Pedido de fim de ano: Quando o vírus revela o verme

Você pediu.

Me lembro como se fosse ontem: contagem regressiva, fogos, champanhe.

E você desejou com tanta força que quase dava para ouvir em voz alta.

Você pediu mais tempo pra você.

Pediu mais tempo para ficar juntinho de sua família, seu parceiro, filhos, seus amores…

Você desejou que o mundo inteiro se unisse numa só causa.

Que todos percebessem o quanto somos dependentes uns dos outros.

Você desejou um ar melhor para respirar.

Que a cidade fosse mais organizada, a vida menos atribulada, sem trânsito, buzina, que as pessoas não se esbarrassem no vai e vem frenético. Você pediu um tempo para sair do “piloto-automático”, queria não ter rotina.

Você pediu, lembra? Pediu e prometeu que neste ano iria se alimentar melhor – Regime não, reeducação alimentar – esse era o seu mantra.

Você queria que o dinheiro não significasse tanto na vida das pessoas. Que todos fossem tratados iguais.

Pediu, pediu sim vai, menos falsidade, nada de beijinho, abraços, apertos de mão.

Prometeu que quando sobrasse um tempo iria colocar a leitura em dia. Que iria passar a tratar as pessoas como gostaria que elas também te tratariam.

Confesse, você pediu todas as manhãs mais cinco minutinhos para o despertador. Quando na verdade queria mesmo era passar o dia todo deitada na cama sem ter nada pra fazer.

Você pediu que a vida não fosse tão corrida, trabalho, estudo, academia, cursinho… Quantas vezes eu peguei você amaldiçoando tudo isso?

Você pediu, ah como pediu, não ver mais a cara de seus colegas de trabalho, reunião nem pensar, ficar bem longe daquela falsa do escritório, lembra? – Nem pintada de ouro!

Você pediu, pediu não, implorou, queria ter todas as últimas novidades do mundo moderno made in China e agora taí.

Você queria que a violência diminuísse, então me diz: pra que serve aquela arminha que seu candidato tanto fazia? Agora, do que adianta ir pra varanda bater panela para o presidente que você elegeu?

Foi você quem pediu. Pediu não, exigiu. A volta dos médicos pra Ilha e agora minha filha, não adianta aplaudir os profissionais dos hospitais.

Logo você que sempre pediu para acabar com tantas regalias de dentro da cadeia, comer de graça e ficar o dia inteiro sem ter o que fazer, ironizava – Êeee vidão! – Agora é você quem pragueja que sua casa virou uma prisão.

Lá no fundo você pediu em silêncio pra chegar o apocalipse e acabar com tudo, assim você alcançaria a redenção.

Só que, quando todos os seus desejos se realizaram, você se apavora na ânsia de ter sua vida medíocre de volta, meu bem?

E como é que tudo isso eu sei?

É que eu sou sua consciência e não leva umas não, que eu peso na sua.

Cuidado com o que deseja!

Toni C.

Uma imagem e mais de mil palavras, conheça Beatriz símbolo da rebeldia juvenil das manifestações estudantis

A pandemia que enfrentamos hoje faz com que ficar dentro de nossas casas seja um ato político pela vida, há apenas três anos, ocupar as ruas era a maneira mais avançada de combater  a violência contra a democracia que deixou sequelas até hoje. Em março de 2017, estudantes e professores ocupavam as Ruas e as escolas em defesa da educação e do direito a aposentadoria. Meses depois, em setembro, a LiteraRUA lançava A Mais Longa Duração da Juventude.

“Ver os alunos organizados contra a desorganização foi a maior ironia que o Estado não esperava.”

Todo esse contexto, nos permitiu escolher duas fotos históricas para ilustrar a capa da narrativa de Urariano Mota. A primeira refere-se a Passeata dos Cem Mil, ocorrida em junho de 1968 e um marco da luta de artistas contra a ditatura militar que imperava no Brasil.

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Na foto, da esquerda para a direta, podemos ver as atrizes: Eva Todor, Tônica Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Normal Bengell.

Sobre essa foto, explicou em março de 2018 a atriz Eva Wilma, no programa Vídeo Show da TV Globo:

“…É uma foto famosa, emblemática, de um momento difícil para a cultura no país. Era uma mobilização contra a censura e pela cultura. Os teatros todos de São Paulo pararam, uma greve. A mobilização foi combinada de ser feita nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Três dias e três noites ininterruptos. A gente se revezava”

Essa imagem imortalizou a participação de mulheres fortes e formadoras de opinião na luta contra o Golpe Militar.

