Pedido de fim de ano: Quando o vírus revela o verme

Você pediu.

Me lembro como se fosse ontem: contagem regressiva, fogos, champanhe.

E você desejou com tanta força que quase dava para ouvir em voz alta.

Você pediu mais tempo pra você.

Pediu mais tempo para ficar juntinho de sua família, seu parceiro, filhos, seus amores…

Você desejou que o mundo inteiro se unisse numa só causa.

Que todos percebessem o quanto somos dependentes uns dos outros.

Você desejou um ar melhor para respirar.

Que a cidade fosse mais organizada, a vida menos atribulada, sem trânsito, buzina, que as pessoas não se esbarrassem no vai e vem frenético. Você pediu um tempo para sair do “piloto-automático”, queria não ter rotina.

Você pediu, lembra? Pediu e prometeu que neste ano iria se alimentar melhor – Regime não, reeducação alimentar – esse era o seu mantra.

Você queria que o dinheiro não significasse tanto na vida das pessoas. Que todos fossem tratados iguais.

Pediu, pediu sim vai, menos falsidade, nada de beijinho, abraços, apertos de mão.

Prometeu que quando sobrasse um tempo iria colocar a leitura em dia. Que iria passar a tratar as pessoas como gostaria que elas também te tratariam.

Confesse, você pediu todas as manhãs mais cinco minutinhos para o despertador. Quando na verdade queria mesmo era passar o dia todo deitada na cama sem ter nada pra fazer.

Você pediu que a vida não fosse tão corrida, trabalho, estudo, academia, cursinho… Quantas vezes eu peguei você amaldiçoando tudo isso?

Você pediu, ah como pediu, não ver mais a cara de seus colegas de trabalho, reunião nem pensar, ficar bem longe daquela falsa do escritório, lembra? – Nem pintada de ouro!

Você pediu, pediu não, implorou, queria ter todas as últimas novidades do mundo moderno made in China e agora taí.

Você queria que a violência diminuísse, então me diz: pra que serve aquela arminha que seu candidato tanto fazia? Agora, do que adianta ir pra varanda bater panela para o presidente que você elegeu?

Foi você quem pediu. Pediu não, exigiu. A volta dos médicos pra Ilha e agora minha filha, não adianta aplaudir os profissionais dos hospitais.

Logo você que sempre pediu para acabar com tantas regalias de dentro da cadeia, comer de graça e ficar o dia inteiro sem ter o que fazer, ironizava – Êeee vidão! – Agora é você quem pragueja que sua casa virou uma prisão.

Lá no fundo você pediu em silêncio pra chegar o apocalipse e acabar com tudo, assim você alcançaria a redenção.

Só que, quando todos os seus desejos se realizaram, você se apavora na ânsia de ter sua vida medíocre de volta, meu bem?

E como é que tudo isso eu sei?

É que eu sou sua consciência e não leva umas não, que eu peso na sua.

Cuidado com o que deseja!

Toni C.

Uma imagem e mais de mil palavras, conheça Beatriz símbolo da rebeldia juvenil das manifestações estudantis

A pandemia que enfrentamos hoje faz com que ficar dentro de nossas casas seja um ato político pela vida, há apenas três anos, ocupar as ruas era a maneira mais avançada de combater  a violência contra a democracia que deixou sequelas até hoje. Em março de 2017, estudantes e professores ocupavam as Ruas e as escolas em defesa da educação e do direito a aposentadoria. Meses depois, em setembro, a LiteraRUA lançava A Mais Longa Duração da Juventude.

“Ver os alunos organizados contra a desorganização foi a maior ironia que o Estado não esperava.”

Todo esse contexto, nos permitiu escolher duas fotos históricas para ilustrar a capa da narrativa de Urariano Mota. A primeira refere-se a Passeata dos Cem Mil, ocorrida em junho de 1968 e um marco da luta de artistas contra a ditatura militar que imperava no Brasil.

passeata-famosas

Na foto, da esquerda para a direta, podemos ver as atrizes: Eva Todor, Tônica Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Normal Bengell.

Sobre essa foto, explicou em março de 2018 a atriz Eva Wilma, no programa Vídeo Show da TV Globo:

“…É uma foto famosa, emblemática, de um momento difícil para a cultura no país. Era uma mobilização contra a censura e pela cultura. Os teatros todos de São Paulo pararam, uma greve. A mobilização foi combinada de ser feita nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Três dias e três noites ininterruptos. A gente se revezava”

Essa imagem imortalizou a participação de mulheres fortes e formadoras de opinião na luta contra o Golpe Militar.

Já a segunda foto que escolhemos com apoio do artista gráfico Andocides Bezerra para a capa do romance, retrata um momento contemporâneo, uma manifestação de 15 de março de 2017 contra a Reforma da Previdência e sobre o sucateamento promovido no Ensino Médio pelo então presidente Michel Temer:

protesto-sp

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Na foto, de autoria da fotógrafa Rovena Rosa, vemos em destaque uma jovem estudante, no ápice da Juventude, demonstrando força e poder. Não foi por acaso a escolha dessa foto: o gesto executado por essa jovem, remete de forma quase que direta aos gestos executados por Tommie Smith e John Carlos em outubro de 1968, durante as Olímpiadas: o símbolo que eternizou os Panteras Negras.

q2qGZfdV0WRm-52lHV5ZP1Oppzw4Ce0ZB5k8qPzd6XcO click perfeito de Rovena Rosa, feito para a Agência Brasil, não apenas serviu para a capa do nosso livro, mas também rodou a internet, se transformando em uma imagem obrigatória para entender e sentir a rebeldia e força daquela contestação que ilustrou (e ainda ilustra) dezenas de matérias publicadas nos mais variados contextos, de veículos como a publicação semanal CartaCapital, aos blogs de sociólogos como o Demétrio Magnoli. E não apenas isso, em determinados momentos essa imagem foi utilizada até mesmo para ilustrar memes reacionários com críticas aos movimentos sociais, uma prova efetiva de que estamos diante de uma imagem icônica.

Mas, quem é a jovem em primeiro plano na imagem? Chegou a hora de conhecermos quem era essa estudante,  pelo o que passou e para onde seguirá. Seu nome é Beatriz Punça, 18 anos e estudante de Ciências Sociais da Unifesp, em Guarulhos.

O Blog da LiteraRUA conversou com ela há algum tempo e temos o prazer em revelar essa história para vocês, agora.

LiteraRUA: Conte um pouco sobre você?

Imagem1

Beatriz: “O ápice dessa foto foi ter chegado na capa de um livro, se tem uma coisa que eu não imaginava na vida, era isso”.

Beatriz: Todos me chamam de Bia, com exceção da minha mãe quando está brava. Inclusive, já iniciando com quem me espelho, Eunice, minha mãe, 35 anos, primeira pessoa com ensino superior da família e Jorge, autônomo que sabe fazer tudo ou quase tudo nessa vida.

Tenho 18 anos recém completados, moro desde que nasci em Lavras, bairro periférico de Guarulhos a cidade do “super aeroporto” e, apesar de quando pequena achar que isso facilitaria as minhas várias futuras viagens (não que não vá acontecer), só voei pela primeira vez aos 17 anos, pra visitar meus familiares do Nordeste.

Estudo ciências sociais na Unifesp. Trabalho em um hotel, que apesar de acolhedor internamente, me faz ter contato  com realidades que antes eu só via na TV, igual ao João do livro Reservado [LiteraRUA, 2019].

LiteraRUA: Qual você pensa ser sua vocação, sua missão de vida?

