O que o clip This is… de Gambino diz sobre a nossa América

Toni C.*

Lá vamos nós.

Assim que o videoclipe This is América estorô na net, opiniões e críticas pipocaram de maneira quase tão frenética quanto os 284 segundos críticos da obra prima do rapper Childish Gambino ou se preferir do ator Donald Glover produtor da série Atlanta. Então o que estou fazendo ao me aventurar em também analisar a peça audiovisual mais polêmica de 2018?

donald-glovers-this-is-america-through-the-eyes-of-a-jim-crow-historian

Minha cara é interpretar essa obra dentro da realidade do Brasil. Yes, nosso país também é América! Somos campeões mundiais em linchamentos, temos Bolsonaros, chacinas, milícias e  motivos de sobra para nos envergonhar, por isso aperte a tecla “Tradutor da Quebrada” e assista Gambino mandando nudes da nossa realidade, vai:

Jim Crow

Di cara somos pegos desprevenidos com tiro na nuca do mano do violão, pow! Para dominar um povo mate a sua arte. É uma forma de explicar esta cena?

O gesto do atirador, dizem, ser uma alusão a Jim Crown, um ator racista branco que pintava o rosto com carvão e a boca com baton vermelho técnica conhecida como blackface, quando atuava representando um negro preguiçoso e malandro em menestréis numa representação tão forte que as leis pra zuar os preto dos Estados Unidos ganharam seu nome.

donald-crow

Pois bem, o videoclipe foi ao ar na gringa na mesma semana em que por aqui a maior emissora do país teve de se retratar por sua nova novela ambientada na Bahia, sem atores negros. O Segundo Sol não foi suficiente para bronzear o elenco. Quem sabe no desenrolar da novela a emissora inove com a volta do blackface.  

“Lua cheia, lobos em ceia
Estrobo clareia os cantos com lodo
E eu com boot branco, tão branco
Que eu chamo de elenco da Globo” – Todos os olhos em nóiz (Emicida)

Tio Ruckus

A careta com um olho esbugalhado e o outro fechado faz alusão ao personagem Tio Ruckus do desenho animado The Boondocks. O personagem negro com o cérebro sequestrado, pensa, age, fala como branco racista, esperando ser visto como um deles. Como Stephan o negro capataz da casa grande que alerta a todos aos gritos: “Um negro montado no cavalo” quando avista o protagonista no filme de Tarantino DJango Livre.

donald-rucks

Em tempos em que Kanye West despiroca apoiando Trump e vomitando declarações sugerindo que a escravidão foi uma escolha. This is América é um videoclipe obrigatório.

Capataz da casa grande em nosso país infelizmente não é algo raro. O melhor do pior exemplo é Fernando Holiday o vereador Feriado afirma que as cotas incentiva o racismo, o vitimismo, e pede o fim do dia da Consciência Negra.

“Ovelha branca da raça, traidor!
Vendeu a alma ao inimigo, renegou sua cor!
Mas nosso júri é racional, não falha!
Por que?
Não somos fãs de canalha!” – Juri Racional (Racionais Mc´s)

Um pouco diferente é Joaquim Barbosa, ele quase foi capturado, por pouco não se torna o negro mais amado pelos brancos. E só não aconteceu porque retirou a sua candidatura à presidência. Voltou a ser um negro imprestável para a elite.  

A dança

anigif_sub-buzz-21603-1525717668-7.gif

É unânime as afirmações de que a dança no clip serve para distrair do caos rolando ao fundo do vídeo. Nada mais óbvio e ao mesmo tempo nada tão profundo ao expor com tamanha beleza e sofisticação a arte como instrumento de alienação.

No país da boquinha da garrafa lembrei do rapper Aliado G do grupo Faces da Morte ao responder a pergunta de um jornalista questionando se era uma obrigação, o rap sempre falar de política. A resposta de Aliado G foi demolidora: “Toda arte é política, não só quando ela é engajada.” Respondeu o rapper antes de finalizar com essa, “Nós fazemos uma música para transformar a realidade. A música também pode ter a função de descontrair, distrair para manter as coisas como estão, não inventaram ainda uma terceira forma de arte”.

“Mudar o mundo é impossível é o que a maioria diz
Engole a dor engole o ódio e tenta ser feliz” – Mudar o Mundo (Faces da Morte)

Massacre de Charleston

O coral negro cantando no meio da música é um momento de trégua quando as coisas parecem começar a entrar nos eixos. Mas é só achar que tá suave uma arma cai na mão de nosso personagem e, vrau… Os comentários dizem sobre a relação da cena com o Massacre da Igreja de Charleston na Carolina do Sul.

A rajada que cala a voz do coral no filme, soa perturbadoramente idêntica as balas que calaram a voz da Vereadora do Rio de Janeiro Marielly Franco. É o mesmo tom autoritário que breca cinco jovens negros num automóvel comemorando a conquista de emprego de um deles, é monótono.

