Emicida apresenta AmarElo no Theatro Municipal, é o Elo da Arte Moderna ao Hip-Hop

Em 1922 um grupo de artistas realizaram ao longo de uma semana, uma grande mostra cultural cheia de brasilidade e contestação durante as comemorações do centenário da Proclamação da República. Este evento revolucionou a arte e marcou um capítulo da história que conhecemos por Semana de Arte Moderna de 22. Emicida é tão pioneiro que nem esperou 2022 para ocupar o palco do Theatro Municipal e pintar tudo de AmarElo Abaporu. No lugar de Tarsila quem brilha é MC Thá.

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Foto: Juliana Lubini @julubiniphotography

Por Toni C.*

Antes mesmo de começar o show, a lógica já estava toda subvertida, nessa noite não seria só o café no hall de entrada, o único preto que você encontraria no Theatro. O aviso sonoro traz a voz de um mano, é Fióti quem dá as instruções: “…o evento pode ser fotografado e filmado”. Desde o lado de fora já era de arrepiar, tanto cabelo crespo se enfileirando educadamente para atravessar o portal. Os cumprimentos, os abraços, os sorrisos… era de arrepiar.

As boas vindas são dadas com um trecho sonoro do filme Orfeu Negro de 1959:

“– Zeca, Zeca, toca, faz o sol nascer…
– Não sei se posso.
– Sabe sim, tenta, toca (…)”.

Eu fiz a lição de casa: decorei cada verso, repassei o setlist completo, estava com o timing de cada átimo de silêncio entre as batidas. Mas aí me vêm o primeiro acorde e nóiz acorda!

As cortinas do imponente Theatro Municipal de São Paulo começaram a subir junto com a emoção e revela atrás dela o eclipse, é o astro rei. E Emicida faz o sol alvorecer no meio do palco. O vitral translúcido em animação no telão bem que tentou filtrar a luz que dançava num caleidoscópio multicor, mas quem pode apagar o sol? É a Ordem Natural das Coisas, abrindo os caminhos.

E antes que a gente possa recuperar o fôlego, Emicida pega uma caixa de fósforo, é, uma simples caixa de fósforo da qual ele guarda o universo e toca em homenagem a Seu Wilson das Neves, Quem tem Um Amigo (Tem Tudo), malandramente a música se funde ao som de Fundo de Quintal, “(…) Valeu por você existir amigo”.

São versos de Pequenas Alegrias da Vida Adulta capazes de fazer este templo outrora ocupado de fraque e tailleur agora responder em unisono, “Encontrar uma tupperware que a tampa ainda encaixa (ó Glória)”.

Mas teatro tem que ter tragédia, 9nha com a dama Drik Barbosa é a prova que a arte imita a vida até quando ela arde, “Tua boca quente na minha virilha / Quase queima, que fase, reina, kamikaze”. Dessa forma Emicida parte num mix sem paradas para um Emicidio em pleno Municipal: “Eu gosto tanto dela, a ponto de querer tá perto, pronto / Não tem outro jeito de me ver sorrir / É louco o efeito dela, aqui”.

Aí bate a brisa suave de quem escreve como quem manda cartas de amor em Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, mergulhamos num momento suave entre os hits de: Baiana, Madagascar, Alma Gêmea. Quando nos damos conta estamos diante da dualidade agridoce de Paisagem. Até que nos deparamos ao rap-rock de Hoje Cedo.

É chegado o grande momento, da última fileira é possível ouvir o coração do Emicida bater no compasso dos versos de Belchior.

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro…

Presenciei as confortáveis cadeiras serem abandonadas pelo público que trocaram o veludo vermelho para abraçarem os versos de AmarElo. Majur é contralto, Pablo Vittar soprano e Emicida tenor nesse espetáculo que já nasce clássica. E antes que as últimas notas dessa sinfonia se dissipem, AmarElo se transforma num instante em Pantera Negra diante de nossos olhos. “Digam que o Zika Voltou tipo (m)AKA”.

Então Zika Vai Lá, converte o palco do Theatro no solo sagrado da Estação Santa Cruz, com mãos levantadas até o último foyer.

E o Bang é o seguinte, Eminência Parda traz o mano que escapou da morte Jé Santiago, enquanto DJ Nyack faz as vezes do Papillon, é o próprio Africano.