Bia: De uns tempos pra cá, tenho tido cada vez mais certeza: trabalhar com jovens. É o que faço há 6 anos e talvez o fato de ser tão prazeroso, mesmo que desafiador, reafirma essa missão a cada dia. Dialogar, analisar, provocar, questionar, sensibilizar, transformar… É realizador saber que com o trabalho de base e eu, somos capazes de fazer com que esses verbos não sejam ações só na grafia. Dando aula, participando de atividades, indo às escolas, criando um projeto, não sei ao certo, mas sei que é com os jovens.

LiteraRUA: Você atua ou atuou em algum projeto educacional ou cultural? Pode nos falar um pouco de sua participação em trabalhos voluntários?

Bia: Não sei se posso considerar educacional/cultural, mas é isso que venho fazendo desde 2013. Sou coordenadora de um grupo de base da Pastoral da Juventude, uma das pastorais sociais da Igreja católica, que vai muito além de evangelizar jovens, mas desenvolver uma nova ideia de mundo, com uma metodologia que, desde os primeiros contatos, me encantou.

Nunca em outro espaço, falamos sobre nós, sobre o eu, sobre o outro com tanta intensidade como nas propostas da Pastoral. Esse é o chão de aprendizado, de formação integral, de crescimento em que eu piso e sei que, dos meus 12 anos pra cá, foram muitos aprendizados. Um dos mais gritantes é o método “ver-julgar-agir”. Usamos isso pra tudo ou quase tudo, pra analisar/adentrar em diversas temáticas. Conforme a Pastoral foi sendo mais que um “domingo de manhã”, percebi o quanto ela já estava internalizada no meu jeito de ser. Foi e ainda é o chão perfeito pra uma menina cheia de questionamentos e pisar nesse chão não deveria (não hoje) abalar as estruturas que permeiam (a Igreja católica): o tão temido desafio da fé e política.

Na Pastoral a gente descobre um Jesus diferente daquele que algumas pessoas pintam por aí (tenho um poema sobre isso inclusive). Mas além de descobrir, a gente reflete sobre as nossas realidades com um olhar de “menos julgamentos” e “mais amor” ou com um olhar mais crítico e menos senso comum. Os encontros que construímos variam em temáticas de identidade, educação, sociedade, relações, esperança, ou qualquer outra que estejam de acordo com a realidade do grupo. O planejamento traçado, o cenário ao redor, entre outros… também caminham com a formação integral de todos, em que cada um se desenvolve conforme suas particularidades.

LiteraRUA: Conte um pouco pra gente da sua família?

Bia: Em casa somos em seis: mãe, pai, um irmão de 15 anos, minha irmãzinha de 4 anos e minha gata. A família que tenho bem mais contato é a da minha de mãe, convivo constantemente com todas as três tias e primos. A família por parte de meu pai, vejo mais esporadicamente. No Nordeste tenho família de pai e mãe. Em Recife avô, tias e primo e em Alagoas mais alguns tios, ambos de parte de pai. No interior do Pernambuco muitas tias de parte de mãe.

LiteraRUA: Bia, você gosta de Literatura?

Bia: Eu sempre gostei de escrever, desde novinha. Todas as propostas dos professores eu abraçava. Em 2012 fiz um blog que durou até 2015, nele eu publicava sobre roupas, tênis, tendências, ideias e algumas resenhas de livros. Nesse meio tempo, em 2015 escrevi pra um portal de universo juvenil, não ganhava nada, não era um portal famoso, lembro de ter ficado feliz com o convite pra escrever e me dedicava a postar uma vez por semana sobre lançamentos, livros, eventos e o que estivesse gerando comentário.

Mais recentemente me descobri na poesia, gosto de viajar nas ideias e brincar com as rimas… Não escrevo com a frequência que eu gostaria, ultimamente o que tenho são ideias e mais ideias de rimas, de histórias que eu nunca tiro do papel, ou do bloco de notas do celular, no caso. Por gostar de escrever, o que é proposto eu me jogo, já escrevi nota de repúdio pra organização estudantil, crônicas pros concursos da escola e poemas, sejam de amor, sejam de luta. Até me arrisquei a compor uma música (o que o amor não faz com a gente, né João?). João é meu namorado e ele é culpado de algumas madrugadas de sono perdidas escrevendo coisas fofinhas.

Por conta da faculdade, eu tenho corrido pra tentar ler os textos das aulas e não leio mais por hobby. O que tenho arriscado escrever nesses últimos tempos, compõem o que conhecemos por poesia marginal, registrar em rimas histórias que acontecem, dores que são guardadas e gritos que são diariamente silenciados, tirando um pouco do sentimento de impotência diante de tudo que rola.

LiteraRUA: Quando e de que forma começou a atuação nos movimentos sociais?

Bia: Através da Pastoral da Juventude (P.J.). Eu era a mais jovem dentre aquelas pessoas, então sempre ouvi entre eles sobre além das próprias atividades, como a Semana da Cidadania e a Semana do Estudante que são realizadas por toda pastoral nacional, com subsídios de estudos, ideias e encontros com temáticas que despertaram o protagonismo que já tinha uma chama acesa em mim.

Em 2015, na oitava série, fui presidente do grêmio da escola e essa experiência foi o start. Em agosto, acontecia em todo país campanhas contra a redução da maioridade penal e a Pastoral aderiu a Campanha do Amanhecer contra a redução. Ajudei nos bastidores fazendo estêncil e artes que decorariam toda a praça de um bairro vizinho de onde moro. Nesse mesmo ano participei pela primeira vez do Grito dos Excluídos, ato organizado nacionalmente no dia 07 de setembro para questionar o tão falado Dia da Independência. Aqui em Guarulhos, quem organizava o grito até o ano retrasado era a P.J., foi a primeira experiência de estar na rua, de gritar o que incomodava.

Em seguida desembocaram as ocupações e foi quando me joguei nessa vida, foi quando mesmo que cedo, a militância me abraçou… Uma das mentes pensantes para a ocupação da escola aqui do bairro do Lavras. Em um domingo à noite, mais de uma cabeça indignada junta não ia dar bom, na real deu bom. Ocupamos a escola contra a desorganização escolar que era proposta pelo nosso governador. Dia inteiro na escola, esquema de organização, limpeza, comida, união de uma galera do bairro que eu mal conhecia, mas já considerava demais. Foram dias loucos… saudades.

Ver os alunos organizados contra a desorganização foi a maior ironia que o Estado não esperava, participar integralmente disso aquecia ainda mais a chama de esperança que ardia no meu peito. Nesse ano também conheci a JR, Juventude Revolução, organização de jovens até então apartidária, que defende causas plausíveis e fundamentais. Inclusive foi essencial para que a escola fosse ocupada e durante todo o processo. Segui participando de alguns encontros e formações da JR, a partir daí tiver maior contato com as entidades estudantis.

Já na nova escola, ensino médio, colhi assinaturas pra representar com mais uma galera nossa escola em um Congresso da UPES. Durante o Congresso, a galera da JR me propôs um cargo na diretoria executiva da UPES, não aceitei. Gosto de saber o chão que piso, a UPES nem de longe estava presente nas escolas, não nas periferias, e eu nem sabia de sua existência antes da ocupação e gostaria que essa crítica não fosse mais atual. Não tinha pés (nem grana pra ficar indo em reunião em São Paulo, que sempre nos custou muitos dinheiros) pra mudar as estruturas. Preferi me abster. Daí em diante, foram vários atos, várias ideias, algumas atividades na escola, panfletagens, de algum jeito, sempre na ativa.

LiteraRUA: E o que a levou a manifestação que se tornou uma imagem das lutas sociais daquele período? Como foi?

Bia: De novo a indignação. Como queriam definir o que era bom ou ruim para nós estudantes, sem antes nos consultar? Éramos responsáveis o suficiente pra optar entre matemática ou história, mas não para opinar em seus projetos de lei? Professores e alunos unificados foram para as ruas, dizer Não a reforma do ensino médio, Não a reforma da previdência e Não ao governo ilegítimo que todos os dias nos atacava.