06159874553bb8653c7264d66e53bf5f.480x270x39.gif

“É muito fácil vir aqui me criticar
A sociedade me criou
Agora manda me matar” – Soldado do Morro (MV Bill)

O cavalo branco do apocalipse

A morte vestida toda de preto montada num cavalo branco galopando a partir de onde está estacionado uma viatura policial parece ser uma referência ao projeto de limpeza étnica promovido pelo Estado.  

Por aqui o massacre do Carandiru, da Candelária, as chacinas como a de Osasco e os Crimes de Maio são tristes capítulos onde a polícia tem licença para matar.

“Muito bem saiam da mira dos tiras
Saiam da mira dos tiras
São eles é quem forçam são eles quem atiram
Reze pra sobreviver” – Click Clack Bang (Conexão do Morro)

Celulares

Num pavilhão superior em um cenário semelhante a uma cadeia, jovens se mantêm calados e indiferentes ao caos. Imbecis aprisionados em smartphones é mato, essa é a maior epidemia global e nenhum de nós estamos imunes.

“Celular óctoc
Na mão, do zé polvim
É uma arma poderosa
Nisso eu acredito sim” – Terceira Opção (Trilha $onora do Gueto)

Carros antigos

Uma hora o barato fica tão loco, que só o gesto de simular estar empunhando uma arma é o suficiente para fazer geral dá fuga. É o único momento do vídeo em que Gambino se vê solitário, ele tira do bolso um baseado e os problemas parecem desaparecer.

Sob o cadáver do cara do violão morto no começo do vídeo ele sobe em cima do capô de um carro. Quer maior símbolo de status social que o automóvel na cultura americana?

Ele dispensa o baseado pra longe e dança em cima do capô do carango como Michael Jackson no vídeoclipe The Way You Make Me Feel, onde ele se empenha para conquistar sua musa. Aqui a cantora Sza é sua espectadora mas parece não dar muita bola para a performance do galã. Embora tenha visto muitos relacionar a dança com James Brown e a apropriação cultural, penso que a influência do Rei do Pop é onipresente. Os estudantes que o acompanham, alertou meu parceiro, estão na verdade mortos, como em Trillher, são mortos vivos.

gambino-sza

Carrões e mulheres é uma combinação batida nas maiores feiras de automóveis do mundo, na Fórmula 1 e nos vídeoclipes de rap e de funk. Só que aqui os carros não são as naves ostentadas nas músicas e nos clipes. Os veículos com mais de 40 anos não tem luxo, como se o artista quisesse destacar a diferença entre o showbizness e a realidade.

“21, 22, 23, 24
Desse jeito que eu gosto
Das cromadas no meu carro
21, 22, 23, 24
Não importa a idade
Eu coloco elas de quatro” – Desse Jeito (VDA)

Calça do exército confederado

Algumas das análises deste clipe são minuciosas, afirmam que a calça que o rapper veste é um modelo do uniforme dos soldados dos estados do sul dos Estados Unidos agrários e atrasados rebelados contra o fim da escravidão. Analisam mais a sua calça do que o fato do rapper estar sem camisa. Mas alguém arriscou em comparar seu estilo com a do músico ativista Fela Kuti.

Em nossa história, tivemos a Guerra do Paraguai, tá ligado? Quando Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para massacrar nossos hermanos paraguaios. O motivo? O Paraguai era mais evoluído e próspero, abraçamos as conversa dos poderosos de que os paraguaios tavam na crocodilagem querendo ferrar com a gente, então pra não ser ferrados, ferramos com eles de maneira covarde.

Naquela época quando um homem branco cheio de posses era convocado para a guerra, o cara se safava enviando seus escravos para morrer em seu lugar.

A promessa de liberdade para quem combatesse na guerra e retornasse com vida se tornou a melhor prática do projeto de embranquecimento do país antes da abolição da escravatura. Portanto só consigo deduzir que a calça do ator vertido para nossa realidade é uma calça de capoeirista.

“Gingando igual capoeira
Virado tô no Jiraiya
Voado tipo uma raia” – Afro Rep (Rincon Sapiência)

As armas

Sem-título.png

Enquanto corpos dos negros atingidos pelas balas são arrastados para fora do vídeo, alguém observou o quanto as armas são recebidas com cuidado por uma criança com um pano vermelho para não arranhar a peça. O direito ao porte de arma não pode ser maior que o direito à vida. O trato zeloso das armas no clipe é uma crítica as gangues de rua, ao Gangsta Rap e a cultura de violência banalizada que vitimaram milhares entre Big, Tupac, Jam Master Jay.

Aqui, conflitos com armas de fogo ceifaram a vida de Sabotage, DJ Lah, Da Leste, Gato Preto. Preto matando preto, pobre matando pobre… normal segue o baile. Esta é a América.

O Levante de Soweto

As roupas dos dançarinos são consideradas referência à política de apartheid na África do Sul quando os estudantes do bairro de Soweto foram proibidos de serem ensinados em sua língua local nas escolas, o que levou milhares de estudantes às ruas.

Alguma semelhança com a política de Geraldo Alckmin quando estudantes ocuparam as escolas para impedir que elas fossem fechadas?

