O que o clip This is… de Gambino diz sobre a nossa América

Toni C.*

Lá vamos nós.

Assim que o videoclipe This is América estorô na net, opiniões e críticas pipocaram de maneira quase tão frenética quanto os 284 segundos críticos da obra prima do rapper Childish Gambino ou se preferir do ator Donald Glover produtor da série Atlanta. Então o que estou fazendo ao me aventurar em também analisar a peça audiovisual mais polêmica de 2018?

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Minha cara é interpretar essa obra dentro da realidade do Brasil. Yes, nosso país também é América! Somos campeões mundiais em linchamentos, temos Bolsonaros, chacinas, milícias e  motivos de sobra para nos envergonhar, por isso aperte a tecla “Tradutor da Quebrada” e assista Gambino mandando nudes da nossa realidade, vai:

Jim Crow

Di cara somos pegos desprevenidos com tiro na nuca do mano do violão, pow! Para dominar um povo mate a sua arte. É uma forma de explicar esta cena?

O gesto do atirador, dizem, ser uma alusão a Jim Crown, um ator racista branco que pintava o rosto com carvão e a boca com baton vermelho técnica conhecida como blackface, quando atuava representando um negro preguiçoso e malandro em menestréis numa representação tão forte que as leis pra zuar os preto dos Estados Unidos ganharam seu nome.

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Pois bem, o videoclipe foi ao ar na gringa na mesma semana em que por aqui a maior emissora do país teve de se retratar por sua nova novela ambientada na Bahia, sem atores negros. O Segundo Sol não foi suficiente para bronzear o elenco. Quem sabe no desenrolar da novela a emissora inove com a volta do blackface.  

“Lua cheia, lobos em ceia
Estrobo clareia os cantos com lodo
E eu com boot branco, tão branco
Que eu chamo de elenco da Globo” – Todos os olhos em nóiz (Emicida)

Tio Ruckus

A careta com um olho esbugalhado e o outro fechado faz alusão ao personagem Tio Ruckus do desenho animado The Boondocks. O personagem negro com o cérebro sequestrado, pensa, age, fala como branco racista, esperando ser visto como um deles. Como Stephan o negro capataz da casa grande que alerta a todos aos gritos: “Um negro montado no cavalo” quando avista o protagonista no filme de Tarantino DJango Livre.

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Em tempos em que Kanye West despiroca apoiando Trump e vomitando declarações sugerindo que a escravidão foi uma escolha. This is América é um videoclipe obrigatório.

Capataz da casa grande em nosso país infelizmente não é algo raro. O melhor do pior exemplo é Fernando Holiday o vereador Feriado afirma que as cotas incentiva o racismo, o vitimismo, e pede o fim do dia da Consciência Negra.

“Ovelha branca da raça, traidor!
Vendeu a alma ao inimigo, renegou sua cor!
Mas nosso júri é racional, não falha!
Por que?
Não somos fãs de canalha!” – Juri Racional (Racionais Mc´s)

Um pouco diferente é Joaquim Barbosa, ele quase foi capturado, por pouco não se torna o negro mais amado pelos brancos. E só não aconteceu porque retirou a sua candidatura à presidência. Voltou a ser um negro imprestável para a elite.  

A dança

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É unânime as afirmações de que a dança no clip serve para distrair do caos rolando ao fundo do vídeo. Nada mais óbvio e ao mesmo tempo nada tão profundo ao expor com tamanha beleza e sofisticação a arte como instrumento de alienação.

No país da boquinha da garrafa lembrei do rapper Aliado G do grupo Faces da Morte ao responder a pergunta de um jornalista questionando se era uma obrigação, o rap sempre falar de política. A resposta de Aliado G foi demolidora: “Toda arte é política, não só quando ela é engajada.” Respondeu o rapper antes de finalizar com essa, “Nós fazemos uma música para transformar a realidade. A música também pode ter a função de descontrair, distrair para manter as coisas como estão, não inventaram ainda uma terceira forma de arte”.