 

Imagem2

Bia sob a lente de Demetrios dos Santos

LiteraRUA: A foto, com sua imagem ganhou grande notoriedade. Você sabe o que gritava naquele momento? Qual era o clima e seu sentimento no momento do clique?

 

Beatriz: Era 15 de março de 2017. Tínhamos várias palavras de ordem e até algumas com ritmos de funk. Mas a que mais marcava era “A nossa luta, unificou. É estudante, operário e professor”. Com certeza eu gritava o mais alto possível, sem me importar em ficar rouca, a vontade era que aquele grito, aquele coro, fossem ensurdecedores, a vontade era realmente  fazer barulho, ser escutada, fazer com que os gritos diariamente silenciados nas quebradas, nas ruas, nas escolas, nas casas, nos hospitais, fossem enfim escutados. Se eu não trabalhava, se eu tive a oportunidade de cruzar a cidade pra ir lá, eu precisava gritar, não só por mim, mas por todos esses gritos silenciados.

Era depressão pós golpe, Temer nos surpreendia a cada dia com novas mudanças e a greve geral da educação naquele dia tinha como pauta a rejeição ao dito Novo Ensino Médio e a Reforma da Previdência. Uma semana antes do dia 15, chamei uma roda de conversa (presidente do grêmio de novo, agora no 2° ano) com a galera da minha escola, em uma praça próxima. A divulgação foi boca a boca, a escola não concordava. Então foi tudo por de baixo dos panos, uns 30 alunos foram e rolou uma roda de conversa sobre a greve do dia 15 e os porquês da mesma, a então coordenadora da JR em Guarulhos tirou várias dúvidas da galera e foi uma atividade bem produtiva.

Chegou o grande dia da manifestação, era a primeira vez que eu iria na tão falada Avenida Paulista, no ônibus fretado pela APEOESP, uns amigos da escola, outros da JR, da Pastoral também, além de claro, os professores. Partimos. A parte do “de volta pra minha terra” foi delicada, o ônibus demorou muito pra chegar, além do próprio trajeto pro meu “país” Guarulhos. Chegamos em casa bem tarde.

LiteraRUA: Você sabia que estava sendo fotografada por uma fotojornalista?

Bia: Não, o ato estava muito cheio, tinham fotógrafos com câmeras grandes que eu nunca nem tinha visto pessoalmente, mas jamais imaginaria estar sendo fotografada, não com esse foco. Acredito que se soubesse da foto, o punho não ficaria bravamente cerrado e o grito não seria altamente gritado, o inesperado compõe a beleza da foto.

LiteraRUA: Quando foi a primeira vez que você viu a foto daquela manifestação? Tinha noção que a imagem se tornaria tão popular?

Bia: Foi em 28 de abril daquele ano, greve geral, não somente da educação. O site Catraca Livre publicou uma matéria “Veja 5 eventos da Greve geral de hoje para você ir em São Paulo” (bit.ly/FotoBia). Eu não fui por conta dos motoristas de ônibus que aderiram à greve, sem busão, sem chances de chegar ao Centro da cidade pra pegar o fretado da APEOESP, mas minha foto estava lá, estampando a matéria. As notificações chegavam e eu sem entender nada, quando vi, fiquei pasma, era eu quem estava ali: como aquela foto foi tirada? Como foi parar no Catraca Livre?

Também descobri que além do Catraca Livre, a foto estampou uma matéria na CartaCapital (bit.ly/FotoBia2) e até então okay, todas legendadas no devido contexto, ambos mídias alternativas de muito reconhecimento.

Imagem3

Memes esbanjam baixaria e fakenews

Em contra mão, a foto após um tempo passou a estampar memes,  bem diferente das primeiras aparições, não me senti nada representada. Nesses memes a foto foi e vem sendo (porque infelizmente ainda estão circulando e criando novos) circulada totalmente fora do contexto em questão, utilizada como uma representação equivocada da esquerda, eu só conseguia pensar “E agora, me descobriram?!” e as pessoas próximas “Nossa, a Bia tá sendo usada pra representar a esquerda, tá famosa”, mas sério, a última coisa que queria era aparecer em memes, muito menos em memes reaças de páginas como Corrupção Brasileira Memes, Endireita etc.

Por um lado, eu tinha o conforto de ler os comentários e saber que os ataques não eram pra mim, afinal nem sabiam quem eu era. Por outro, vinha à tona um sentimento de indignação, por não ter controle sobre o destino dessa foto, onde e em que contexto ela seria utilizada, não soube lidar, pensei em denunciar na delegacia virtual, mas eu ainda era menor de idade e como era muita burocracia, a raiva acabou esfriando e ficou por isso.

Imagem4

Postagem da Bia registra sua surpresa ao conhecer a obra

O ápice dessa foto foi ter chegado na capa de um livro, se tem uma coisa que eu não imaginava na vida, era isso.

O mais triste nisso tudo, é o quanto tem ficado cômodo, o quanto um novo ataque aos nossos direitos é ” só mais um”, não é o primeiro e não será o último. Mas dói ver gente como a gente apoiando um governo que sucateia a educação, nos distância do direito de se aposentar, entrega demarcação indígena pro agronegócio, acaba com Ministério da Cultura, retrocede direitos conquistados pela comunidade LGBT, proíbe INPE, FIOCRUZ e IBGE de divulgarem dados, apoia tortura e se eu fosse continuar listando seria uma lista infinita, olha que nem citei as pérolas que ele fala sempre que abre a boca.

Isso tudo assusta e em mim causa uma sensação de impotência, de não conseguir fazer nada, de ver a população acuada, com medo. O que temos feito além de militar no Facebook?

LiteraRUA: O que sua geração espera sobre nossos governantes?

Bia: Talvez o problema já esteja aí: “esperar de nossos governantes…”. Que infelicidade não poder esperar nada das pessoas que foram eleitas através de processos ditos democráticos, com a vã promessa de nos representar. Esperar que eles nos percebam é pedir demais, estão muito ocupados com suas fortunas ou em como se safar das investigações. O problema da minha geração é esse, pronto, esperar… Corrompidos pelo individualismo que o sistema nos empurra de goela abaixo, “o que não me atinge não é problema meu” e “se me atinge alguém vai fazer por mim”. Quanto tempo mais essa fase de apatia vai durar?

LiteraRUA: Você ingressou numa faculdade de Ciências Sociais, o que te motivou para essa escolha? E o que pretende no futuro em relação a essa área?

Bia: O amor em dialogar com jovens, acredito que eu posso fazer diferença dentro da sala de aula, espero até lá ter espaço pra isso. Mas não somente, se hoje eu tenho a oportunidade em estar em uma universidade pública, cursando algo que faz parte do meu projeto de vida, preciso fazer por onde. O futuro parece tão longe, não sei… Além de dar aula, pretendo fazer pesquisas, além de pesquisas, ações concretas, criar e participar de projetos. Longe de mim que a periferia seja somente um objeto de estudo, eu sou a periferia, quero ter o olhar de dentro pra fora, não o contrário.

Assista ao vídeo em que o autor Urariano Mota comenta sobre a capa de seu romance.

Matéria produzida por Demetrios dos Santos e Toni C. com apoio de Luciana Karla Pereira Macedo.

Para seguir a Beatriz no instagram @_biapunca

Dedicada à Christiane Brito (1960-2020), jornalista e agente literária que apresentou Urariano Mota para a LiteraRUA e assim nasceu a publicação impressa: A Mais Longa Duração da Juventude.