Já a segunda foto que escolhemos com apoio do artista gráfico Andocides Bezerra para a capa do romance, retrata um momento contemporâneo, uma manifestação de 15 de março de 2017 contra a Reforma da Previdência e sobre o sucateamento promovido no Ensino Médio pelo então presidente Michel Temer:

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Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Na foto, de autoria da fotógrafa Rovena Rosa, vemos em destaque uma jovem estudante, no ápice da Juventude, demonstrando força e poder. Não foi por acaso a escolha dessa foto: o gesto executado por essa jovem, remete de forma quase que direta aos gestos executados por Tommie Smith e John Carlos em outubro de 1968, durante as Olímpiadas: o símbolo que eternizou os Panteras Negras.

q2qGZfdV0WRm-52lHV5ZP1Oppzw4Ce0ZB5k8qPzd6XcO click perfeito de Rovena Rosa, feito para a Agência Brasil, não apenas serviu para a capa do nosso livro, mas também rodou a internet, se transformando em uma imagem obrigatória para entender e sentir a rebeldia e força daquela contestação que ilustrou (e ainda ilustra) dezenas de matérias publicadas nos mais variados contextos, de veículos como a publicação semanal CartaCapital, aos blogs de sociólogos como o Demétrio Magnoli. E não apenas isso, em determinados momentos essa imagem foi utilizada até mesmo para ilustrar memes reacionários com críticas aos movimentos sociais, uma prova efetiva de que estamos diante de uma imagem icônica.

Mas, quem é a jovem em primeiro plano na imagem? Chegou a hora de conhecermos quem era essa estudante,  pelo o que passou e para onde seguirá. Seu nome é Beatriz Punça, 18 anos e estudante de Ciências Sociais da Unifesp, em Guarulhos.

O Blog da LiteraRUA conversou com ela há algum tempo e temos o prazer em revelar essa história para vocês, agora.

LiteraRUA: Conte um pouco sobre você?

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Beatriz: “O ápice dessa foto foi ter chegado na capa de um livro, se tem uma coisa que eu não imaginava na vida, era isso”.

Beatriz: Todos me chamam de Bia, com exceção da minha mãe quando está brava. Inclusive, já iniciando com quem me espelho, Eunice, minha mãe, 35 anos, primeira pessoa com ensino superior da família e Jorge, autônomo que sabe fazer tudo ou quase tudo nessa vida.

Tenho 18 anos recém completados, moro desde que nasci em Lavras, bairro periférico de Guarulhos a cidade do “super aeroporto” e, apesar de quando pequena achar que isso facilitaria as minhas várias futuras viagens (não que não vá acontecer), só voei pela primeira vez aos 17 anos, pra visitar meus familiares do Nordeste.

Estudo ciências sociais na Unifesp. Trabalho em um hotel, que apesar de acolhedor internamente, me faz ter contato  com realidades que antes eu só via na TV, igual ao João do livro Reservado [LiteraRUA, 2019].

LiteraRUA: Qual você pensa ser sua vocação, sua missão de vida?

Bia: De uns tempos pra cá, tenho tido cada vez mais certeza: trabalhar com jovens. É o que faço há 6 anos e talvez o fato de ser tão prazeroso, mesmo que desafiador, reafirma essa missão a cada dia. Dialogar, analisar, provocar, questionar, sensibilizar, transformar… É realizador saber que com o trabalho de base e eu, somos capazes de fazer com que esses verbos não sejam ações só na grafia. Dando aula, participando de atividades, indo às escolas, criando um projeto, não sei ao certo, mas sei que é com os jovens.

LiteraRUA: Você atua ou atuou em algum projeto educacional ou cultural? Pode nos falar um pouco de sua participação em trabalhos voluntários?

Bia: Não sei se posso considerar educacional/cultural, mas é isso que venho fazendo desde 2013. Sou coordenadora de um grupo de base da Pastoral da Juventude, uma das pastorais sociais da Igreja católica, que vai muito além de evangelizar jovens, mas desenvolver uma nova ideia de mundo, com uma metodologia que, desde os primeiros contatos, me encantou.

Nunca em outro espaço, falamos sobre nós, sobre o eu, sobre o outro com tanta intensidade como nas propostas da Pastoral. Esse é o chão de aprendizado, de formação integral, de crescimento em que eu piso e sei que, dos meus 12 anos pra cá, foram muitos aprendizados. Um dos mais gritantes é o método “ver-julgar-agir”. Usamos isso pra tudo ou quase tudo, pra analisar/adentrar em diversas temáticas. Conforme a Pastoral foi sendo mais que um “domingo de manhã”, percebi o quanto ela já estava internalizada no meu jeito de ser. Foi e ainda é o chão perfeito pra uma menina cheia de questionamentos e pisar nesse chão não deveria (não hoje) abalar as estruturas que permeiam (a Igreja católica): o tão temido desafio da fé e política.

Na Pastoral a gente descobre um Jesus diferente daquele que algumas pessoas pintam por aí (tenho um poema sobre isso inclusive). Mas além de descobrir, a gente reflete sobre as nossas realidades com um olhar de “menos julgamentos” e “mais amor” ou com um olhar mais crítico e menos senso comum. Os encontros que construímos variam em temáticas de identidade, educação, sociedade, relações, esperança, ou qualquer outra que estejam de acordo com a realidade do grupo. O planejamento traçado, o cenário ao redor, entre outros… também caminham com a formação integral de todos, em que cada um se desenvolve conforme suas particularidades.

LiteraRUA: Conte um pouco pra gente da sua família?

