Rap da liberdade para José Amaro Correia, o nosso Mário Sapo

Urariano Mota *

 

Em um trecho do Dicionário Amoroso do Recife, escrevi: “José Amaro Correia, Zé Amaro, ou Mário Sapo, como o chamamos, era e continua a ser um socialista, militante político, preso em 1973 no DOI-CODI no Recife…

Quando eu lhe pergunto se depois de tanta luta, se alguma vez ele não pensou em desistir, ele, que sei estar com problemas circulatórios, pressão alta, e que piora todas as vezes em que se emociona, ele me responde:

— Desistir? Nunca! Às vezes me dá uma preguiça. Mas dá e passa.

Então ele me conduz, tateante, devagar, até o portão. Às vezes vira a cabeça de lado para ver o meu vulto, quem sabe, algum traço. Talvez não veja mais nem sequer a minha sombra. E não diz. Mas entendo. Devo ser mais real que o seu sonho, que um dia ele escreveu num poema:

‘Vivo semeando o sonho
Do fim da pobreza
De todas as crianças terem o direito
De brincar e sorrir
Vivo a semear o sonho
Do nascer igual
Perante a natureza dos homens’”. 

Agora em 2017, na quinta-feira à noite, ele falece aos 74 anos de idade. Estava com a saúde ao fim em tudo. Infecção nos pulmões, nos rins, no coração. Quando eu o visitei na UTI, embora ele estivesse sem consciência, pelo que falavam, eu lhe disse na esperança de que me ouvisse:

– Você é meu irmão. Você sabe: não te faltei antes na ditadura, não vou te faltar agora.

Pois bem, porque agora vem o segredo de uma revelação: na quarta-feira, quando o ônibus parou próximo ao hospital onde ele estava internado, subiu um grupo de três jovens que, antes de começarem a pedir uma ajuda, começaram a cantar um rap. Um rap da liberdade.

Eu fiquei comovido até os olhos, porque pensava: o meu amigo no fim e estes jovens cantando a liberdade. Era como a encarnação viva do meu próximo romance. Eu me dizia: cantam para ele. E me vieram associadas as palavras de John Donne:

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

| Mario Sapo e Urariano |

Então os jovens cantavam para Mário Sapo, eu os compreendia muito bem. Cantavam e tocavam pelos guerreiros. Então eu nunca tinha ouvido um rap tão emocionado. E pensei também no Toni, da LiteraRua, na editora do meu próximo romance. E volta agora a apresentação que José Carlos Ruy escreveu para o livro, no trecho:

“O tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente… Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista”.

Aquele canto no ônibus, a sua associação ao amigo que padecia não era delírio. É fato. Os jovens cantavam um rap que se unia ao amigo, na mais longa duração da juventude. Então eu aplaudi com entusiasmo, como quem grita: presente! um guerreiro cai, outro se levanta. Esses jovens com violão, percussão e canto levam adiante a resistência . Eles são inconformados como a maior razão de viver.

Agora, com o falecimento de José Amaro Correia vem um breve abatimento. Mas não temos esse direito. Não podemos cair e esmorecer. É levantar a cabeça e continuar a caminhada. Se possível, até o lado ensolarado da rua.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.
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Um presente para a Música Eletrônica, estreia o livro MEB

Um verdadeiro tratado sobre como a música eletrônica em nosso país se deu, desde os primeiros passos na década de 1930 até a contemporaneidade. Um trabalho minucioso, cronológico e que se complementa com centenas de biografias de artistas e personalidades fundamentais para a construção do mosaico brasileiro eletrônico. Assim é o MEB – A História da Música Eletrônica Brasileira, novo lançamento da LiteraRUA Editora que chega ainda em agosto.

eric_livroQuem afirma que a estreia de Eric Marke é apenas agora está muito enganado. Antes do livro MEB, Marke acumulou uma vasta e respeitosa experiência em diversas áreas, mas todas interligadas ao universo musical: DJ há mais de três décadas, onde discotecou em memoráveis casas como Madame Satã e Espaço Retrô aqui em São Paulo, é também jornalista e atuou como correspondente da TV BBC News em jornalismo cultural. Hoje é professor universitário com longa experiência, atualmente leciona no Centro Universitário Belas Artes.

Tudo isso é para mostrar que o livro de estreia de Eric Marke é apenas uma importante fração de tudo o que ele já faz e do que ainda está por vir.

Hoje, 11 de agosto, é o aniversário do autor, mas o presente é seu também: ainda nesse mês a LiteraRUA trás o livro MEB, um lançamento singular, necessário, intenso e urgente. Para comemorar tudo isso, estivemos com ele para um breve bate papo que você acompanha abaixo. Saiba mais como o MEB foi construído e se prepare para essa jornada que já está em pré-venda:

Blog LiteraRUA: Qual a importância da sua obra para a Música Eletrônica Brasileira?
Eric Marke
: Não só acredito como eu sei que esta obra será de grande importância para todo cenário da música eletrônica brasileira e mundial. É um marco inicial para todos que gostam de ler sobre este tema, sem restringir a nichos e grupos. A partir das consultas no meu livro, os leitores que produzem Música Eletrônica vão poder continuar esta história e criar suas próprias. Eu espero estar junto nas lives – ou onde puder estar –acompanhando, gravando, entrevistando ou somente curtindo com meus amigos.

 

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Eric Marke sob a lente de Demetrios Santos


BL:
 Fale um pouco sobre como a pesquisa foi desenvolvida e quais os critérios para escolha dos cenários e artistas retratados no MEB?
EM: Eu comecei a pesquisar alguns temas sobre música eletrônica, e me deparei com a falta de um livro que falasse sobre a documentação do cenário brasileiro. No começo tive que fazer vários contatos via cartas, e-mails ou encontros para iniciar um mapeamento. O único critério abordado foi tentar resgatar o máximo de histórias possível, dentro de um modelo enciclopédico.

BL: Quando e por que você decidiu escrever sobre a história da música eletrônica brasileira?

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O livro já está disponível em pré-venda

EM: Em janeiro de 2000 comecei a escrever meu livro. Eu decidi abordar este tema pelo amor que tenho pela música eletrônica – é algo muito difícil de explicar, pois esta dentro de mim, no meu coração.

BL: Quais os maiores desafios pra conclusão desse projeto?
EM: São três grandes desafios: o primeiro foi em trazer o máximo de informações em um único livro. Depois, escrever sendo imparcial. E então, resolver concluir para enfim publicar.

BL: Porque você escolheu a LiteraRUA para essa parceria?
EM: Bom, certas amizades são para sempre, mesmo quando às vezes estão um pouco distantes. O Demetrios (meu editor) é um amigo de longa data. Lembro que ele trouxe uma vez o Toni (CEO da LiteraRua) para conhecer minha casa e conversar com meu pai sobre política – isso há muitos anos. A escolha foi mais que certa, pois uma das principais linhas editoriais da LiteraRua é sobre música.

BL: 15 anos não é muito tempo pra conclusão de um livro?
EM: Cada autor tem seu tempo para lançar seu livro, e somente cabe a ele esta decisão. Não importa o tempo que levou para escrever, e sim sua conclusão e sua publicação. No meu caso, tomei a decisão de reunir o máximo de histórias por todo Brasil, e sabia desde o começo em 2000 que isso não seria fácil, mas nunca desisti. E agora depois de 17 anos é com enorme orgulho (do tipo de ver seu filho nascendo) que encerro esta primeira etapa.

Garanta já o seu:

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