Técnicas criativas para manter a saúde mental em tempos de isolamento

Por: Toni C.*

O surto de casos confirmados no Brasil de pessoas que contraíram o Coronavírus (Covid-19) não para de saltar e impõe a necessidade do isolamento social. Preparei algumas dicas para sobreviver e preservar a alma, corpo e mente sãs, quando o contato humano e a circulação são restritos.

Spolier: não contém lista de filmes da Netflix, nem lançamentos do mundo dos games.

Ouvir música
Taí uma boa chance de resgatar seus discos antigos. Ouvir suas canções preferidas e descobrir novas músicas, a escritora Elizandra Souza informou em postagem em uma rede social que voltou a ver videoclipes e está se atualizando com o que há de mais novo sendo produzido. Meu parceiro Hot Black me apresentou Sonhos Reais, o novo som com sua participação que você (confere aqui).

Ler livros
Sabe aquela “decoração” na prateleira que você tem evitado passar perto? Aproveite o paninho com álcool que tem à mão para tirar a poeira dos seus velhos livros, selecione uma boa leitura e mergulhe no mundo mágico da literatura. É uma excelente forma de sair por aí sem medo de contaminação e viajar pra todo canto apesar das restrições e fechamento de fronteiras. Uma indicação de leitura que você pode ler sem pagar nada é o livro organizado pelo cientista social Tarcízio Silva, com prefácio do rapper Emicida intitulado: Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: Olhares Afrodiaspóricos (LiteraRUA 2020), em pré-venda com download do PDF gratuito (baixe aqui).

Escrever
“Se a história é nossa, deixa que nóiz escreve!” a frase de autoria de Renan Inquérito deveria ser usada nestes tempos como se fosse álcool em gel pra exterminar o tédio. Estamos enfrentando uma pandemia global única em nossa história, diários como o de Anne Frank produzidos agora, darão ideia para as pessoas no futuro do tamanho da guerra que enfrentamos em nosso tempo. Nem todos serão os próximos Hemingway, mas como terapia, a tarefa de escrever um diário, uma carta ou um plane é um excelente tratamento de cura, me contou à jovem Manu conhecida em suas redes sociais como a Merida do Bairro, ela ainda me presenteou com um pequeno bloco de anotações chamado Caderninho da Gratidão, uma iniciativa desenvolvida pela Turma Valente.

Desenhar e pintar

WhatsApp Image 2020-03-21 at 09.19.25

Gravura do graffiteiro Bonga Mac: “O Pior Vírus Pode Ser Sua Indiferença!”

Uma folha, lápis de cor e muita imaginação, é tudo que você precisa para sair desenhando e se expressar através de coloridas artes-visuais. Este ensinamento vem do experiente graffiteiro Bonga Mac, privado de expressar sua arte nos muros, faz do papel sua parede de escaladas com o desenho que ilustra essa matéria em que podemos ler seu apelo à solidariedade nestes tempos: “O pior vírus pode ser sua indiferença!“.

Preparar seus alimentos
Com a restrição da circulação das pessoas, os pedidos de delivery dispararam, é o que relata Daniel N. Faria dono do Sonego’s Bistrô que adaptou o restaurante na quebrada para atender uma demanda recorde, adotando diversas medidas de segurança para oferecer a melhor experiência gastronômica para seus clientes, e ainda mantêm a economia e os empregos locais. Mas, e que tal você trocar o aplicativo de entregas de comida pela visita à cozinha de sua casa? O que você ganha com isso é um tempo bem aplicado no cuidado pessoal, uma economia no custo de sua alimentação e uma comidinha da qual você conhece a procedência. (Assista aqui) Daniel N. Faria ensina a fazer o “Circuit Breaker” na quebrada.

Exercícios físicos
É difícil se exercitar e se manter ativo sem poder sair de casa, ainda mais na periferia, com moradias precárias. Ontem mesmo ouvi uma pessoa dizendo: “Vai ficar isolado como com cinco pessoas morando numa casa com um só cômodo?”. Mas quando não podemos sair para caminhar, pedalar, ir à academia e nem bater uma bola na quadra, precisamos ser criativos. Polichinelo, pular corda e agachamento são bons treinos para aumentar os batimentos cardíacos. Abdominal, dorsal e flexão de braço são os mais indicados para serem realizados mesmo sem espaço e equipamentos adequados e ainda assim manter em dia a musculação. Yoga, alongamento e meditação são exercícios de baixo impacto para o corpo e a mente indicado para todas as pessoas em todas as idades.

Estudo
Estudar um idioma estrangeiro, se preparar para um curso ou uma prova é uma boa aplicação do tempo para sairmos deste momento fortalecidos intelectualmente.

Ócio
Sempre que ouço a palavra “ócio”, ela vem acompanhada da palavra “criativo”, como se não fazer nada é só um breve intervalo para ganhar impulso e como num passe de mágica sair criando coisas espetaculares possuído das melhores ideias. Mas não é necessário isto não, tire um tempo para descansar sem compromisso. Atenção: ver televisão não é descansar e você não precisa do meu incentivo pra isso. Ócio é colocar os pés pra cima e o estresse no chão, é deitar numa rede e desconectar das redes-sociais, olhar pro teto, deixar o tempo passar… enfim, não fazer nada. “Privilégio” que este tempo nos dá.

Estas foram algumas dicas para se manter útil, ativo e focado para enfrentamos de forma inteligente o isolamento sem pirar.

Fortalecidos destruiremos o vírus e não os nossos neurônios.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, coroteirista da cinebiografia do rapper Emicida (em produção), criador do coletivo LiteraRUA.

O que o clip This is… de Gambino diz sobre a nossa América

Toni C.*

Lá vamos nós.

Assim que o videoclipe This is América estorô na net, opiniões e críticas pipocaram de maneira quase tão frenética quanto os 284 segundos críticos da obra prima do rapper Childish Gambino ou se preferir do ator Donald Glover produtor da série Atlanta. Então o que estou fazendo ao me aventurar em também analisar a peça audiovisual mais polêmica de 2018?

donald-glovers-this-is-america-through-the-eyes-of-a-jim-crow-historian

Minha cara é interpretar essa obra dentro da realidade do Brasil. Yes, nosso país também é América! Somos campeões mundiais em linchamentos, temos Bolsonaros, chacinas, milícias e  motivos de sobra para nos envergonhar, por isso aperte a tecla “Tradutor da Quebrada” e assista Gambino mandando nudes da nossa realidade, vai:

Jim Crow

Di cara somos pegos desprevenidos com tiro na nuca do mano do violão, pow! Para dominar um povo mate a sua arte. É uma forma de explicar esta cena?

O gesto do atirador, dizem, ser uma alusão a Jim Crown, um ator racista branco que pintava o rosto com carvão e a boca com baton vermelho técnica conhecida como blackface, quando atuava representando um negro preguiçoso e malandro em menestréis numa representação tão forte que as leis pra zuar os preto dos Estados Unidos ganharam seu nome.

donald-crow

Pois bem, o videoclipe foi ao ar na gringa na mesma semana em que por aqui a maior emissora do país teve de se retratar por sua nova novela ambientada na Bahia, sem atores negros. O Segundo Sol não foi suficiente para bronzear o elenco. Quem sabe no desenrolar da novela a emissora inove com a volta do blackface.  

“Lua cheia, lobos em ceia
Estrobo clareia os cantos com lodo
E eu com boot branco, tão branco
Que eu chamo de elenco da Globo” – Todos os olhos em nóiz (Emicida)

Tio Ruckus

A careta com um olho esbugalhado e o outro fechado faz alusão ao personagem Tio Ruckus do desenho animado The Boondocks. O personagem negro com o cérebro sequestrado, pensa, age, fala como branco racista, esperando ser visto como um deles. Como Stephan o negro capataz da casa grande que alerta a todos aos gritos: “Um negro montado no cavalo” quando avista o protagonista no filme de Tarantino DJango Livre.

donald-rucks

Em tempos em que Kanye West despiroca apoiando Trump e vomitando declarações sugerindo que a escravidão foi uma escolha. This is América é um videoclipe obrigatório.