Bia: Em casa somos em seis: mãe, pai, um irmão de 15 anos, minha irmãzinha de 4 anos e minha gata. A família que tenho bem mais contato é a da minha de mãe, convivo constantemente com todas as três tias e primos. A família por parte de meu pai, vejo mais esporadicamente. No Nordeste tenho família de pai e mãe. Em Recife avô, tias e primo e em Alagoas mais alguns tios, ambos de parte de pai. No interior do Pernambuco muitas tias de parte de mãe.

LiteraRUA: Bia, você gosta de Literatura?

Bia: Eu sempre gostei de escrever, desde novinha. Todas as propostas dos professores eu abraçava. Em 2012 fiz um blog que durou até 2015, nele eu publicava sobre roupas, tênis, tendências, ideias e algumas resenhas de livros. Nesse meio tempo, em 2015 escrevi pra um portal de universo juvenil, não ganhava nada, não era um portal famoso, lembro de ter ficado feliz com o convite pra escrever e me dedicava a postar uma vez por semana sobre lançamentos, livros, eventos e o que estivesse gerando comentário.

Mais recentemente me descobri na poesia, gosto de viajar nas ideias e brincar com as rimas… Não escrevo com a frequência que eu gostaria, ultimamente o que tenho são ideias e mais ideias de rimas, de histórias que eu nunca tiro do papel, ou do bloco de notas do celular, no caso. Por gostar de escrever, o que é proposto eu me jogo, já escrevi nota de repúdio pra organização estudantil, crônicas pros concursos da escola e poemas, sejam de amor, sejam de luta. Até me arrisquei a compor uma música (o que o amor não faz com a gente, né João?). João é meu namorado e ele é culpado de algumas madrugadas de sono perdidas escrevendo coisas fofinhas.

Por conta da faculdade, eu tenho corrido pra tentar ler os textos das aulas e não leio mais por hobby. O que tenho arriscado escrever nesses últimos tempos, compõem o que conhecemos por poesia marginal, registrar em rimas histórias que acontecem, dores que são guardadas e gritos que são diariamente silenciados, tirando um pouco do sentimento de impotência diante de tudo que rola.

LiteraRUA: Quando e de que forma começou a atuação nos movimentos sociais?

Bia: Através da Pastoral da Juventude (P.J.). Eu era a mais jovem dentre aquelas pessoas, então sempre ouvi entre eles sobre além das próprias atividades, como a Semana da Cidadania e a Semana do Estudante que são realizadas por toda pastoral nacional, com subsídios de estudos, ideias e encontros com temáticas que despertaram o protagonismo que já tinha uma chama acesa em mim.

Em 2015, na oitava série, fui presidente do grêmio da escola e essa experiência foi o start. Em agosto, acontecia em todo país campanhas contra a redução da maioridade penal e a Pastoral aderiu a Campanha do Amanhecer contra a redução. Ajudei nos bastidores fazendo estêncil e artes que decorariam toda a praça de um bairro vizinho de onde moro. Nesse mesmo ano participei pela primeira vez do Grito dos Excluídos, ato organizado nacionalmente no dia 07 de setembro para questionar o tão falado Dia da Independência. Aqui em Guarulhos, quem organizava o grito até o ano retrasado era a P.J., foi a primeira experiência de estar na rua, de gritar o que incomodava.

Em seguida desembocaram as ocupações e foi quando me joguei nessa vida, foi quando mesmo que cedo, a militância me abraçou… Uma das mentes pensantes para a ocupação da escola aqui do bairro do Lavras. Em um domingo à noite, mais de uma cabeça indignada junta não ia dar bom, na real deu bom. Ocupamos a escola contra a desorganização escolar que era proposta pelo nosso governador. Dia inteiro na escola, esquema de organização, limpeza, comida, união de uma galera do bairro que eu mal conhecia, mas já considerava demais. Foram dias loucos… saudades.

Ver os alunos organizados contra a desorganização foi a maior ironia que o Estado não esperava, participar integralmente disso aquecia ainda mais a chama de esperança que ardia no meu peito. Nesse ano também conheci a JR, Juventude Revolução, organização de jovens até então apartidária, que defende causas plausíveis e fundamentais. Inclusive foi essencial para que a escola fosse ocupada e durante todo o processo. Segui participando de alguns encontros e formações da JR, a partir daí tiver maior contato com as entidades estudantis.

Já na nova escola, ensino médio, colhi assinaturas pra representar com mais uma galera nossa escola em um Congresso da UPES. Durante o Congresso, a galera da JR me propôs um cargo na diretoria executiva da UPES, não aceitei. Gosto de saber o chão que piso, a UPES nem de longe estava presente nas escolas, não nas periferias, e eu nem sabia de sua existência antes da ocupação e gostaria que essa crítica não fosse mais atual. Não tinha pés (nem grana pra ficar indo em reunião em São Paulo, que sempre nos custou muitos dinheiros) pra mudar as estruturas. Preferi me abster. Daí em diante, foram vários atos, várias ideias, algumas atividades na escola, panfletagens, de algum jeito, sempre na ativa.