Corrida  

O sprint final é uma fuga a toda velocidade com Gambino sendo perseguido por homens brancos, ele carrega no rosto uma expressão aterrorizadora. A adrenalina liberada pelo corpo em situações de stress é para reagirmos de um dos dois modos: lutar ou correr. A fuga no final do vídeo demonstra que resistir é impossível.

“Ser preta no corre é tipo o filme Corra
Não vivo de sorte,
Aqui é viva ou morra
Pode crer” – Camélia (Drik Barbosa)

Algumas das críticas que li insistia em dizer que o assassino deveria ser um branco. Apesar do conflito racial ser a tônica do autor, considere o personagem sem alma, sem cor, ou se preferir branco, vermelho, azul, com estrelas e listas. Entenda o protagonista representando a própria América. Matando seus filhos, a cultura de seu povo, enquanto vende o feliz sonho americano, no fundo, um terrível pesadelo.

O videoclipe é uma obra aberta que fala por si, e dá a chance de inúmeras interpretações e reflexões. Estas foram algumas das minhas brisas, tire suas próprias conclusões. Diga aqui nos comentários sua opinião sobre o vídeo.

Mas não mosque, esta é a América fí.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

Anúncios

Triunfo na estreia da turnê de 10 anos da carreira de Emicida

IMG_8873.JPG

Emicida estreia a turnê de 10 anos da Triunfo.

O Bang é o seguinte, quando as cortinas do Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros se abriram no show de estreia da nova turnê de Emicida, Triunfo. Todos os olhos, ouvidos e corações ali presente foram incinerados com uma apresentação da mais alta octanagem.

“Quem é quem nessa multidão” (Bang)

Toni C.*

Do canto do palco, o menino nascido no Jardim Fontales, aguarda a deixa. Quando Emicida atravessa a coxia escura para os spots de luz rumo ao centro do palco, é a plateia que lota o auditório que o fuzila com aplausos e gritos.

Antes de executar a primeira canção, Emicida agradece a cada um ali presente, que o acompanhou de alguma forma, em algum momento dessa década cheia de Triunfo. “Em 15 de março de 2008,” relembra ele, “O público era de 300 pessoas para ver nossa primeira apresentação do single Triunfo”, comenta o filho de Dona Jacira diante dos três dias consecutivos de apresentações esgotadas.

“Neguinho é o caralho
meu nome é Emicida,
porra o Zika”

…segue versando passando por Gueto, A Chapa é Quente, Boa Esperança com a participação de Jota Ghetto, funde o canto de alforria seguida da poderosa Pantera Negra.

“Cês veio golpe
eu vim Sabotage” (Pantera Negra)

De I Love Quebrada, à Passarinhos são onze canções de maior introspecção bem no interior do show passando por Oásis, Mãe, Hoje Cedo, Como Tudo Deve Ser, Chapa, Alma Gêmea, Eu Gosto Dela, Madagascar e Baiana.

Evandro Fióti seu irmão e produtor, monitora cada movimento do canto do palco garantindo que tudo seja executado conforme o planejado como um maestro invisível. Alguns minutos antes no camarim, Emicida reune a equipe e lembra do empenho de seu irmão desde a apresentação de estreia, “Esse garoto saiu correndo do McDonald’s para contar as entradas” relembra daquele primeiro show.

Seu DJ Nyack companheiro nessa trajetória passou a contar com o reforço dos percussionistas Carlos Café e Sivuca, com o brilho dos metais de Ed Trombone, Fernando Bastos e Gustavo Souza além da guitarrista Michelle. Juntos executam evoluções de uma banda marcial com a precisão de um sniper em um show a parte. A excelência, ecoa como uma batalha onde decibéis são disparados para todos os lados, quem ganha é o público.

Uma senhora com a filha ao lado dança o tempo todo, levanta a mão, canta as letras uniformizada com as roupas da LAB como a maioria bem mais jovem ali.

Dispara os acordes de Zica Vai Lá, Emicida se aquece como se fosse entrar num confronto físico, mas pede para a música parar, vai até o público e chama um garoto, “Cê canta pra caralho eihn!?,” antes de se corrigir: “Canta da hora!”. O pequeno Yohan, não se sente menor por não ter participado do show original há 10 anos, praticamente sua idade, manda bem junto de seu ídolo ajuda a manter as mãos e almas pra cima.

O show é eletrizante, praticamente sem intervalos entre as músicas, não há pausas longas para trocas de roupas, o artista não deixa o palco uma única vez, como uma demonstração voraz de que toda sua jornada foi para viver aquele momento. Emicida se quer bebe água durante as duas horas de show, sua intenção é preencher toda as duas horas de apresentação com os hitz construídos ao longo destes anos.

Mandume trás ao palco Muzzike, Amiri, Raphão Alaafin, Jota Ghetto e a aniversariante da noite Drik Barbosa, são implacáveis.

Triunfo é o single que alcança sua primeira década, é o show que a partir de agora está nas plataformas digitais, é o DVD, é a turnê que dá ignição a partir desta noite, é toda a trajetória de Emicida.