Capataz da casa grande em nosso país infelizmente não é algo raro. O melhor do pior exemplo é Fernando Holiday o vereador Feriado afirma que as cotas incentiva o racismo, o vitimismo, e pede o fim do dia da Consciência Negra.

“Ovelha branca da raça, traidor!
Vendeu a alma ao inimigo, renegou sua cor!
Mas nosso júri é racional, não falha!
Por que?
Não somos fãs de canalha!” – Juri Racional (Racionais Mc´s)

Um pouco diferente é Joaquim Barbosa, ele quase foi capturado, por pouco não se torna o negro mais amado pelos brancos. E só não aconteceu porque retirou a sua candidatura à presidência. Voltou a ser um negro imprestável para a elite.  

A dança

anigif_sub-buzz-21603-1525717668-7.gif

É unânime as afirmações de que a dança no clip serve para distrair do caos rolando ao fundo do vídeo. Nada mais óbvio e ao mesmo tempo nada tão profundo ao expor com tamanha beleza e sofisticação a arte como instrumento de alienação.

No país da boquinha da garrafa lembrei do rapper Aliado G do grupo Faces da Morte ao responder a pergunta de um jornalista questionando se era uma obrigação, o rap sempre falar de política. A resposta de Aliado G foi demolidora: “Toda arte é política, não só quando ela é engajada.” Respondeu o rapper antes de finalizar com essa, “Nós fazemos uma música para transformar a realidade. A música também pode ter a função de descontrair, distrair para manter as coisas como estão, não inventaram ainda uma terceira forma de arte”.

“Mudar o mundo é impossível é o que a maioria diz
Engole a dor engole o ódio e tenta ser feliz” – Mudar o Mundo (Faces da Morte)

Massacre de Charleston

O coral negro cantando no meio da música é um momento de trégua quando as coisas parecem começar a entrar nos eixos. Mas é só achar que tá suave uma arma cai na mão de nosso personagem e, vrau… Os comentários dizem sobre a relação da cena com o Massacre da Igreja de Charleston na Carolina do Sul.

A rajada que cala a voz do coral no filme, soa perturbadoramente idêntica as balas que calaram a voz da Vereadora do Rio de Janeiro Marielly Franco. É o mesmo tom autoritário que breca cinco jovens negros num automóvel comemorando a conquista de emprego de um deles, é monótono.

06159874553bb8653c7264d66e53bf5f.480x270x39.gif

“É muito fácil vir aqui me criticar
A sociedade me criou
Agora manda me matar” – Soldado do Morro (MV Bill)

O cavalo branco do apocalipse

A morte vestida toda de preto montada num cavalo branco galopando a partir de onde está estacionado uma viatura policial parece ser uma referência ao projeto de limpeza étnica promovido pelo Estado.  

Por aqui o massacre do Carandiru, da Candelária, as chacinas como a de Osasco e os Crimes de Maio são tristes capítulos onde a polícia tem licença para matar.

“Muito bem saiam da mira dos tiras
Saiam da mira dos tiras
São eles é quem forçam são eles quem atiram
Reze pra sobreviver” – Click Clack Bang (Conexão do Morro)

Celulares

Num pavilhão superior em um cenário semelhante a uma cadeia, jovens se mantêm calados e indiferentes ao caos. Imbecis aprisionados em smartphones é mato, essa é a maior epidemia global e nenhum de nós estamos imunes.

“Celular óctoc
Na mão, do zé polvim
É uma arma poderosa
Nisso eu acredito sim” – Terceira Opção (Trilha $onora do Gueto)

Carros antigos

Uma hora o barato fica tão loco, que só o gesto de simular estar empunhando uma arma é o suficiente para fazer geral dá fuga. É o único momento do vídeo em que Gambino se vê solitário, ele tira do bolso um baseado e os problemas parecem desaparecer.

Sob o cadáver do cara do violão morto no começo do vídeo ele sobe em cima do capô de um carro. Quer maior símbolo de status social que o automóvel na cultura americana?

Ele dispensa o baseado pra longe e dança em cima do capô do carango como Michael Jackson no vídeoclipe The Way You Make Me Feel, onde ele se empenha para conquistar sua musa. Aqui a cantora Sza é sua espectadora mas parece não dar muita bola para a performance do galã. Embora tenha visto muitos relacionar a dança com James Brown e a apropriação cultural, penso que a influência do Rei do Pop é onipresente. Os estudantes que o acompanham, alertou meu parceiro, estão na verdade mortos, como em Trillher, são mortos vivos.

gambino-sza

Carrões e mulheres é uma combinação batida nas maiores feiras de automóveis do mundo, na Fórmula 1 e nos vídeoclipes de rap e de funk. Só que aqui os carros não são as naves ostentadas nas músicas e nos clipes. Os veículos com mais de 40 anos não tem luxo, como se o artista quisesse destacar a diferença entre o showbizness e a realidade.

“21, 22, 23, 24
Desse jeito que eu gosto
Das cromadas no meu carro
21, 22, 23, 24
Não importa a idade
Eu coloco elas de quatro” – Desse Jeito (VDA)

Calça do exército confederado

Algumas das análises deste clipe são minuciosas, afirmam que a calça que o rapper veste é um modelo do uniforme dos soldados dos estados do sul dos Estados Unidos agrários e atrasados rebelados contra o fim da escravidão. Analisam mais a sua calça do que o fato do rapper estar sem camisa. Mas alguém arriscou em comparar seu estilo com a do músico ativista Fela Kuti.

Em nossa história, tivemos a Guerra do Paraguai, tá ligado? Quando Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para massacrar nossos hermanos paraguaios. O motivo? O Paraguai era mais evoluído e próspero, abraçamos as conversa dos poderosos de que os paraguaios tavam na crocodilagem querendo ferrar com a gente, então pra não ser ferrados, ferramos com eles de maneira covarde.

Naquela época quando um homem branco cheio de posses era convocado para a guerra, o cara se safava enviando seus escravos para morrer em seu lugar.

A promessa de liberdade para quem combatesse na guerra e retornasse com vida se tornou a melhor prática do projeto de embranquecimento do país antes da abolição da escravatura. Portanto só consigo deduzir que a calça do ator vertido para nossa realidade é uma calça de capoeirista.

“Gingando igual capoeira
Virado tô no Jiraiya
Voado tipo uma raia” – Afro Rep (Rincon Sapiência)

As armas

Sem-título.png

Enquanto corpos dos negros atingidos pelas balas são arrastados para fora do vídeo, alguém observou o quanto as armas são recebidas com cuidado por uma criança com um pano vermelho para não arranhar a peça. O direito ao porte de arma não pode ser maior que o direito à vida. O trato zeloso das armas no clipe é uma crítica as gangues de rua, ao Gangsta Rap e a cultura de violência banalizada que vitimaram milhares entre Big, Tupac, Jam Master Jay.

Aqui, conflitos com armas de fogo ceifaram a vida de Sabotage, DJ Lah, Da Leste, Gato Preto. Preto matando preto, pobre matando pobre… normal segue o baile. Esta é a América.

O Levante de Soweto

As roupas dos dançarinos são consideradas referência à política de apartheid na África do Sul quando os estudantes do bairro de Soweto foram proibidos de serem ensinados em sua língua local nas escolas, o que levou milhares de estudantes às ruas.

Alguma semelhança com a política de Geraldo Alckmin quando estudantes ocuparam as escolas para impedir que elas fossem fechadas?