LiteraRUA: E o que a levou a manifestação que se tornou uma imagem das lutas sociais daquele período? Como foi?

Bia: De novo a indignação. Como queriam definir o que era bom ou ruim para nós estudantes, sem antes nos consultar? Éramos responsáveis o suficiente pra optar entre matemática ou história, mas não para opinar em seus projetos de lei? Professores e alunos unificados foram para as ruas, dizer Não a reforma do ensino médio, Não a reforma da previdência e Não ao governo ilegítimo que todos os dias nos atacava.

 

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Bia sob a lente de Demetrios dos Santos

LiteraRUA: A foto, com sua imagem ganhou grande notoriedade. Você sabe o que gritava naquele momento? Qual era o clima e seu sentimento no momento do clique?

 

Beatriz: Era 15 de março de 2017. Tínhamos várias palavras de ordem e até algumas com ritmos de funk. Mas a que mais marcava era “A nossa luta, unificou. É estudante, operário e professor”. Com certeza eu gritava o mais alto possível, sem me importar em ficar rouca, a vontade era que aquele grito, aquele coro, fossem ensurdecedores, a vontade era realmente  fazer barulho, ser escutada, fazer com que os gritos diariamente silenciados nas quebradas, nas ruas, nas escolas, nas casas, nos hospitais, fossem enfim escutados. Se eu não trabalhava, se eu tive a oportunidade de cruzar a cidade pra ir lá, eu precisava gritar, não só por mim, mas por todos esses gritos silenciados.

Era depressão pós golpe, Temer nos surpreendia a cada dia com novas mudanças e a greve geral da educação naquele dia tinha como pauta a rejeição ao dito Novo Ensino Médio e a Reforma da Previdência. Uma semana antes do dia 15, chamei uma roda de conversa (presidente do grêmio de novo, agora no 2° ano) com a galera da minha escola, em uma praça próxima. A divulgação foi boca a boca, a escola não concordava. Então foi tudo por de baixo dos panos, uns 30 alunos foram e rolou uma roda de conversa sobre a greve do dia 15 e os porquês da mesma, a então coordenadora da JR em Guarulhos tirou várias dúvidas da galera e foi uma atividade bem produtiva.

Chegou o grande dia da manifestação, era a primeira vez que eu iria na tão falada Avenida Paulista, no ônibus fretado pela APEOESP, uns amigos da escola, outros da JR, da Pastoral também, além de claro, os professores. Partimos. A parte do “de volta pra minha terra” foi delicada, o ônibus demorou muito pra chegar, além do próprio trajeto pro meu “país” Guarulhos. Chegamos em casa bem tarde.

LiteraRUA: Você sabia que estava sendo fotografada por uma fotojornalista?

Bia: Não, o ato estava muito cheio, tinham fotógrafos com câmeras grandes que eu nunca nem tinha visto pessoalmente, mas jamais imaginaria estar sendo fotografada, não com esse foco. Acredito que se soubesse da foto, o punho não ficaria bravamente cerrado e o grito não seria altamente gritado, o inesperado compõe a beleza da foto.

LiteraRUA: Quando foi a primeira vez que você viu a foto daquela manifestação? Tinha noção que a imagem se tornaria tão popular?

Bia: Foi em 28 de abril daquele ano, greve geral, não somente da educação. O site Catraca Livre publicou uma matéria “Veja 5 eventos da Greve geral de hoje para você ir em São Paulo” (bit.ly/FotoBia). Eu não fui por conta dos motoristas de ônibus que aderiram à greve, sem busão, sem chances de chegar ao Centro da cidade pra pegar o fretado da APEOESP, mas minha foto estava lá, estampando a matéria. As notificações chegavam e eu sem entender nada, quando vi, fiquei pasma, era eu quem estava ali: como aquela foto foi tirada? Como foi parar no Catraca Livre?

Também descobri que além do Catraca Livre, a foto estampou uma matéria na CartaCapital (bit.ly/FotoBia2) e até então okay, todas legendadas no devido contexto, ambos mídias alternativas de muito reconhecimento.

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Memes esbanjam baixaria e fakenews

Em contra mão, a foto após um tempo passou a estampar memes,  bem diferente das primeiras aparições, não me senti nada representada. Nesses memes a foto foi e vem sendo (porque infelizmente ainda estão circulando e criando novos) circulada totalmente fora do contexto em questão, utilizada como uma representação equivocada da esquerda, eu só conseguia pensar “E agora, me descobriram?!” e as pessoas próximas “Nossa, a Bia tá sendo usada pra representar a esquerda, tá famosa”, mas sério, a última coisa que queria era aparecer em memes, muito menos em memes reaças de páginas como Corrupção Brasileira Memes, Endireita etc.

Por um lado, eu tinha o conforto de ler os comentários e saber que os ataques não eram pra mim, afinal nem sabiam quem eu era. Por outro, vinha à tona um sentimento de indignação, por não ter controle sobre o destino dessa foto, onde e em que contexto ela seria utilizada, não soube lidar, pensei em denunciar na delegacia virtual, mas eu ainda era menor de idade e como era muita burocracia, a raiva acabou esfriando e ficou por isso.