“Mudar o mundo é impossível é o que a maioria diz
Engole a dor engole o ódio e tenta ser feliz” – Mudar o Mundo (Faces da Morte)

Massacre de Charleston

O coral negro cantando no meio da música é um momento de trégua quando as coisas parecem começar a entrar nos eixos. Mas é só achar que tá suave uma arma cai na mão de nosso personagem e, vrau… Os comentários dizem sobre a relação da cena com o Massacre da Igreja de Charleston na Carolina do Sul.

A rajada que cala a voz do coral no filme, soa perturbadoramente idêntica as balas que calaram a voz da Vereadora do Rio de Janeiro Marielly Franco. É o mesmo tom autoritário que breca cinco jovens negros num automóvel comemorando a conquista de emprego de um deles, é monótono.

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“É muito fácil vir aqui me criticar
A sociedade me criou
Agora manda me matar” – Soldado do Morro (MV Bill)

O cavalo branco do apocalipse

A morte vestida toda de preto montada num cavalo branco galopando a partir de onde está estacionado uma viatura policial parece ser uma referência ao projeto de limpeza étnica promovido pelo Estado.  

Por aqui o massacre do Carandiru, da Candelária, as chacinas como a de Osasco e os Crimes de Maio são tristes capítulos onde a polícia tem licença para matar.

“Muito bem saiam da mira dos tiras
Saiam da mira dos tiras
São eles é quem forçam são eles quem atiram
Reze pra sobreviver” – Click Clack Bang (Conexão do Morro)

Celulares

Num pavilhão superior em um cenário semelhante a uma cadeia, jovens se mantêm calados e indiferentes ao caos. Imbecis aprisionados em smartphones é mato, essa é a maior epidemia global e nenhum de nós estamos imunes.

“Celular óctoc
Na mão, do zé polvim
É uma arma poderosa
Nisso eu acredito sim” – Terceira Opção (Trilha $onora do Gueto)

Carros antigos

Uma hora o barato fica tão loco, que só o gesto de simular estar empunhando uma arma é o suficiente para fazer geral dá fuga. É o único momento do vídeo em que Gambino se vê solitário, ele tira do bolso um baseado e os problemas parecem desaparecer.

Sob o cadáver do cara do violão morto no começo do vídeo ele sobe em cima do capô de um carro. Quer maior símbolo de status social que o automóvel na cultura americana?

Ele dispensa o baseado pra longe e dança em cima do capô do carango como Michael Jackson no vídeoclipe The Way You Make Me Feel, onde ele se empenha para conquistar sua musa. Aqui a cantora Sza é sua espectadora mas parece não dar muita bola para a performance do galã. Embora tenha visto muitos relacionar a dança com James Brown e a apropriação cultural, penso que a influência do Rei do Pop é onipresente. Os estudantes que o acompanham, alertou meu parceiro, estão na verdade mortos, como em Trillher, são mortos vivos.

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Carrões e mulheres é uma combinação batida nas maiores feiras de automóveis do mundo, na Fórmula 1 e nos vídeoclipes de rap e de funk. Só que aqui os carros não são as naves ostentadas nas músicas e nos clipes. Os veículos com mais de 40 anos não tem luxo, como se o artista quisesse destacar a diferença entre o showbizness e a realidade.

“21, 22, 23, 24
Desse jeito que eu gosto
Das cromadas no meu carro
21, 22, 23, 24
Não importa a idade
Eu coloco elas de quatro” – Desse Jeito (VDA)

Calça do exército confederado

Algumas das análises deste clipe são minuciosas, afirmam que a calça que o rapper veste é um modelo do uniforme dos soldados dos estados do sul dos Estados Unidos agrários e atrasados rebelados contra o fim da escravidão. Analisam mais a sua calça do que o fato do rapper estar sem camisa. Mas alguém arriscou em comparar seu estilo com a do músico ativista Fela Kuti.

Em nossa história, tivemos a Guerra do Paraguai, tá ligado? Quando Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para massacrar nossos hermanos paraguaios. O motivo? O Paraguai era mais evoluído e próspero, abraçamos as conversa dos poderosos de que os paraguaios tavam na crocodilagem querendo ferrar com a gente, então pra não ser ferrados, ferramos com eles de maneira covarde.