Corrida  

O sprint final é uma fuga a toda velocidade com Gambino sendo perseguido por homens brancos, ele carrega no rosto uma expressão aterrorizadora. A adrenalina liberada pelo corpo em situações de stress é para reagirmos de um dos dois modos: lutar ou correr. A fuga no final do vídeo demonstra que resistir é impossível.

“Ser preta no corre é tipo o filme Corra
Não vivo de sorte,
Aqui é viva ou morra
Pode crer” – Camélia (Drik Barbosa)

Algumas das críticas que li insistia em dizer que o assassino deveria ser um branco. Apesar do conflito racial ser a tônica do autor, considere o personagem sem alma, sem cor, ou se preferir branco, vermelho, azul, com estrelas e listas. Entenda o protagonista representando a própria América. Matando seus filhos, a cultura de seu povo, enquanto vende o feliz sonho americano, no fundo, um terrível pesadelo.

O videoclipe é uma obra aberta que fala por si, e dá a chance de inúmeras interpretações e reflexões. Estas foram algumas das minhas brisas, tire suas próprias conclusões. Diga aqui nos comentários sua opinião sobre o vídeo.

Mas não mosque, esta é a América fí.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

Triunfo na estreia da turnê de 10 anos da carreira de Emicida

IMG_8873.JPG

Emicida estreia a turnê de 10 anos da Triunfo.

O Bang é o seguinte, quando as cortinas do Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros se abriram no show de estreia da nova turnê de Emicida, Triunfo. Todos os olhos, ouvidos e corações ali presente foram incinerados com uma apresentação da mais alta octanagem.

“Quem é quem nessa multidão” (Bang)

Toni C.*

Do canto do palco, o menino nascido no Jardim Fontales, aguarda a deixa. Quando Emicida atravessa a coxia escura para os spots de luz rumo ao centro do palco, é a plateia que lota o auditório que o fuzila com aplausos e gritos.

Antes de executar a primeira canção, Emicida agradece a cada um ali presente, que o acompanhou de alguma forma, em algum momento dessa década cheia de Triunfo. “Em 15 de março de 2008,” relembra ele, “O público era de 300 pessoas para ver nossa primeira apresentação do single Triunfo”, comenta o filho de Dona Jacira diante dos três dias consecutivos de apresentações esgotadas.

“Neguinho é o caralho
meu nome é Emicida,
porra o Zika”

…segue versando passando por Gueto, A Chapa é Quente, Boa Esperança com a participação de Jota Ghetto, funde o canto de alforria seguida da poderosa Pantera Negra.

“Cês veio golpe
eu vim Sabotage” (Pantera Negra)

De I Love Quebrada, à Passarinhos são onze canções de maior introspecção bem no interior do show passando por Oásis, Mãe, Hoje Cedo, Como Tudo Deve Ser, Chapa, Alma Gêmea, Eu Gosto Dela, Madagascar e Baiana.

Evandro Fióti seu irmão e produtor, monitora cada movimento do canto do palco garantindo que tudo seja executado conforme o planejado como um maestro invisível. Alguns minutos antes no camarim, Emicida reune a equipe e lembra do empenho de seu irmão desde a apresentação de estreia, “Esse garoto saiu correndo do McDonald’s para contar as entradas” relembra daquele primeiro show.

Seu DJ Nyack companheiro nessa trajetória passou a contar com o reforço dos percussionistas Carlos Café e Sivuca, com o brilho dos metais de Ed Trombone, Fernando Bastos e Gustavo Souza além da guitarrista Michelle. Juntos executam evoluções de uma banda marcial com a precisão de um sniper em um show a parte. A excelência, ecoa como uma batalha onde decibéis são disparados para todos os lados, quem ganha é o público.

Uma senhora com a filha ao lado dança o tempo todo, levanta a mão, canta as letras uniformizada com as roupas da LAB como a maioria bem mais jovem ali.

Dispara os acordes de Zica Vai Lá, Emicida se aquece como se fosse entrar num confronto físico, mas pede para a música parar, vai até o público e chama um garoto, “Cê canta pra caralho eihn!?,” antes de se corrigir: “Canta da hora!”. O pequeno Yohan, não se sente menor por não ter participado do show original há 10 anos, praticamente sua idade, manda bem junto de seu ídolo ajuda a manter as mãos e almas pra cima.

O show é eletrizante, praticamente sem intervalos entre as músicas, não há pausas longas para trocas de roupas, o artista não deixa o palco uma única vez, como uma demonstração voraz de que toda sua jornada foi para viver aquele momento. Emicida se quer bebe água durante as duas horas de show, sua intenção é preencher toda as duas horas de apresentação com os hitz construídos ao longo destes anos.

Mandume trás ao palco Muzzike, Amiri, Raphão Alaafin, Jota Ghetto e a aniversariante da noite Drik Barbosa, são implacáveis.

Triunfo é o single que alcança sua primeira década, é o show que a partir de agora está nas plataformas digitais, é o DVD, é a turnê que dá ignição a partir desta noite, é toda a trajetória de Emicida.

Tive o privilégio de assistir do melhor lugar, entre os cases de instrumentos ao lado do palco. Pude ver o pequeno Yohan chegando feliz ao fim da apresentação para conhecer no camarim seu ídolo. Me despedi do Mestre de Cerimônias, sai de lá às pressas sem querer falar com mais ninguém pra não correr o risco de desmanchar as imagens nítidas que acabei de narrar.

Na saída trombei um velho conhecido que trampou mô cota com rap nacional, ele me contou que não via um show há um tempão, comentou o quanto a coisa evoluiu, e o quanto estava feliz por ver a renovação do público.

Entrei no metrô convicto de que noites como essas nos provam que viver vale a pena e com a certeza de que nada mais poderia me abalar. Ledo engano, na estação seguinte embarcaram trabalhadores voltando pra suas casas depois de uma jornada exaustiva. Entre eles dois rostos conhecidos, Muzzike e DJ Nyack, a pouco tinha os vistos no palco, pra mim foi como se tivesse embarcado Barack Obama ou se Lula tivesse deixado o cárcere.

Bem diferente da desgastada forma de tentar materializar o sucesso nos videoclipes cheio de carrões. Dividir o vagão de metrô com essas figuras, depois do nirvana que provocaram na plateia é a comprovação de que Triunfo não é uma palavra, é a atitude!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

As provas do triplex que condenam Lula

lula-se-despede-em-curitibaricardo-stckert

Foto: Ricardo Stuckert Filho

Querido Lula.
Não consigo imaginar como esse desfecho poderia ser diferente.
Pra essa gente a solução do mundo foi jogar o meu povo no porão de um navio escuro e fedido e arrastar para o outro lado do Atlântico.
Acorrentar, açoitar, aprisionar foram as soluções civilizadas dessa gente.
Dizimaram com a nossa população nativa, sem um pingo de arrependimento.
Escalpelaram as florestas, como uma baita solução.
É ouro por espelho, dinheiro por respeito, pré-sal por consolo.
Convenhamos, essa gente aprisionou Graciliano Ramos, Prestes, Mandela, Gandhi, Rafael Braga e essa segue como a mais eficaz política pública nas periferias.
Derrubaram João Goulart, fizeram o mesmo com Allende, Lugo e com a Dilma, sequestraram Hugo Chaves, levaram Getúlio ao suicídio.
Não contentes, assassinaram Chê, Malcolm, Martin, Marighella, Marielle, Olga e seguem cotidianamente quebrando nossos irmãos nas quebradas.
Com Jesus Cristo fizeram um outdoor, pregado-o vivo numa cruz.
Sempre, sempre e sempre em nome da lei e da ordem, como uma solução para deixar o mundo melhor.
Por tudo isso Lula, não pense que você foi condenado só por convicção, sem provas.
Eu estou de prova, a multidão que foi pra frente do Sindicato está de prova.
Testemunhamos mais um ato de estupidez, essa estupidez sem tamanho que é a maior prova do ódio de classes.
Tenha certeza Lula, você foi condenado pelo triplex: acabar com a fome, com o analfabetismo e com o desemprego.
Nunca antes na história desse país… pobre voou de avião, fez faculdade, ganhou salário feito patrão. Estas são as provas de sua condenação.
O resto é conversa pra Bonner dormir.

