação a arte como instrumento de alienação.

No país da boquinha da garrafa lembrei do rapper Aliado G do grupo Faces da Morte ao responder a pergunta de um jornalista questionando se era uma obrigação, o rap sempre falar de política. A resposta de Aliado G foi demolidora: “Toda arte é política, não só quando ela é engajada.” Respondeu o rapper antes de finalizar com essa, “Nós fazemos uma música para transformar a realidade. A música também pode ter a função de descontrair, distrair para manter as coisas como estão, não inventaram ainda uma terceira forma de arte”.

“Mudar o mundo é impossível é o que a maioria diz
Engole a dor engole o ódio e tenta ser feliz” – Mudar o Mundo (Faces da Morte)

Massacre de Charleston

O coral negro cantando no meio da música é um momento de trégua quando as coisas parecem começar a entrar nos eixos. Mas é só achar que tá suave uma arma cai na mão de nosso personagem e, vrau… Os comentários dizem sobre a relação da cena com o Massacre da Igreja de Charleston na Carolina do Sul.

A rajada que cala a voz do coral no filme, soa perturbadoramente idêntica as balas que calaram a voz da Vereadora do Rio de Janeiro Marielly Franco. É o mesmo tom autoritário que breca cinco jovens negros num automóvel comemorando a conquista de emprego de um deles, é monótono.

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“É muito fácil vir aqui me criticar
A sociedade me criou
Agora manda me matar” – Soldado do Morro (MV Bill)

O cavalo branco do apocalipse

A morte vestida toda de preto montada num cavalo branco galopando a partir de onde está estacionado uma viatura policial parece ser uma referência ao projeto de limpeza étnica promovido pelo Estado.  

Por aqui o massacre do Carandiru, da Candelária, as chacinas como a de Osasco e os Crimes de Maio são tristes capítulos onde a polícia tem licença para matar.

“Muito bem saiam da mira dos tiras
Saiam da mira dos tiras
São eles é quem forçam são eles quem atiram
Reze pra sobreviver” – Click Clack Bang (Conexão do Morro)

Celulares

Num pavilhão superior em um cenário semelhante a uma cadeia, jovens se mantêm calados e indiferentes ao caos. Imbecis aprisionados em smartphones é mato, essa é a maior epidemia global e nenhum de nós estamos imunes.

“Celular óctoc
Na mão, do zé polvim
É uma arma poderosa
Nisso eu acredito sim” – Terceira Opção (Trilha $onora do Gueto)

Carros antigos

Uma hora o barato fica tão loco, que só o gesto de simular estar empunhando uma arma é o suficiente para fazer geral dá fuga. É o único momento do vídeo em que Gambino se vê solitário, ele tira do bolso um baseado e os problemas parecem desaparecer.

Sob o cadáver do cara do violão morto no começo do vídeo ele sobe em cima do capô de um carro. Quer maior símbolo de status social que o automóvel na cultura americana?

Ele dispensa o baseado pra longe e dança em cima do capô do carango como Michael Jackson no vídeoclipe The Way You Make Me Feel, onde ele se empenha para conquistar sua musa. Aqui a cantora Sza é sua espectadora mas parece não dar muita bola para a performance do galã. Embora tenha visto muitos relacionar a dança com James Brown e a apropriação cultural, penso que a influência do Rei do Pop é onipresente. Os estudantes que o acompanham, alertou meu parceiro, estão na verdade mortos, como em Trillher, são mortos vivos.

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Carrões e mulheres é uma combinação batida nas maiores feiras de automóveis do mundo, na Fórmula 1 e nos vídeoclipes de rap e de funk. Só que aqui os carros não são as naves ostentadas nas músicas e nos clipes. Os veículos com mais de 40 anos não tem luxo, como se o artista quisesse destacar a diferença entre o showbizness e a realidade.

“21, 22, 23, 24
Desse jeito que eu gosto
Das cromadas no meu carro
21, 22, 23, 24
Não importa a idade
Eu coloco elas de quatro” – Desse Jeito (VDA)

Calça do exército confederado

Algumas das análises deste clipe são minuciosas, afirmam que a calça que o rapper veste é um modelo do uniforme dos soldados dos estados do sul dos Estados Unidos agrários e atrasados rebelados contra o fim da escravidão. Analisam mais a sua calça do que o fato do rapper estar sem camisa. Mas alguém arriscou em comparar seu estilo com a do músico ativista Fela Kuti.