Tive o privilégio de assistir do melhor lugar, entre os cases de instrumentos ao lado do palco. Pude ver o pequeno Yohan chegando feliz ao fim da apresentação para conhecer no camarim seu ídolo. Me despedi do Mestre de Cerimônias, sai de lá às pressas sem querer falar com mais ninguém pra não correr o risco de desmanchar as imagens nítidas que acabei de narrar.

Na saída trombei um velho conhecido que trampou mô cota com rap nacional, ele me contou que não via um show há um tempão, comentou o quanto a coisa evoluiu, e o quanto estava feliz por ver a renovação do público.

Entrei no metrô convicto de que noites como essas nos provam que viver vale a pena e com a certeza de que nada mais poderia me abalar. Ledo engano, na estação seguinte embarcaram trabalhadores voltando pra suas casas depois de uma jornada exaustiva. Entre eles dois rostos conhecidos, Muzzike e DJ Nyack, a pouco tinha os vistos no palco, pra mim foi como se tivesse embarcado Barack Obama ou se Lula tivesse deixado o cárcere.

Bem diferente da desgastada forma de tentar materializar o sucesso nos videoclipes cheio de carrões. Dividir o vagão de metrô com essas figuras, depois do nirvana que provocaram na plateia é a comprovação de que Triunfo não é uma palavra, é a atitude!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

A VídeoRUA Produções apresenta “Alo Comunidade!” de Leci Brandão

alo2

A cantora, compositora e sambista Leci Brandão lança um novo programa no seu canal do YouTube. “Alô Comunidade!” é o nome da série de vídeos onde Leci Brandão apresenta os enredos das escolas de samba paulistas do grupo especial do carnaval 2018. A partir de 9 de janeiro, serão publicados 14 vídeos relativos às agremiações do grupo especial. Leci foi a primeira integrante feminina da ala de compositores da Mangueira do Rio de Janeiro, é um dos grandes nomes do samba no Brasil e comentou por muito tempo os desfiles de carnaval de São Paulo e Rio de Janeiro pela TV Globo. Voz da experiência, Leci fala com autoridade sobre o que esta festa popular expressa de melhor: a Comunidade, termo usado pela cantora em todos os comentários que fez.

foto                     Crédito da foto: Demetrios dos Santos Ferreira

No YouTube, porém, Leci ressalta que o formato será bem diferente: “Antes eu percorria todas as escolas, uma a uma. Conversava pessoalmente com a comunidade, com as tias baianas, carnavalescos, harmonia, enfim. Hoje, a falta de tempo não me permite fazer tudo como antes. Mas, tenho o maior prazer de falar sobre o carnaval, isso me faz muito feliz mesmo e espero que o nosso povo goste. Fizemos tudo com muito carinho e simplicidade”, explica.

Assista ao teaser, inscreva-se no canal Leci Brandão Oficial e marque o “sininho” para receber o aviso de novo vídeo! Link: YouTube.com/LeciBrandãoOficial


Serviço
Canal “Leci Brandão Oficial” no YouTube estreia o programa “Alô Comunidade!”
Tema: enredos das escolas de samba do grupo especial do carnaval 2018
Link de acesso para o canal: YouTube.com/LeciBrandãoOficial

Ficha técnica
Produção – VídeoRUA Produções
Direção – Toni C.
Técnico de som – Jonathas Costa
Som direto – Daniel N. Faria
Produção – Luciana Karla
Câmera – Demetrios dos Santos Ferreira, Daniel N. Faria, Toni C.
Voz vinheta – Daniel N. Faria
Fotografia – Demetrios dos Santos Ferreira
Participação Especial – PH do Cavaco

Contatos
nois@literaRUA.com.br
leci.brandao@hotmail.com
CDs de Leci Brandão podem ser adquiridos pelo e-mail: cdlecibrandao@gmail.com – com Alexandre Battel, presidente do fã-clube Auto Estima

Sobre a apresentadora do Alô Comunidade!
Leci Brandão nasceu no Rio de Janeiro em 12 de setembro de 1944. É cantora, compositora e umas das mais importantes intérpretes de samba da música popular brasileira. Começou sua carreira musical no início da década de 1970. Gravou 24 álbuns, entre eles, três compactos e dois DVDs. Entre 1984 e 1993, Leci foi comentarista dos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro pela TV Globo. Após uma pausa de seis anos, voltou a comentar o Carnaval carioca de 2000 a 2001. Entre 2002 e 2010 comentou os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo, pela mesma emissora. Leci é madrinha do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé, campeã do carnaval de 2017, agremiação que acompanha desde 2012 quando foi tema do enredo da escola. Completou 40 anos de carreira artística em 2015 e lançou seu novo trabalho, “Simples Assim – Leci Brandão”, em 2017.