Toni C. Lula da Silva

#lulalivre

Com vocês, a fantástica Virada Cultural, na Cracolândia!

cracolandia1_

– AÍ CARAI!

Soltei sem querer o palavrão num urro ao acordar com o estrondo dos primeiros tijolos da parede zunindo rente ao meu ouvido antes de espatifarem com toda força no chão.

Jamais falei um palavrão na frente dos meus filh… Meus filhos!? Cadê meus filhos? E ai eu só ouvi o PÁAAH!

A retro escavadeira fez um arregaço na parede. Mesmo engolindo pó, mesmo no escuro, mesmo antes do segundo golpe daquele dinossauro de aço eu já tinha juntado toda minha prole.

Segurar os quatro filhos com duas mãos é coisa que só uma mãe acuada é capaz. Nessa hora a gente arranca força nem sei da onde. Tá certo que dormir todos juntos na mesma cama ajudou para eles só acordarem já debaixo de minhas asas.

Passei a mão nas crianças e foi só o tempo da parede vir abaixo fazendo desaparecer a cama em que a gente dormia neste mesmo instante.

Pensei que era um pesadelo, daqueles bem feio que faz a gente se mijá nas calça e acordar no susto. Antes fosse fí.

Era um pesadelo, mas era um pesadelo invertido. Num vai acha que pesadelo invertido é o sonho da Cinderela, abraça. Pesadelo invertido é aquele que começa quando você acorda e a abóbora tá desmoronando junto com os tijolo tirando fina da sua cabeça.

Do buraco da parede entrou uma luz forte do farol da escavadeira, junto do vento frio trazendo a chuva gelada, nem sei que horas era mas ainda estava escuro lá fora. Eu só vi os vulto de um monte de homem fardado invadindo meu barraco com fuzil na mão, andavam feito um bando de baratas quando a gente destapa um bueiro.

Mas é um bueiro invertido. Não vai pensar que bueiro invertido é um palácio de luxo. Né nada disso não. É que quando destampou a parede, quem tava lá morando dentro era eu e meus fí, eu digo bueiro mas era minha casinha humilde paga com meu suor e de meu finado marido. E as baratas foram entrando como quem procura o ralo do esgoto pra fugir da chinela.

Eu escondi as minhas cria tudo pra traz de mim. Meu penhoar ficou transparente mas eu não me avechei não.

– Quiqui seis qué na casa de uma muié cheia de fiu? A gente num faz um mal pra ninguém, aqui ninguém é bandido não.

Foi um corre-corre, um pega pra capá. No meio do furdunço fui vendo que não era só minha casa que foi invadida, foi o bairro todo. Pense numa baderna…

Eu vim de uma terra chamada Ceilândia, cheguei aqui com a idade dessa minha fia caçula. Fui criada num bairro chamado Brasilândia. Até que descobri que estava grávida.

Meu pai não aceitou aquilo, disse que o cabra que deitou com sua filha tem que casá. Falou pra minha mãe que se eu já sabia fazer nenê, também já sabia cuidar das cria.

Foi aí que vim para nesse canto de mundo.

Meu marido era um homem bom, quando a gente viu já era quatro fio.

Um dia ele voltando tarde do trabalho pra casa levou um tiro da polícia, confundiram com um nóia daqui da área e mataram ele com quatro tiros, a mesma quantidade de fio que ele pôs no mundo.

Sem dinheiro pro velório o coitado foi enterrado como indigente.

Até esses dias eu não sabia o que era a guerra, terremoto, furacão, terrorismo essas desgraça que a gente só vê pela televisão e que acontece em lugar bem longe. Agora posso dizer que sei como é qui é.

Já faz uma semana desde aquele domingo chuvoso. A cidade toda em festa e pra cá a virada cultural foi revirando minha casa de ponta cabeça.

Me disseram que quem mandou aqueles homens baratas destruir minha casa foi esse tal prefeito, disseram que ele fez isso pra subir novos prédios. Eu não acreditei não. Subir prédio, pra que esse trabalho se já tinha prédio aqui? Agora destruiram tudo.

Dizem que é o prefeito, mas eu sei que não é.

Ele é um moço bonito, bem apessoado, fala bem, tem dinheiro, é estudado. Jamais uma pessoa dessas iria fazer isso com as família, tinha moça gravida, gente de idade que nem eu ví.

Onde já se viu derrubar casa cheia de gente dentro, só uma pessoa sem nada de bom dentro pra querer uma coisa dessas.

Eu votei nesse prefeito sabe. E vou votar nele de novo pra presidente. Isso é se eu conseguir achar os meus documentos no meio desses entulhos.

Já sei que vou morrer sem conseguir meu aposento, sem receber uma pensão do pai dos meninu.

Se eu recebesse um dinheirinho bom, iria querer levar as criança tudo pra Disneylândia.

Eu sei que é sonho alto pra uma mãe sozinha que cria os fí nesse porão de almas que eu chamo de Luz, mas o povo só conhece como Cracolândia.

A mim eles não me permitem nem sonhar, não me permitem nada, fora, temer.”

Toni C.
Texto originalmente publicado no jornal portugues Tornado.

“Pixação” (é) e Arte(?)

Por: Demetrios dos Santos Ferreira*

Existe uma nítida falta de consenso sobre o aspecto artístico da pixação (opto em grafar a palavra com ‘x’ pois essa é a forma mais comumente adotada pelos próprios pixadores). Uma parte desses próprios agentes ­alegam que o que estão produzindo não é arte, já outros encaram o ato de pixar como uma forma de arte.

0ca41f71340c25e97eb4f2f38338a192

Edifício Pixado no centro de São Paulo

No documentário “Pixo” (http://bit.ly/PixoDoc) dirigido em 2009 por João Wainer e Roberto T. Oliveira, temos uma oportunidade ímpar de entender a pixação por meio dos próprios pixadores.

William, um pixador da cidade de Osasco em São Paulo faz um relato interessante nesse filme, que nos ajuda a refletir sobre o significado da expressão por meio da pixação.

Ele afirma que não é capaz de ler a “letra de forma”, apesar de ter passado oito anos na escola. William chegou a concluir a oitava série do ensino fundamental, mesmo assim ele afirma que só consegue “ler pixos” e que não compreende de forma alguma textos produzidos em letras de forma.

