2019 Começa fervendo no Clube da RUA

2019 começou fervendo no Clube da RUA. Confira tudo que rolou no Box de Janeiro 🔥

Box do Mês Janeiro 2019
Tema: É Quente!
Artista Convidado: Crônica Mendes
Livro do Mês: Sol na Cabeça – Giovani Martins
Brinde exclusivo LiteraRUA: Boné RUA
Brinde: Aos Que Caminham (autografado)
Revista da RUA edição de Janeiro
Marca Páginas do livro NIdéias Que Rimam Mais Que Palavras Vol. 1 – Rashid

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Céu e Capão são palavras rivais

 

IMG_9582O ano era provavelmente 2001 e não era uma odisseia no espaço. Eu era só um maluco latino-americano querendo sair de Carapicuíba com a missão de participar de um encontro de jovens socialistas na Assembleia Legislativa de São Paulo. 

Pulei o muro da estação de trem para ter dinheiro na volta. Lá assisti a uma palestra de um cara de cabelo e barbas longas, grisalhas com nome esquisito, dizendo entre outras coisas: “O brasileiro precisa conhecer o Brasil”.

Por Toni C.*

Quase duas décadas depois, passo em frente ao mesmo endereço. Carrego além das memórias uma bagagem com o peso do mundo. São livros, alguns de minha autoria, outros de minha editora. O corre é pra entregar numa livraria, sim elas ainda existem, logo ali na sugestiva Rua Abolição.  

Dali, sigo pra sul, pra atender um chamado da Orpas, a missão? Fazer um papo com jovens estudantes do Céu.

Quando era criança, cresci com uma forte ideia que a zona sul era um lugar longe, rico e indiferente. Onde talvez more a felicidade. Um tio meu trabalhava como motorista particular de um grande empresário nacional. Aparecia com as nave nova em casa. Uma vez ganhamos agasalhos, os moletons de primeira eram dos uniformes do ano anterior dos filhos do patrão do meu tio. Eram as melhores roupas que tínhamos. Ouvia os adultos dizerem para tomarmos cuidados para não sermos raptados por conta daquela roupa alvíssima. Rapto era só como os sequestros eram chamados naquele tempo. O Rapto do Garoto Douradoera o que a professora exigia que a gente lesse na escola, cairia na prova, ela ameaçava. Porque não davam provas sobre a vila do Chaves, Spectreman, A Formiga Atômica ou Thundercats se pá?

Anos se passaram até que chegou o notável dia em que ouvi Pânico na Zona Sule meus neurônios deram logo um fatality em tudo que eu pensava que sabia do mundo.

Demorou para conseguir juntar sem bugar essas duas zonas sul: aquela que é o verdadeiro céu na terra do agasalho com “Morumbi” estampado no peito e a zona sul do Capão Redondo cantada pelos Racionais. Mentira, buga até hoje viado!

É a primeira vez que piso no Capão, depois que Lula foi raptado, depois que Mano Brown mandou a esquerda voltar pra base amassar barro. 

Da janela do metrô, sou recebido por quatro par de olhos do grafite esmaecido na Avenida Sabin, o mundo é diferente da ponte pra cá.

Passo na Loja 1 da Sul para me municiar de livros antes de conferir a boa.

Mau sabia a maldade que me aguardava, uma recepção acolhedora, eram os heróis da quebrada sem capa, sem mascara, professores e profissionais da educação torcendo para ver o palco se tornar um octógono pro cérebro.

A bibliotecária, sem dó, fez logo um caminho de flores com origami de papel que ia do camarim ao palco para eu passar como se fosse o caminho da noiva para o altar. 

Sorte a minha que tenho uns aliados forte, quem tem amigo tem tudo, Daniel Farias chamou no gogó feito puxadô de samba enredo, “Alô Comunidade!”. Grudei no palestrante Célio coordenador da Etec zona sul e percorremos juntos aqueles longos três metros e meio. 

Depois disso, foi uma troca de duas, três horas talvez, nem sei. A generosidade no fundo de cada olhar intrigado, não sabia quem tava mais espantado, os professor, aqueles jovens que deram folga ao celular ou eu. Tentava entender o placar, quem saiu dali ganhando mais? Estávamos achando graça de quem tem, e nos sentindo os verdadeiros milionários.

Sobre o que falamos? Nada de mais, oreiada sobre o quanto a leitura salva vidas, como o conhecimento e a cultura vale mais que barras de ouro. Vai vendo o estouro!?

Quem disse que “Céu” e “Capão” são palavras rivais?

Enquanto costurava o verbo com ideias que pode até parecer demodê, blasé ou sei lá o que…  Eu pensava comigo, lembrava daquela palestra que assisti há quase 20 anos onde aquele Toni lá trás ouvia de um cara com cabeça grisalha e barba longa dizendo que o brasileiro precisa conhecer o Brasil. E eu xingando aquele velho em pensamento: “Conhecer o Brasil? Esse maluco num faz ideia que pra chegar aqui tive que pular a estação. Conhecer o Brasil como?”.

Hoje com outra quilometragem rodada, posso dizer que conheço alguma coisa desse Brasil e aquelas palavras fazem pra mim mais sentido hoje do que quando foram ditas pelo grande Azis Ab’Saber um geógrafo que percorreu o país na ponta do lápis, muito antes da invasão curiosa dos satélites e Street Views.

Terminei de responder a última pergunta da plateia, achando que alguma daquelas bobagens que falei, pode fazer a diferença pra alguém. Daqui vinte anos talvez, assim como aquela frase hoje faz pra mim.

O brasileiro precisa conhecer o Brasil.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA e curador do ClubedaRUA.