Rap da liberdade para José Amaro Correia, o nosso Mário Sapo

Urariano Mota *

 

Em um trecho do Dicionário Amoroso do Recife, escrevi: “José Amaro Correia, Zé Amaro, ou Mário Sapo, como o chamamos, era e continua a ser um socialista, militante político, preso em 1973 no DOI-CODI no Recife…

Quando eu lhe pergunto se depois de tanta luta, se alguma vez ele não pensou em desistir, ele, que sei estar com problemas circulatórios, pressão alta, e que piora todas as vezes em que se emociona, ele me responde:

— Desistir? Nunca! Às vezes me dá uma preguiça. Mas dá e passa.

Então ele me conduz, tateante, devagar, até o portão. Às vezes vira a cabeça de lado para ver o meu vulto, quem sabe, algum traço. Talvez não veja mais nem sequer a minha sombra. E não diz. Mas entendo. Devo ser mais real que o seu sonho, que um dia ele escreveu num poema:

‘Vivo semeando o sonho
Do fim da pobreza
De todas as crianças terem o direito
De brincar e sorrir
Vivo a semear o sonho
Do nascer igual
Perante a natureza dos homens’”. 

Agora em 2017, na quinta-feira à noite, ele falece aos 74 anos de idade. Estava com a saúde ao fim em tudo. Infecção nos pulmões, nos rins, no coração. Quando eu o visitei na UTI, embora ele estivesse sem consciência, pelo que falavam, eu lhe disse na esperança de que me ouvisse:

– Você é meu irmão. Você sabe: não te faltei antes na ditadura, não vou te faltar agora.

Pois bem, porque agora vem o segredo de uma revelação: na quarta-feira, quando o ônibus parou próximo ao hospital onde ele estava internado, subiu um grupo de três jovens que, antes de começarem a pedir uma ajuda, começaram a cantar um rap. Um rap da liberdade.

Eu fiquei comovido até os olhos, porque pensava: o meu amigo no fim e estes jovens cantando a liberdade. Era como a encarnação viva do meu próximo romance. Eu me dizia: cantam para ele. E me vieram associadas as palavras de John Donne:

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

| Mario Sapo e Urariano |

Então os jovens cantavam para Mário Sapo, eu os compreendia muito bem. Cantavam e tocavam pelos guerreiros. Então eu nunca tinha ouvido um rap tão emocionado. E pensei também no Toni, da LiteraRua, na editora do meu próximo romance. E volta agora a apresentação que José Carlos Ruy escreveu para o livro, no trecho:

“O tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente… Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista”.

Aquele canto no ônibus, a sua associação ao amigo que padecia não era delírio. É fato. Os jovens cantavam um rap que se unia ao amigo, na mais longa duração da juventude. Então eu aplaudi com entusiasmo, como quem grita: presente! um guerreiro cai, outro se levanta. Esses jovens com violão, percussão e canto levam adiante a resistência . Eles são inconformados como a maior razão de viver.

Agora, com o falecimento de José Amaro Correia vem um breve abatimento. Mas não temos esse direito. Não podemos cair e esmorecer. É levantar a cabeça e continuar a caminhada. Se possível, até o lado ensolarado da rua.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.

Um presente para a Música Eletrônica, estreia o livro MEB

Um verdadeiro tratado sobre como a música eletrônica em nosso país se deu, desde os primeiros passos na década de 1930 até a contemporaneidade. Um trabalho minucioso, cronológico e que se complementa com centenas de biografias de artistas e personalidades fundamentais para a construção do mosaico brasileiro eletrônico. Assim é o MEB – A História da Música Eletrônica Brasileira, novo lançamento da LiteraRUA Editora que chega ainda em agosto.

eric_livroQuem afirma que a estreia de Eric Marke é apenas agora está muito enganado. Antes do livro MEB, Marke acumulou uma vasta e respeitosa experiência em diversas áreas, mas todas interligadas ao universo musical: DJ há mais de três décadas, onde discotecou em memoráveis casas como Madame Satã e Espaço Retrô aqui em São Paulo, é também jornalista e atuou como correspondente da TV BBC News em jornalismo cultural. Hoje é professor universitário com longa experiência, atualmente leciona no Centro Universitário Belas Artes.

Tudo isso é para mostrar que o livro de estreia de Eric Marke é apenas uma importante fração de tudo o que ele já faz e do que ainda está por vir.

Hoje, 11 de agosto, é o aniversário do autor, mas o presente é seu também: ainda nesse mês a LiteraRUA trás o livro MEB, um lançamento singular, necessário, intenso e urgente. Para comemorar tudo isso, estivemos com ele para um breve bate papo que você acompanha abaixo. Saiba mais como o MEB foi construído e se prepare para essa jornada que já está em pré-venda:

Blog LiteraRUA: Qual a importância da sua obra para a Música Eletrônica Brasileira?
Eric Marke
: Não só acredito como eu sei que esta obra será de grande importância para todo cenário da música eletrônica brasileira e mundial. É um marco inicial para todos que gostam de ler sobre este tema, sem restringir a nichos e grupos. A partir das consultas no meu livro, os leitores que produzem Música Eletrônica vão poder continuar esta história e criar suas próprias. Eu espero estar junto nas lives – ou onde puder estar –acompanhando, gravando, entrevistando ou somente curtindo com meus amigos.