Naquela época quando um homem branco cheio de posses era convocado para a guerra, o cara se safava enviando seus escravos para morrer em seu lugar.

A promessa de liberdade para quem combatesse na guerra e retornasse com vida se tornou a melhor prática do projeto de embranquecimento do país antes da abolição da escravatura. Portanto só consigo deduzir que a calça do ator vertido para nossa realidade é uma calça de capoeirista.

“Gingando igual capoeira
Virado tô no Jiraiya
Voado tipo uma raia” – Afro Rep (Rincon Sapiência)

As armas

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Enquanto corpos dos negros atingidos pelas balas são arrastados para fora do vídeo, alguém observou o quanto as armas são recebidas com cuidado por uma criança com um pano vermelho para não arranhar a peça. O direito ao porte de arma não pode ser maior que o direito à vida. O trato zeloso das armas no clipe é uma crítica as gangues de rua, ao Gangsta Rap e a cultura de violência banalizada que vitimaram milhares entre Big, Tupac, Jam Master Jay.

Aqui, conflitos com armas de fogo ceifaram a vida de Sabotage, DJ Lah, Da Leste, Gato Preto. Preto matando preto, pobre matando pobre… normal segue o baile. Esta é a América.

O Levante de Soweto

As roupas dos dançarinos são consideradas referência à política de apartheid na África do Sul quando os estudantes do bairro de Soweto foram proibidos de serem ensinados em sua língua local nas escolas, o que levou milhares de estudantes às ruas.

Alguma semelhança com a política de Geraldo Alckmin quando estudantes ocuparam as escolas para impedir que elas fossem fechadas?

Corrida  

O sprint final é uma fuga a toda velocidade com Gambino sendo perseguido por homens brancos, ele carrega no rosto uma expressão aterrorizadora. A adrenalina liberada pelo corpo em situações de stress é para reagirmos de um dos dois modos: lutar ou correr. A fuga no final do vídeo demonstra que resistir é impossível.

“Ser preta no corre é tipo o filme Corra
Não vivo de sorte,
Aqui é viva ou morra
Pode crer” – Camélia (Drik Barbosa)

Algumas das críticas que li insistia em dizer que o assassino deveria ser um branco. Apesar do conflito racial ser a tônica do autor, considere o personagem sem alma, sem cor, ou se preferir branco, vermelho, azul, com estrelas e listas. Entenda o protagonista representando a própria América. Matando seus filhos, a cultura de seu povo, enquanto vende o feliz sonho americano, no fundo, um terrível pesadelo.

O videoclipe é uma obra aberta que fala por si, e dá a chance de inúmeras interpretações e reflexões. Estas foram algumas das minhas brisas, tire suas próprias conclusões. Diga aqui nos comentários sua opinião sobre o vídeo.

Mas não mosque, esta é a América fí.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

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Triunfo na estreia da turnê de 10 anos da carreira de Emicida

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Emicida estreia a turnê de 10 anos da Triunfo.

O Bang é o seguinte, quando as cortinas do Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros se abriram no show de estreia da nova turnê de Emicida, Triunfo. Todos os olhos, ouvidos e corações ali presente foram incinerados com uma apresentação da mais alta octanagem.

“Quem é quem nessa multidão” (Bang)

Toni C.*

Do canto do palco, o menino nascido no Jardim Fontales, aguarda a deixa. Quando Emicida atravessa a coxia escura para os spots de luz rumo ao centro do palco, é a plateia que lota o auditório que o fuzila com aplausos e gritos.

Antes de executar a primeira canção, Emicida agradece a cada um ali presente, que o acompanhou de alguma forma, em algum momento dessa década cheia de Triunfo. “Em 15 de março de 2008,” relembra ele, “O público era de 300 pessoas para ver nossa primeira apresentação do single Triunfo”, comenta o filho de Dona Jacira diante dos três dias consecutivos de apresentações esgotadas.