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Postagem da Bia registra sua surpresa ao conhecer a obra

O ápice dessa foto foi ter chegado na capa de um livro, se tem uma coisa que eu não imaginava na vida, era isso.

O mais triste nisso tudo, é o quanto tem ficado cômodo, o quanto um novo ataque aos nossos direitos é ” só mais um”, não é o primeiro e não será o último. Mas dói ver gente como a gente apoiando um governo que sucateia a educação, nos distância do direito de se aposentar, entrega demarcação indígena pro agronegócio, acaba com Ministério da Cultura, retrocede direitos conquistados pela comunidade LGBT, proíbe INPE, FIOCRUZ e IBGE de divulgarem dados, apoia tortura e se eu fosse continuar listando seria uma lista infinita, olha que nem citei as pérolas que ele fala sempre que abre a boca.

Isso tudo assusta e em mim causa uma sensação de impotência, de não conseguir fazer nada, de ver a população acuada, com medo. O que temos feito além de militar no Facebook?

LiteraRUA: O que sua geração espera sobre nossos governantes?

Bia: Talvez o problema já esteja aí: “esperar de nossos governantes…”. Que infelicidade não poder esperar nada das pessoas que foram eleitas através de processos ditos democráticos, com a vã promessa de nos representar. Esperar que eles nos percebam é pedir demais, estão muito ocupados com suas fortunas ou em como se safar das investigações. O problema da minha geração é esse, pronto, esperar… Corrompidos pelo individualismo que o sistema nos empurra de goela abaixo, “o que não me atinge não é problema meu” e “se me atinge alguém vai fazer por mim”. Quanto tempo mais essa fase de apatia vai durar?

LiteraRUA: Você ingressou numa faculdade de Ciências Sociais, o que te motivou para essa escolha? E o que pretende no futuro em relação a essa área?

Bia: O amor em dialogar com jovens, acredito que eu posso fazer diferença dentro da sala de aula, espero até lá ter espaço pra isso. Mas não somente, se hoje eu tenho a oportunidade em estar em uma universidade pública, cursando algo que faz parte do meu projeto de vida, preciso fazer por onde. O futuro parece tão longe, não sei… Além de dar aula, pretendo fazer pesquisas, além de pesquisas, ações concretas, criar e participar de projetos. Longe de mim que a periferia seja somente um objeto de estudo, eu sou a periferia, quero ter o olhar de dentro pra fora, não o contrário.

Assista ao vídeo em que o autor Urariano Mota comenta sobre a capa de seu romance.

Matéria produzida por Demetrios dos Santos e Toni C. com apoio de Luciana Karla Pereira Macedo.

Para seguir a Beatriz no instagram @_biapunca

Dedicada à Christiane Brito (1960-2020), jornalista e agente literária que apresentou Urariano Mota para a LiteraRUA e assim nasceu a publicação impressa: A Mais Longa Duração da Juventude.

Triunfo na estreia da turnê de 10 anos da carreira de Emicida

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Emicida estreia a turnê de 10 anos da Triunfo.

O Bang é o seguinte, quando as cortinas do Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros se abriram no show de estreia da nova turnê de Emicida, Triunfo. Todos os olhos, ouvidos e corações ali presente foram incinerados com uma apresentação da mais alta octanagem.

“Quem é quem nessa multidão” (Bang)

Toni C.*

Do canto do palco, o menino nascido no Jardim Fontales, aguarda a deixa. Quando Emicida atravessa a coxia escura para os spots de luz rumo ao centro do palco, é a plateia que lota o auditório que o fuzila com aplausos e gritos.

Antes de executar a primeira canção, Emicida agradece a cada um ali presente, que o acompanhou de alguma forma, em algum momento dessa década cheia de Triunfo. “Em 15 de março de 2008,” relembra ele, “O público era de 300 pessoas para ver nossa primeira apresentação do single Triunfo”, comenta o filho de Dona Jacira diante dos três dias consecutivos de apresentações esgotadas.

“Neguinho é o caralho
meu nome é Emicida,
porra o Zika”

…segue versando passando por Gueto, A Chapa é Quente, Boa Esperança com a participação de Jota Ghetto, funde o canto de alforria seguida da poderosa Pantera Negra.

“Cês veio golpe
eu vim Sabotage” (Pantera Negra)

De I Love Quebrada, à Passarinhos são onze canções de maior introspecção bem no interior do show passando por Oásis, Mãe, Hoje Cedo, Como Tudo Deve Ser, Chapa, Alma Gêmea, Eu Gosto Dela, Madagascar e Baiana.

Evandro Fióti seu irmão e produtor, monitora cada movimento do canto do palco garantindo que tudo seja executado conforme o planejado como um maestro invisível. Alguns minutos antes no camarim, Emicida reune a equipe e lembra do empenho de seu irmão desde a apresentação de estreia, “Esse garoto saiu correndo do McDonald’s para contar as entradas” relembra daquele primeiro show.