 

eric_fone

Eric Marke sob a lente de Demetrios Santos


BL:
 Fale um pouco sobre como a pesquisa foi desenvolvida e quais os critérios para escolha dos cenários e artistas retratados no MEB?
EM: Eu comecei a pesquisar alguns temas sobre música eletrônica, e me deparei com a falta de um livro que falasse sobre a documentação do cenário brasileiro. No começo tive que fazer vários contatos via cartas, e-mails ou encontros para iniciar um mapeamento. O único critério abordado foi tentar resgatar o máximo de histórias possível, dentro de um modelo enciclopédico.

BL: Quando e por que você decidiu escrever sobre a história da música eletrônica brasileira?

20375756_1421987807894425_5486752556579874895_n

O livro já está disponível em pré-venda

EM: Em janeiro de 2000 comecei a escrever meu livro. Eu decidi abordar este tema pelo amor que tenho pela música eletrônica – é algo muito difícil de explicar, pois esta dentro de mim, no meu coração.

BL: Quais os maiores desafios pra conclusão desse projeto?
EM: São três grandes desafios: o primeiro foi em trazer o máximo de informações em um único livro. Depois, escrever sendo imparcial. E então, resolver concluir para enfim publicar.

BL: Porque você escolheu a LiteraRUA para essa parceria?
EM: Bom, certas amizades são para sempre, mesmo quando às vezes estão um pouco distantes. O Demetrios (meu editor) é um amigo de longa data. Lembro que ele trouxe uma vez o Toni (CEO da LiteraRua) para conhecer minha casa e conversar com meu pai sobre política – isso há muitos anos. A escolha foi mais que certa, pois uma das principais linhas editoriais da LiteraRua é sobre música.

BL: 15 anos não é muito tempo pra conclusão de um livro?
EM: Cada autor tem seu tempo para lançar seu livro, e somente cabe a ele esta decisão. Não importa o tempo que levou para escrever, e sim sua conclusão e sua publicação. No meu caso, tomei a decisão de reunir o máximo de histórias por todo Brasil, e sabia desde o começo em 2000 que isso não seria fácil, mas nunca desisti. E agora depois de 17 anos é com enorme orgulho (do tipo de ver seu filho nascendo) que encerro esta primeira etapa.

Garanta já o seu:

capa_MEB_web_b

Compre agora (Pré-venda)

Por: R$ 39,99 

Economize  R$ 10,01

ou 1x Sem juros de R$ 39,99 
ou 2x com juros de R$ 20,59

Com vocês, a fantástica Virada Cultural, na Cracolândia!

cracolandia1_

– AÍ CARAI!

Soltei sem querer o palavrão num urro ao acordar com o estrondo dos primeiros tijolos da parede zunindo rente ao meu ouvido antes de espatifarem com toda força no chão.

Jamais falei um palavrão na frente dos meus filh… Meus filhos!? Cadê meus filhos? E ai eu só ouvi o PÁAAH!

A retro escavadeira fez um arregaço na parede. Mesmo engolindo pó, mesmo no escuro, mesmo antes do segundo golpe daquele dinossauro de aço eu já tinha juntado toda minha prole.

Segurar os quatro filhos com duas mãos é coisa que só uma mãe acuada é capaz. Nessa hora a gente arranca força nem sei da onde. Tá certo que dormir todos juntos na mesma cama ajudou para eles só acordarem já debaixo de minhas asas.

Passei a mão nas crianças e foi só o tempo da parede vir abaixo fazendo desaparecer a cama em que a gente dormia neste mesmo instante.

Pensei que era um pesadelo, daqueles bem feio que faz a gente se mijá nas calça e acordar no susto. Antes fosse fí.

Era um pesadelo, mas era um pesadelo invertido. Num vai acha que pesadelo invertido é o sonho da Cinderela, abraça. Pesadelo invertido é aquele que começa quando você acorda e a abóbora tá desmoronando junto com os tijolo tirando fina da sua cabeça.

Do buraco da parede entrou uma luz forte do farol da escavadeira, junto do vento frio trazendo a chuva gelada, nem sei que horas era mas ainda estava escuro lá fora. Eu só vi os vulto de um monte de homem fardado invadindo meu barraco com fuzil na mão, andavam feito um bando de baratas quando a gente destapa um bueiro.

Mas é um bueiro invertido. Não vai pensar que bueiro invertido é um palácio de luxo. Né nada disso não. É que quando destampou a parede, quem tava lá morando dentro era eu e meus fí, eu digo bueiro mas era minha casinha humilde paga com meu suor e de meu finado marido. E as baratas foram entrando como quem procura o ralo do esgoto pra fugir da chinela.

Eu escondi as minhas cria tudo pra traz de mim. Meu penhoar ficou transparente mas eu não me avechei não.

– Quiqui seis qué na casa de uma muié cheia de fiu? A gente num faz um mal pra ninguém, aqui ninguém é bandido não.