“Neguinho é o caralho
meu nome é Emicida,
porra o Zika”

…segue versando passando por Gueto, A Chapa é Quente, Boa Esperança com a participação de Jota Ghetto, funde o canto de alforria seguida da poderosa Pantera Negra.

“Cês veio golpe
eu vim Sabotage” (Pantera Negra)

De I Love Quebrada, à Passarinhos são onze canções de maior introspecção bem no interior do show passando por Oásis, Mãe, Hoje Cedo, Como Tudo Deve Ser, Chapa, Alma Gêmea, Eu Gosto Dela, Madagascar e Baiana.

Evandro Fióti seu irmão e produtor, monitora cada movimento do canto do palco garantindo que tudo seja executado conforme o planejado como um maestro invisível. Alguns minutos antes no camarim, Emicida reune a equipe e lembra do empenho de seu irmão desde a apresentação de estreia, “Esse garoto saiu correndo do McDonald’s para contar as entradas” relembra daquele primeiro show.

Seu DJ Nyack companheiro nessa trajetória passou a contar com o reforço dos percussionistas Carlos Café e Sivuca, com o brilho dos metais de Ed Trombone, Fernando Bastos e Gustavo Souza além da guitarrista Michelle. Juntos executam evoluções de uma banda marcial com a precisão de um sniper em um show a parte. A excelência, ecoa como uma batalha onde decibéis são disparados para todos os lados, quem ganha é o público.

Uma senhora com a filha ao lado dança o tempo todo, levanta a mão, canta as letras uniformizada com as roupas da LAB como a maioria bem mais jovem ali.

Dispara os acordes de Zica Vai Lá, Emicida se aquece como se fosse entrar num confronto físico, mas pede para a música parar, vai até o público e chama um garoto, “Cê canta pra caralho eihn!?,” antes de se corrigir: “Canta da hora!”. O pequeno Yohan, não se sente menor por não ter participado do show original há 10 anos, praticamente sua idade, manda bem junto de seu ídolo ajuda a manter as mãos e almas pra cima.

O show é eletrizante, praticamente sem intervalos entre as músicas, não há pausas longas para trocas de roupas, o artista não deixa o palco uma única vez, como uma demonstração voraz de que toda sua jornada foi para viver aquele momento. Emicida se quer bebe água durante as duas horas de show, sua intenção é preencher toda as duas horas de apresentação com os hitz construídos ao longo destes anos.

Mandume trás ao palco Muzzike, Amiri, Raphão Alaafin, Jota Ghetto e a aniversariante da noite Drik Barbosa, são implacáveis.

Triunfo é o single que alcança sua primeira década, é o show que a partir de agora está nas plataformas digitais, é o DVD, é a turnê que dá ignição a partir desta noite, é toda a trajetória de Emicida.

Tive o privilégio de assistir do melhor lugar, entre os cases de instrumentos ao lado do palco. Pude ver o pequeno Yohan chegando feliz ao fim da apresentação para conhecer no camarim seu ídolo. Me despedi do Mestre de Cerimônias, sai de lá às pressas sem querer falar com mais ninguém pra não correr o risco de desmanchar as imagens nítidas que acabei de narrar.

Na saída trombei um velho conhecido que trampou mô cota com rap nacional, ele me contou que não via um show há um tempão, comentou o quanto a coisa evoluiu, e o quanto estava feliz por ver a renovação do público.

Entrei no metrô convicto de que noites como essas nos provam que viver vale a pena e com a certeza de que nada mais poderia me abalar. Ledo engano, na estação seguinte embarcaram trabalhadores voltando pra suas casas depois de uma jornada exaustiva. Entre eles dois rostos conhecidos, Muzzike e DJ Nyack, a pouco tinha os vistos no palco, pra mim foi como se tivesse embarcado Barack Obama ou se Lula tivesse deixado o cárcere.