Seu DJ Nyack companheiro nessa trajetória passou a contar com o reforço dos percussionistas Carlos Café e Sivuca, com o brilho dos metais de Ed Trombone, Fernando Bastos e Gustavo Souza além da guitarrista Michelle. Juntos executam evoluções de uma banda marcial com a precisão de um sniper em um show a parte. A excelência, ecoa como uma batalha onde decibéis são disparados para todos os lados, quem ganha é o público.

Uma senhora com a filha ao lado dança o tempo todo, levanta a mão, canta as letras uniformizada com as roupas da LAB como a maioria bem mais jovem ali.

Dispara os acordes de Zica Vai Lá, Emicida se aquece como se fosse entrar num confronto físico, mas pede para a música parar, vai até o público e chama um garoto, “Cê canta pra caralho eihn!?,” antes de se corrigir: “Canta da hora!”. O pequeno Yohan, não se sente menor por não ter participado do show original há 10 anos, praticamente sua idade, manda bem junto de seu ídolo ajuda a manter as mãos e almas pra cima.

O show é eletrizante, praticamente sem intervalos entre as músicas, não há pausas longas para trocas de roupas, o artista não deixa o palco uma única vez, como uma demonstração voraz de que toda sua jornada foi para viver aquele momento. Emicida se quer bebe água durante as duas horas de show, sua intenção é preencher toda as duas horas de apresentação com os hitz construídos ao longo destes anos.

Mandume trás ao palco Muzzike, Amiri, Raphão Alaafin, Jota Ghetto e a aniversariante da noite Drik Barbosa, são implacáveis.

Triunfo é o single que alcança sua primeira década, é o show que a partir de agora está nas plataformas digitais, é o DVD, é a turnê que dá ignição a partir desta noite, é toda a trajetória de Emicida.

Tive o privilégio de assistir do melhor lugar, entre os cases de instrumentos ao lado do palco. Pude ver o pequeno Yohan chegando feliz ao fim da apresentação para conhecer no camarim seu ídolo. Me despedi do Mestre de Cerimônias, sai de lá às pressas sem querer falar com mais ninguém pra não correr o risco de desmanchar as imagens nítidas que acabei de narrar.

Na saída trombei um velho conhecido que trampou mô cota com rap nacional, ele me contou que não via um show há um tempão, comentou o quanto a coisa evoluiu, e o quanto estava feliz por ver a renovação do público.

Entrei no metrô convicto de que noites como essas nos provam que viver vale a pena e com a certeza de que nada mais poderia me abalar. Ledo engano, na estação seguinte embarcaram trabalhadores voltando pra suas casas depois de uma jornada exaustiva. Entre eles dois rostos conhecidos, Muzzike e DJ Nyack, a pouco tinha os vistos no palco, pra mim foi como se tivesse embarcado Barack Obama ou se Lula tivesse deixado o cárcere.

Bem diferente da desgastada forma de tentar materializar o sucesso nos videoclipes cheio de carrões. Dividir o vagão de metrô com essas figuras, depois do nirvana que provocaram na plateia é a comprovação de que Triunfo não é uma palavra, é a atitude!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

Aos alienados: revolução. Em tempos de ódio: o amor. Esse é Mano Brown, Boogie Naipe, Baby

Por: Toni C.*

Tem ser humano que é tipo vinho e tem os zé povinho, esse cara é definitivamente do primeiro tipo, tinto. Aquele que rimou sobre revolução enquanto éramos todos alienados, é o mesmo que canta amor em tempos de ódio, no elegantíssimo álbum Boogie Naipe pelo primeiro e único: Mano Brown.

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A gente só queria dançar feito Michael Jackson e ter a cor que ele adotou aos 40 anos. Paulo Maluf vencia eleição para qualquer coisa que ele disputasse antes da gente saber sobre Malcolm X. Música jovem na quebrada no fim dos anos 80 era música estrangeira e ponto.
Posso falar um quilo dos tempos da Função, quando Gil Gomes era quem mostrava ao seu modo a favela, os pé-di-pato era fábrica de presunto.
“Justiceiros são chamados por eles mesmos
Matam homens e dão tiro a esmo” (Pânico na Zona Sul)
A partir daí, nada mais ficou no mesmo lugar.
Quer saber o que era ser jovem de periferia em 1992? Digita Negro Limitado e ouça Edi Rock no álbum Escolha Seu Caminho, a gente era limitado pela falta de informação, falta de orgulho, falta de estima própria.
Hoje os tempos são outros, temos informações até de sobra. Não se informa quem não quer,  quem fica só de zepovinhação, quem não morre afogado pelo tsunami de ideias, pela desinformação num mundo pós-verdade.
Eis que ressurge Mano Brown de maneira futurista e nostálgica como o globo espelhado no alto da pista de dança. Contagiante e versátil, Boogie Naipe é um álbum musicalmente foda. O primeiro disco solo de Mano Brown tem uma atmosfera envolvente fazendo das canções um repertório tão variado quanto os embalos de sábado a noite.
Confesso, resisti para ouvir e quando apertei o play fui imediatamente sequestrado por Simoninha…

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Um rolê em Santo Amaro com a LiteraRUA

Uma metrópole como São Paulo vai muito além do clichê dos grandes centros culturais, das principais avenidas ou seus monumentos e pontos turísticos. Na contramão disso, existem muitas cidades dentro da mesma cidade. São nos bairros e nas ruas que se passa a vida real de gente apressada e são esses os cenários que estão retratados no livro Santo Amaro: A Evolução Urbana do Bairro Sob Diversos Olhares.