Foi um corre-corre, um pega pra capá. No meio do furdunço fui vendo que não era só minha casa que foi invadida, foi o bairro todo. Pense numa baderna…

Eu vim de uma terra chamada Ceilândia, cheguei aqui com a idade dessa minha fia caçula. Fui criada num bairro chamado Brasilândia. Até que descobri que estava grávida.

Meu pai não aceitou aquilo, disse que o cabra que deitou com sua filha tem que casá. Falou pra minha mãe que se eu já sabia fazer nenê, também já sabia cuidar das cria.

Foi aí que vim para nesse canto de mundo.

Meu marido era um homem bom, quando a gente viu já era quatro fio.

Um dia ele voltando tarde do trabalho pra casa levou um tiro da polícia, confundiram com um nóia daqui da área e mataram ele com quatro tiros, a mesma quantidade de fio que ele pôs no mundo.

Sem dinheiro pro velório o coitado foi enterrado como indigente.

Até esses dias eu não sabia o que era a guerra, terremoto, furacão, terrorismo essas desgraça que a gente só vê pela televisão e que acontece em lugar bem longe. Agora posso dizer que sei como é qui é.

Já faz uma semana desde aquele domingo chuvoso. A cidade toda em festa e pra cá a virada cultural foi revirando minha casa de ponta cabeça.

Me disseram que quem mandou aqueles homens baratas destruir minha casa foi esse tal prefeito, disseram que ele fez isso pra subir novos prédios. Eu não acreditei não. Subir prédio, pra que esse trabalho se já tinha prédio aqui? Agora destruiram tudo.

Dizem que é o prefeito, mas eu sei que não é.

Ele é um moço bonito, bem apessoado, fala bem, tem dinheiro, é estudado. Jamais uma pessoa dessas iria fazer isso com as família, tinha moça gravida, gente de idade que nem eu ví.

Onde já se viu derrubar casa cheia de gente dentro, só uma pessoa sem nada de bom dentro pra querer uma coisa dessas.

Eu votei nesse prefeito sabe. E vou votar nele de novo pra presidente. Isso é se eu conseguir achar os meus documentos no meio desses entulhos.

Já sei que vou morrer sem conseguir meu aposento, sem receber uma pensão do pai dos meninu.

Se eu recebesse um dinheirinho bom, iria querer levar as criança tudo pra Disneylândia.

Eu sei que é sonho alto pra uma mãe sozinha que cria os fí nesse porão de almas que eu chamo de Luz, mas o povo só conhece como Cracolândia.

A mim eles não me permitem nem sonhar, não me permitem nada, fora, temer.”

Toni C.
Texto originalmente publicado no jornal portugues Tornado.

Cuidado com os perigos ocultos da Baleia Azul 🐳

À primeira vista parece um jogo inofensivo. Mas não se deixe enganar a Baleia Azul é um desafio mortal.
baleia-azul-memes-990x520
O fascínio que exerce o desafio Baleia Azul é sedutor, quase irresistível principalmente aos adolescentes e pessoas que pensam ser bem instruídas. Tanto que o nome mais apropriado para esse grupo de pessoas mal intencionadas deveria ser Sereia Azul, mas seria óbvio demais que o canto e a beleza estética da Sereia tem um só objetivo: levar as pessoas e a nação para a obscuridade profunda.
O grupo de curadores da tal Baleia submetem os participantes a um sequestro psicológico, bombardeando a todo instante com mensagens e desafios.
Um dos desafios mais perverso é assistir a um show de horrores todas as noites, na hora do telejornal.
Mutilação de caráter, cortes feitos com faca contra os próprios direitos e até suicídio intelectual estão entre as provas que os participantes são obrigados a se submeter.
Há relatos que pessoas antes amistosas e alegres, tarde da noite, agora ensandecidas, batiam panelas em suas varandas.
Uma multidão foi flagrada em constrangedoras coreografias, vestindo verde e amarelo e um odioso discurso contra semelhantes em cerimônia de devoção ao Pato Amarelo, uma fase avançada do jogo sórdido do macabro grupo da Baleia Azul.
Um participante do grupo chegou a postar: “Você precisa morrer, morrer de tanto trabalhar sem se aposentar!”, defendeu uma jovem que não quis se identificar, ela ainda acrescentou, “Tenho que fazer isso caso contrário minha família sofre as consequências”.
Os participantes demonstram comportamento depressivo e a economia também, vários foram submetido à falta de emprego, um castigo cruel imposto pelos organizadores do jogo. Até onde apuramos a obsessão dos criadores do jogo vem de outro animal marinho, a Lula Vermelha.

Veja alguns sinais de atitudes que podem estar relacionadas com a jogatina dessa Baleia assassina:

1. Mutilações nos direitos que antes estavam palma da mão.
2. Assistir filmes de terror todas as noites no horário do jornal.
3. Grandes desenhos de Pato ou qualquer outro animal.
4. Posts em redes sociais com os dizeres ofensivos e a marca “#i_am_whale” (“Eu sou uma Baleia”) ou #vai_pra_cuba (Vai pra Cuba).
5. Bater panela em horários estranhos.
6. Cortes nos “gastos” na previdência principalmente.
7. Arranjar brigas.