Em nossa história, tivemos a Guerra do Paraguai, tá ligado? Quando Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para massacrar nossos hermanos paraguaios. O motivo? O Paraguai era mais evoluído e próspero, abraçamos as conversa dos poderosos de que os paraguaios tavam na crocodilagem querendo ferrar com a gente, então pra não ser ferrados, ferramos com eles de maneira covarde.

Naquela época quando um homem branco cheio de posses era convocado para a guerra, o cara se safava enviando seus escravos para morrer em seu lugar.

A promessa de liberdade para quem combatesse na guerra e retornasse com vida se tornou a melhor prática do projeto de embranquecimento do país antes da abolição da escravatura. Portanto só consigo deduzir que a calça do ator vertido para nossa realidade é uma calça de capoeirista.

“Gingando igual capoeira
Virado tô no Jiraiya
Voado tipo uma raia” – Afro Rep (Rincon Sapiência)

As armas

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Enquanto corpos dos negros atingidos pelas balas são arrastados para fora do vídeo, alguém observou o quanto as armas são recebidas com cuidado por uma criança com um pano vermelho para não arranhar a peça. O direito ao porte de arma não pode ser maior que o direito à vida. O trato zeloso das armas no clipe é uma crítica as gangues de rua, ao Gangsta Rap e a cultura de violência banalizada que vitimaram milhares entre Big, Tupac, Jam Master Jay.

Aqui, conflitos com armas de fogo ceifaram a vida de Sabotage, DJ Lah, Da Leste, Gato Preto. Preto matando preto, pobre matando pobre… normal segue o baile. Esta é a América.

O Levante de Soweto

As roupas dos dançarinos são consideradas referência à política de apartheid na África do Sul quando os estudantes do bairro de Soweto foram proibidos de serem ensinados em sua língua local nas escolas, o que levou milhares de estudantes às ruas.

Alguma semelhança com a política de Geraldo Alckmin quando estudantes ocuparam as escolas para impedir que elas fossem fechadas?

Corrida  

O sprint final é uma fuga a toda velocidade com Gambino sendo perseguido por homens brancos, ele carrega no rosto uma expressão aterrorizadora. A adrenalina liberada pelo corpo em situações de stress é para reagirmos de um dos dois modos: lutar ou correr. A fuga no final do vídeo demonstra que resistir é impossível.

“Ser preta no corre é tipo o filme Corra
Não vivo de sorte,
Aqui é viva ou morra
Pode crer” – Camélia (Drik Barbosa)

Algumas das críticas que li insistia em dizer que o assassino deveria ser um branco. Apesar do conflito racial ser a tônica do autor, considere o personagem sem alma, sem cor, ou se preferir branco, vermelho, azul, com estrelas e listas. Entenda o protagonista representando a própria América. Matando seus filhos, a cultura de seu povo, enquanto vende o feliz sonho americano, no fundo, um terrível pesadelo.

O videoclipe é uma obra aberta que fala por si, e dá a chance de inúmeras interpretações e reflexões. Estas foram algumas das minhas brisas, tire suas próprias conclusões. Diga aqui nos comentários sua opinião sobre o vídeo.

Mas não mosque, esta é a América fí.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

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4 comentários sobre “O que o clip This is… de Gambino diz sobre a nossa América

  1. Toni C — maestro de palavras ousadas e senhor de um raciocínio lúcido e realista – captura bem a essência dos signos transmitidos pelo video: mais que argutas análises, fica o incômodo latente de viver num país, só para ficarmos nos trópicos, onde a desconfiguração de gênero, cor, raça, religião e condição social são regra, não exceção.

    O texto está replete de referências históricas relevantes, como as leis Jim Crow americanas, a resistência jacobina do Soweto sul-africano em seus milhares de Robespierres ou os intermináveis massacres pueris ianques, cenário sintomático da decadência moral e cultural americana.

    Parabéns, parceiro de palavras e de quadra!

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  2. Que honra poder ter lido esse relatório da história do clipe do This is América.

    Fiquei facinado com as ligações e referências, isso é uma verdadeira obra de arte, mesmo que tenha histórias bem tristes da raça negra, temos que reverenciar O Gandino. Parabéns! Muita luz!!

    Salve Mestre.

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  3. Pingback: "This is America" e a supervalorização das referências | Vai Ser Rimando

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