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A obra narrada por professores e pesquisadores da Universidade Santo Amaro inova exatamente com a proposta de explorar ao máximo uma das áreas mais importantes e antigas da zona sul paulistana e que no passado já foi um município independente: a macro região de Santo Amaro. Da colonização aos saraus de poesia, do cemitério do bairro aos galpões de antigas fábricas convertidos agora em templos religiosos, instituições de ensino e grandes shoppings centers. Nada escapa da caneta dos autores que dão destaque à cultura, especialmente ao Hip-Hop e aos seus principais grupos de rap da área como Racionais MC’s, Z’África Brasil e do saudoso Sabotage.

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Os nove autores se revezam na construção de sete capítulos que exploram assuntos como: a imigração alemã na região; a segregação e conflito em espaços urbanos; a memória do bairro; a industrialização e urbanização da região; dentre outros. Portanto questões históricas, geográficas, urbanísticas e sociais são apresentadas com o rigor científico esperado nessas temáticas. Escrito de maneira acessível para todo leitor, sejam estudantes, moradores do bairro, urbanistas, geógrafos, ou aquele interessado em conhecer melhor esse grande bairro e porque não um pedaço essencial da maior metrópole da América Latina. Continuar lendo

Noémia de Sousa: “Tirem-nos Tudo / Mas Deixem-nos a Música”

Conta a lenda, verdadeira, que ela só precisou escrever 46 poemas para tornar-se reconhecidamente a “mãe dos poetas moçambicanos”: Carolina NOÉMIA Abranches de SOUSA.

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Noémia de Sousa colaborou com “O Brado Africano”, jornal da resistência, durante três anos, de 1948 a 1951; do esforço nasceu inspiração para a densa poesia. Nunca mais versejou.

A mulher incansável que cresceu em um ambiente de reivindicação, que militava de dia e distribuía panfletos à noite com João Mendes, que escrevera cartas subversivas, que redigira artigos cortados pela censurava, que conspirava, não escapou a um processo que lhe deu condenou à prisão.

Refugiou-se em Lisboa com a “geração da utopia” sondando as independências. Circulou com a nata da intelectualidade africana em Portugal até ser perseguida pela ditadura e optar por novo exílio, desta vez na França.

Com uma filha às costas, Virginia Soares (Gina), saltou a fronteira, galgou os Pirinéus e alcançou a liberdade. Estava casada, desde 1962, com o poeta Gualter Soares. Continuar lendo

Sabotage surpreende em álbum póstumo inédito e memorável

Treze nos após a sua trágica morte, Sabotage está de volta com álbum arrepiante lançado digitalmente nesta segunda (17) na plataforma Spotify. A data já se tornou um marco histórico para o rap e por que não para a música. Pela primeira vez um rapper brasileiro lança um disco póstumo completo, Sabotage segue inovando.
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Capa do disco: Sabotage, reprodução.

A biografia oficial do músico Um Bom Lugar, já adiantava em suas páginas sobre a construção do disco, um dos mais aguardados de todos os tempos. As onze canções com a voz característica do rapper contaram com uma tropa de elite de produtores e músicos entre eles: Daniel Ganjaman, Tejo Damasceno, Rica Amabis, DJ Cia, Quincas Moreira, Tropkillaz, DJ Nuts, Mr. Bomba e Duani. Entre as participações nada mais, nada menos que BNegão, Rappin Hood, Céu, Negra Li, Dexter, DBS, Lakers, Funk Buia, Sandrão, Rodrigo Brandão, Fernandinho Beat Box além da participação internacional de Shyheim (integrante do Wu Tan Chan). Todos eles estão no repertório.

Assim como o disco de estreia de Sabotage, Rap é Compromisso (2000), o segundo álbum batizado por sua famosa alcunha também foi produzido pelo Selo Instituto, liderado por Daniel Ganjaman, Tejo Damasceno e Rica Amabis.

Todos participaram de forma voluntária e cederam direitos autorais aos filhos do rapper, Wanderson dos Santos e Tamires com 23 e 22 anos respectivamente. 