Uma coisa você pode ter certeza: A Blue Whale ou Baleia Azul existe, tem nome, endereço e conhecemos por aqui como Rede Globo de Televisão.
TC

“Pixação” (é) e Arte(?)

Por: Demetrios dos Santos Ferreira*

Existe uma nítida falta de consenso sobre o aspecto artístico da pixação (opto em grafar a palavra com ‘x’ pois essa é a forma mais comumente adotada pelos próprios pixadores). Uma parte desses próprios agentes ­alegam que o que estão produzindo não é arte, já outros encaram o ato de pixar como uma forma de arte.

0ca41f71340c25e97eb4f2f38338a192

Edifício Pixado no centro de São Paulo

No documentário “Pixo” (http://bit.ly/PixoDoc) dirigido em 2009 por João Wainer e Roberto T. Oliveira, temos uma oportunidade ímpar de entender a pixação por meio dos próprios pixadores.

William, um pixador da cidade de Osasco em São Paulo faz um relato interessante nesse filme, que nos ajuda a refletir sobre o significado da expressão por meio da pixação.

Ele afirma que não é capaz de ler a “letra de forma”, apesar de ter passado oito anos na escola. William chegou a concluir a oitava série do ensino fundamental, mesmo assim ele afirma que só consegue “ler pixos” e que não compreende de forma alguma textos produzidos em letras de forma.

Durante o documentário, ao tentar ler textos de um anúncio comum pintado nas paredes em sua comunidade, William não consegue ler frases muito simples, mas ao se deparar com pixações diversas, que para a maioria de nós seriam inteligíveis, William consegue ler normalmente, sem nenhuma dificuldade. Ele afirma que compreende muito bem a tipografia das letras utilizadas na pixação. Ou seja, há um código estético estabelecido que pode ser perfeitamente compreendido ente o grupo social de pixadores e isso não pode ser desprezado em nossa análise. Continuar lendo

Marcela e Marisa, duas histórias de amor

marisa_marcela

Se uma história de amor não bastasse, conto logo duas: a de Marcela e Marisa, duas mulheres casadas, mães, brasileiras, vivendo na Grande São Paulo.

As semelhanças entre as duas moças parecem que terminam por aí, mas aproximando a lente você verá outras semelhanças entre essas duas pessoas de estilos bem diferentes.

Marisa tinha uma vida parecida com a da maioria dos brasileiros, uma trabalhadora que acordava cedo e conheceu os dissabores da vida. Boa parte de sua existência passou sem chamar muita atenção. Desaparecia na multidão.

Marcela é puro glamour, sempre chamou atenção. Sonhava em ser modelo, se tornou a queridinha do Brasil.

As diferenças entre ambas parece não ter fim…

Até que um dia: Continuar lendo

Aos alienados: revolução. Em tempos de ódio: o amor. Esse é Mano Brown, Boogie Naipe, Baby

Por: Toni C.*

Tem ser humano que é tipo vinho e tem os zé povinho, esse cara é definitivamente do primeiro tipo, tinto. Aquele que rimou sobre revolução enquanto éramos todos alienados, é o mesmo que canta amor em tempos de ódio, no elegantíssimo álbum Boogie Naipe pelo primeiro e único: Mano Brown.

mano_brown_boogie_naipe
A gente só queria dançar feito Michael Jackson e ter a cor que ele adotou aos 40 anos. Paulo Maluf vencia eleição para qualquer coisa que ele disputasse antes da gente saber sobre Malcolm X. Música jovem na quebrada no fim dos anos 80 era música estrangeira e ponto.
Posso falar um quilo dos tempos da Função, quando Gil Gomes era quem mostrava ao seu modo a favela, os pé-di-pato era fábrica de presunto.
“Justiceiros são chamados por eles mesmos
Matam homens e dão tiro a esmo” (Pânico na Zona Sul)
A partir daí, nada mais ficou no mesmo lugar.
Quer saber o que era ser jovem de periferia em 1992? Digita Negro Limitado e ouça Edi Rock no álbum Escolha Seu Caminho, a gente era limitado pela falta de informação, falta de orgulho, falta de estima própria.
Hoje os tempos são outros, temos informações até de sobra. Não se informa quem não quer,  quem fica só de zepovinhação, quem não morre afogado pelo tsunami de ideias, pela desinformação num mundo pós-verdade.
Eis que ressurge Mano Brown de maneira futurista e nostálgica como o globo espelhado no alto da pista de dança. Contagiante e versátil, Boogie Naipe é um álbum musicalmente foda. O primeiro disco solo de Mano Brown tem uma atmosfera envolvente fazendo das canções um repertório tão variado quanto os embalos de sábado a noite.
Confesso, resisti para ouvir e quando apertei o play fui imediatamente sequestrado por Simoninha…

Continuar lendo