Durante o documentário, ao tentar ler textos de um anúncio comum pintado nas paredes em sua comunidade, William não consegue ler frases muito simples, mas ao se deparar com pixações diversas, que para a maioria de nós seriam inteligíveis, William consegue ler normalmente, sem nenhuma dificuldade. Ele afirma que compreende muito bem a tipografia das letras utilizadas na pixação. Ou seja, há um código estético estabelecido que pode ser perfeitamente compreendido ente o grupo social de pixadores e isso não pode ser desprezado em nossa análise. Continuar lendo

Aos alienados: revolução. Em tempos de ódio: o amor. Esse é Mano Brown, Boogie Naipe, Baby

Por: Toni C.*

Tem ser humano que é tipo vinho e tem os zé povinho, esse cara é definitivamente do primeiro tipo, tinto. Aquele que rimou sobre revolução enquanto éramos todos alienados, é o mesmo que canta amor em tempos de ódio, no elegantíssimo álbum Boogie Naipe pelo primeiro e único: Mano Brown.

mano_brown_boogie_naipe
A gente só queria dançar feito Michael Jackson e ter a cor que ele adotou aos 40 anos. Paulo Maluf vencia eleição para qualquer coisa que ele disputasse antes da gente saber sobre Malcolm X. Música jovem na quebrada no fim dos anos 80 era música estrangeira e ponto.
Posso falar um quilo dos tempos da Função, quando Gil Gomes era quem mostrava ao seu modo a favela, os pé-di-pato era fábrica de presunto.
“Justiceiros são chamados por eles mesmos
Matam homens e dão tiro a esmo” (Pânico na Zona Sul)
A partir daí, nada mais ficou no mesmo lugar.
Quer saber o que era ser jovem de periferia em 1992? Digita Negro Limitado e ouça Edi Rock no álbum Escolha Seu Caminho, a gente era limitado pela falta de informação, falta de orgulho, falta de estima própria.
Hoje os tempos são outros, temos informações até de sobra. Não se informa quem não quer,  quem fica só de zepovinhação, quem não morre afogado pelo tsunami de ideias, pela desinformação num mundo pós-verdade.
Eis que ressurge Mano Brown de maneira futurista e nostálgica como o globo espelhado no alto da pista de dança. Contagiante e versátil, Boogie Naipe é um álbum musicalmente foda. O primeiro disco solo de Mano Brown tem uma atmosfera envolvente fazendo das canções um repertório tão variado quanto os embalos de sábado a noite.
Confesso, resisti para ouvir e quando apertei o play fui imediatamente sequestrado por Simoninha…

Continuar lendo

16 frases que provam que 2016 foi um ano que não deixará saudades

Por: Toni C.

Segundo o poeta, é genial quem teve a ideia de cortar o tempo em anos. Mas em 2016 foi diferente, essa pequena fração do infinito não foi cortada, foi rasgada, mascada e cuspida em frases que dá uma mostra do ano do qual somos sobreviventes. 2016 é um ano para ser esquecido… nunca, jamais. Para que não se repita, para que a gente acorde desse pesadelo e não durma no barulho dos patos e no silêncio repentino das panelas aqui vai uma lista de 16 desgraças resumidas em 16 pérolas para provar que 2016 foi um ano zuado e pode perdurar por mais 20 anos:

1 – “Apesar da crise…”.

a-midia-tradicional-e-a-crise-economica-brasileira
O tom de pesar se tornou um mantra para lamentar os bons índices que o Brasil mantinha na economia no início do ano… “apesar da crise” de pessimismo dos meios de comunicação.

2 – “A prisão coercitiva do ex-presidente Lula foi para evitar tumultos” – 04/03/2016.

eicay3e659l6zkde03hs3qz4qO juiz Moro justifica o abuso de autoridade ao conduzir e manter preso por horas o ex-presidente Lula, enquanto sua casa e de sua família eram reviradas, nada de comprometedor foi encontrado.

3 – “O Brasil não é a República da Cobra” – 04/04/2016.

19139628Discurso de Janaina Pascoal descabelada rodando a bandeira como numa vaquejada em ato pró-impeachment para rebater a afirmação de Lula: “se quiseram matar a jararaca não bateram na cabeça, bateram no rabo”.

4 – “Na televisão, a verdade não importa. É negro, favelado, então tava de pistola”.

n-carol-large570
MC Carol protesta com a música Delação Premiada sobre casos como o do Amarildo, o do DG, crianças que são baleadas a caminho da escola e quem não se lembra da Cláudia morta quando foi amarrada e arrastada em uma viatura policial. Atitude semelhante teve Beyonce ao apresentar a música Formation no intervalo do Superbowl também denunciando o genocídio da juventude negra “parem de atirar em nós” diz a música da cantora americana, “cada país tem o Formation que merece” completa MC Carol.

 5 – “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”  – 23/05/2016.

Frase de Sérgio Machado à Jucá em conversa vazada à imprensa. Apesar de ser o mais citado na Lava a Jato, Aécio nunca foi convocado a depor. evqcv12mx9nevs0lrmbo3momiO juiz Moro e Aécio ainda apareceram sorrindo em evento da Revista Isto É onde Temer recebe título de “Homem do Ano”.

6 – “Amassaram a mina, intendeu ou não intendeu?” – 26/05/2016.

estuproUma garota de 16 anos foi vítima de estupro coletivo com a participação de mais de 30 homens no RJ, o vídeo com abuso foi filmado e compartilhado nas redes sociais pelos próprios agressores.

7 – “Dear Mama” – 03/05/2016.

wenn_afeni_tupac_shakur_jc_160503_4x3_992Morre aos 69 anos Afeni Shakur, integrante dos Panteras Negras e mãe do rapper assassinado Tupac Shakur.

8 – “Tchau Querida” – 31/08/2016.

ng6521680Primeira mulher eleita Presidenta da República é afastada do cargo mesmo sem haver comprovação de crime algum.

9 – “Não fale em crise, trabalhe”.

posto-doninha4
Quando o golpe transforma oposição em situação, o “Apesar da Crise” se torna imediatamente na frase acima citada pelo presidente que desistiu de espalha-la por todos os cantos. O autor da frase se encontra preso condenado há oito anos por tentativa de homicídio.

10 –”Transformar a vítima em culpado” – 18/08/2016.

fotografo_baleado
Foi o que fez o juiz Olavo Zampol Junior ao negar o pedido de indenização ao fotógrafo Sergio Andrade que perdeu a visão quando foi atingido no olho por uma bala disparada pela Polícia Militar.

11 – “Argentina, não. Bê de Brasil…” 17/09/2016.

xserra-brics2-png-pagespeed-ic-bosw4x4v5aJosé Serra, convertido em Ministério das Relações Internacionais tenta enumerar os países que compõe os Brics.

12 – “O que está acontecendo? Essa será a nova bandeira do Brasil?” – 17/11/16.

rosangela-mullher-2Provoca uma confusa manifestante, temendo que o Brasil venha a ter uma “bandeira comunista”, apontando para bandeira do Japão.

13 – “América será grande de novo” – 9/11/2016.

trump-hillaryDonald Trump é eleito, pelo colégio eleitoral, o 45º Presidente dos EUA, apesar de ter menos votos que Hillary

14 – “Não se preocupe. É isso mesmo. Fique tranquila. Está tudo bem. Deixa comigo”. – 30/11/2016.

63002778_the-wreckage-of-the-lamia-airlines-charter-plane-carrying-members-of-the-chapecoense-reSobre o plano de voo do avião que conduziria o time Chapecoense ao desastre, a frase atribuída ao despachante acreditando que o combustível seria suficiente para concluir a viagem.

15 – “A PM tirou um pedaço de mim que jamais será preenchido. A PM matou meu filho. Essa dor nunca irá se cicatrizar” – 11/12/2016.

filhotatiLamenta a funkeira Tati Quebra Barraco nas redes sociais. A família ainda sofreu agressão moral com mensagens ofensiva na internet.

16 – “Havendo um inferno, está indo pra lá”. – 26/11/2016.

fidel
Sempre infeliz, Reinaldo Azevedo comenta a morte do líder da revolução cubana Fidel Castro, morto aos 90 anos.

Espantado com essas 16 frases que comprovam que este ano foi um grande erro? Com esta pequena amostra dá pra ter ideia das outras 2.000 calamidades impublicáveis!?

Como desgraça pouca é bobagem, antes do ano terminar outra frase fala por sí. Se as mães tem um defeito é que elas não duram para sempre:

“Aí Dona Ana a senho é uma rainha”. (Mano Brown).

Continuar lendo