Deu na Folha de S.Paulo – Álbum póstumo de Sabotage é lançado 13 anos após o assassinato do rapper

Um pouco sobre o livro Um Bom Lugar
A biografia oficial de Sabotage conta com prefácio de um Titã, Paulo Miklos, com quem Sabotage conviveu por semanas no set de filmagens de O Invasor de Beto Brant, era a estreia de ambos os músicos na telona invadindo o cinema nacional. Mas antes do auge, Sabotage era o Maurinho do Canão, o sobrenome emprestou da favela onde nasceu, encravada no Brooklin, o bairro que mais se desenvolvia economicamente no país, durante a redemocratização. Um Bom Lugar é a primeira biografia definitiva de um rapper brasileiro, também é a primeira de uma bateria de ações que marcam mais de uma década da ausência do músico. Rappin Hood, Celo X, Ganjaman, Sandrão, Helião e Mano Brown, são alguns dos que concederam entrevistas exclusivas para a obra.
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Três perguntas do jornal Estado de Minas segunda (17) ao biógrafo de Sabotage, Toni C. autor do livro Um Bom Lugar:

Treze anos depois de sua morte, o que Sabotage significa para o rap nacional?

Sabotage era um ícone, assassinado no auge de uma carreira meteórica e se tornou mito. Como ícone, como mito, é vanguarda, está à frente de seu tempo, parece que gravou esse disco ontem. Sabotage narra o Brasil aonde a democracia, a Constituição, os direitos básicos e saneamento não chegaram quando homens saqueiam esse país por cinco séculos. Pune-se uma mulher inocente e o castelo construído por mais de uma década desmorona. Neste momento em que vemos o Judiciário anular a condenação dos responsáveis pelo massacre no Carandiru, quando a TV ameaça diariamente prender o melhor presidente que tivemos, enquanto Eduardo Cunha segue solto… [A entrevista aconteceu antes da prisão do Eduardo Cunha]. Bom, só uma palavra define o ano de 2016: Sabotage. Este álbum não poderia chegar em momento mais pertinente.

O rapper ficou conhecido por não ser radical como os colegas do hip-hop nos anos 2000. Ele gostava da Sandy, do Sepultura…
Está aí a prova de como era antenado e influente. Muito do que vemos hoje é consequência do que Sabotage construiu de maneira pioneira. Essa é uma parte de seu legado. Rap é música e, como arte, deve estar junto e misturado com outras artes ao redor. É tudo nosso!

Sabotage foi ator de cinema, era multimídia. No livro, você lembra que ele vivia ligadíssimo, com pagers e telefones no bolso.
Ele foi um dos primeiros rappers a sacar que música e imagem andam juntas. Gravou o clipe Rap é Compromisso e depois, postumamente, foi premiado com Respeito é Pra Quem Tem. Fez os filmes Carandiru e O invasor, estampou história em quadrinhos, está em documentários e na biografia que tive a honra de escrever. Poucos artistas são tão influentes em tantas áreas. Treze anos depois de ser assassinado, ele segue essencial. O Maurinho do Canão foi tragicamente assassinado e deixou seus familiares, mas Sabotage é imortal.

 

Ouça as músicas aqui

Socorro, ajudem uma amiga em apuros

Por Toni C.

Acabo de chegar da delegacia de defesa da mulher onde fui acompanhar uma amiga que foi violentada. Estou em choque e a única coisa que consigo fazer é compartilhar o texto do escrivão com o depoimento sofrido narrado aos prantos para que nunca mais nenhum de nós caia num golpe tão repugnante desses também:

[A delcarante iniciou o depoimento aflita]. Vim prestar queixa porque sou vítima de um violento ataque. Não quero tomar seu tempo com qualquer bobagem… Dizem que desgraça pouca é bobagem não é? Pois bem, não tenho nenhuma bobagem para contar.

[O escrivão pediu para ela começar com informações pessoais para o preenchimento do prontuário].

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Desculpe, estou com os nervos a flor da pele e acabei nem me apresentando: Eu sou brasileira, pele parda, tenho 28 anos, que aliás acabei de completar. Nasci em 5 de outubro de 1988 em Brasília e minha chegada foi celebrada com festa e alegria. Continuar lendo

Porque não votarei em nenhum rapper nessas eleições

Por Toni C.*

(Atualizado em 28/09 para inserção de candidatos)

 

“Fiquei sabendo tem um tal de Pepeu”. Antes de falar sobre o lendário rapper pioneiro ao gravar o primeiro disco do gênero no Brasil e que agora disputa uma vaga na vereança da capital Paulista, quero contar uma história menos conhecida, a do Claudinei.
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Claudinei era um garoto como eu, pobre morador da esquecida cidade de Carapicuíba. Pobre em termos financeiros, era rico, milionário de sonhos, sorrisos, esperanças e vontade de melhorar sua vida e de quem se metesse ao seu redor, assim como a Andreia, Gilson, André. Todos jovens de 14 anos de idade que tive o privilégio de conhecer nos tempos do grêmio da escola. Eu, Luciano, Amaro, Ricardo Cacá, João Paulo, João Ricardo fazíamos parte da “velha guarda” e andávamos quilômetros a pé nas ruas íngremes de Caracas mascando teoria como se fossem chiclete e com a revolução pulsando forte no meio do peito, íamos recrutando essa molecada para assumir nosso postos, para que nós assumíssemos também outras trincheiras.