Mas aí o tom grave de Boa Esperança ecoa pelos corredores de todo o velho Theatro. Cês tem o Fantasma da Opera, tiu. Nós tem é logo o Fantasma da Laboratório, o espirito que anda, canta e destrói limite.

“Hoje nóiz pegamos nossas almas de volta, há 500 anos sequestradas”. Disse a entidade com autoridade no centro daquele palco que desafia os melhores.

O artista, a banda, a plateia, os funcionários, a emoção é tão grande que pode ser tocada com a mão. Nunca vi tantos óculos suados por metro quadrado.

“Me emocionei”, se desculpa Emicida. Alguém grita: “Você merece Leandro!”. E ele corrige ligeiro: “Eu não, nóiz merecemos. E que a gente nunca se contente com nada menos que isso”.

Ismália é ópera épica.  “Olhei no espelho, Ícaro me encarou / Cuidado, não voa tão perto do sol / Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei / O abutre quer te ver de algema pra dizer: Ó, num falei?” É quando a poderosa voz de Fernanda Montenegro atravessava o salão. Levanta e Anda, e o espetáculo encerra com Principia.

As cortinas se fecham, mas ninguém arreda o pé. Aplausos, aplausos, aplausos…

Pra nossa sorte temos Passarinho no bis, e pra mostrar que o Gueto passou por aqui, A chapa é Quente e Libre. Eu olho para o mano da linguagem de sinais sem saber se ele estava traduzindo tudo em Libras ou dançando Libre.

Eu vi, o mano que faz a gente chorar de rir, com um cisco no olho, num só não, foi logo nos dois… durante o show inteiro num parava de entrar cisco no zói do mano do Taboão. Vi na sala escura do Theatro a Luz da poetiza iluminar o auditório. Vi a mina de discurso poderoso, cantando os versos com vontade. Vi pesquisador estudioso sem entender nada. Eu vi, ninguém me contou.

Numa outra situação semelhante em que Leandro fez tudo virar uma catarse, eu falei pro Zika assim ó: “Você pegô mó boi, que matar as pessoas de orgulho, num dá cadeia”. Bom era os tempos em que Emicida matava os MC adversários com versos. Dai vem seu nome (Homicida de MCs), agora ele vem numa de nos matar de emoção, deveria se chamar como? “Emição”.

Por um momento a gente num sabe bem se está na Rinha dos MC’s ou de volta na Central Acústica, mas é só ver a grandiosidade da história sendo construída na sua frente, que voltamos ao Theatro Municipal.

Esse é um espetáculo tão autêntico e urgente que o mestre Emicida deveria se tornar residente em apresentações permanente, seria a sensação do cartão postal.

Tatuei freneticamente todo o ingresso do espetáculo ao longo da apresentação como quem psicografa em ritmo de freestyle, guardei a caneta apenas para aplaudir de pé.

Emicida fez uma ligação direta terra espaço, e quando tudo terminou e saímos, foi possível comprovar. Até o mano do Céu não se conteve e desandou a chorar, a cidade como nos velhos tempos novamente se tornou a terra da garoa.

Eu escrevi no romance “O Hip-Hop Está Morto!” – A História do Hip-Hop no Brasil, publicado em 2011:

“Antes de sair, um dos que participava do debate morador do interior do estado, arrisca:
– Dá uma letra, mostra uma direção para onde devemos caminhar para essa tal evolução?
Hip-Hop aponta para o fim da rua. Todos se viram e avistam o imponente prédio do Teatro Municipal”.

Tenho sorte de ser contemporâneo desse mano e testemunha ocular deste momento. Com ingressos esgotados em poucos minutos, aqueles que não puderam entrar poderia assistir tudo transmitido em telões na mesma escadaria onde há quatro décadas ativistas negros fundaram um movimento unificado. Emicida com sua banda se despediu do público ciente de seu papel na arte: “Vejo vocês nas páginas dos livros de história!”.

Foi assim que Emicida fez numa noite com o Hip-Hop, aquilo que os modernistas realizaram numa semana: REVOLUCIONOU.

UBUNTU

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, coroteirista da cinebiografia do rapper Emicida (em produção), criador do coletivo LiteraRUA.