Bem diferente da desgastada forma de tentar materializar o sucesso nos videoclipes cheio de carrões. Dividir o vagão de metrô com essas figuras, depois do nirvana que provocaram na plateia é a comprovação de que Triunfo não é uma palavra, é a atitude!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

As provas do triplex que condenam Lula

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Foto: Ricardo Stuckert Filho

Querido Lula.
Não consigo imaginar como esse desfecho poderia ser diferente.
Pra essa gente a solução do mundo foi jogar o meu povo no porão de um navio escuro e fedido e arrastar para o outro lado do Atlântico.
Acorrentar, açoitar, aprisionar foram as soluções civilizadas dessa gente.
Dizimaram com a nossa população nativa, sem um pingo de arrependimento.
Escalpelaram as florestas, como uma baita solução.
É ouro por espelho, dinheiro por respeito, pré-sal por consolo.
Convenhamos, essa gente aprisionou Graciliano Ramos, Prestes, Mandela, Gandhi, Rafael Braga e essa segue como a mais eficaz política pública nas periferias.
Derrubaram João Goulart, fizeram o mesmo com Allende, Lugo e com a Dilma, sequestraram Hugo Chaves, levaram Getúlio ao suicídio.
Não contentes, assassinaram Chê, Malcolm, Martin, Marighella, Marielle, Olga e seguem cotidianamente quebrando nossos irmãos nas quebradas.
Com Jesus Cristo fizeram um outdoor, pregado-o vivo numa cruz.
Sempre, sempre e sempre em nome da lei e da ordem, como uma solução para deixar o mundo melhor.
Por tudo isso Lula, não pense que você foi condenado só por convicção, sem provas.
Eu estou de prova, a multidão que foi pra frente do Sindicato está de prova.
Testemunhamos mais um ato de estupidez, essa estupidez sem tamanho que é a maior prova do ódio de classes.
Tenha certeza Lula, você foi condenado pelo triplex: acabar com a fome, com o analfabetismo e com o desemprego.
Nunca antes na história desse país… pobre voou de avião, fez faculdade, ganhou salário feito patrão. Estas são as provas de sua condenação.
O resto é conversa pra Bonner dormir.

Toni C. Lula da Silva

#lulalivre

Com vocês, a fantástica Virada Cultural, na Cracolândia!

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– AÍ CARAI!

Soltei sem querer o palavrão num urro ao acordar com o estrondo dos primeiros tijolos da parede zunindo rente ao meu ouvido antes de espatifarem com toda força no chão.

Jamais falei um palavrão na frente dos meus filh… Meus filhos!? Cadê meus filhos? E ai eu só ouvi o PÁAAH!

A retro escavadeira fez um arregaço na parede. Mesmo engolindo pó, mesmo no escuro, mesmo antes do segundo golpe daquele dinossauro de aço eu já tinha juntado toda minha prole.

Segurar os quatro filhos com duas mãos é coisa que só uma mãe acuada é capaz. Nessa hora a gente arranca força nem sei da onde. Tá certo que dormir todos juntos na mesma cama ajudou para eles só acordarem já debaixo de minhas asas.

Passei a mão nas crianças e foi só o tempo da parede vir abaixo fazendo desaparecer a cama em que a gente dormia neste mesmo instante.

Pensei que era um pesadelo, daqueles bem feio que faz a gente se mijá nas calça e acordar no susto. Antes fosse fí.

Era um pesadelo, mas era um pesadelo invertido. Num vai acha que pesadelo invertido é o sonho da Cinderela, abraça. Pesadelo invertido é aquele que começa quando você acorda e a abóbora tá desmoronando junto com os tijolo tirando fina da sua cabeça.

Do buraco da parede entrou uma luz forte do farol da escavadeira, junto do vento frio trazendo a chuva gelada, nem sei que horas era mas ainda estava escuro lá fora. Eu só vi os vulto de um monte de homem fardado invadindo meu barraco com fuzil na mão, andavam feito um bando de baratas quando a gente destapa um bueiro.

Mas é um bueiro invertido. Não vai pensar que bueiro invertido é um palácio de luxo. Né nada disso não. É que quando destampou a parede, quem tava lá morando dentro era eu e meus fí, eu digo bueiro mas era minha casinha humilde paga com meu suor e de meu finado marido. E as baratas foram entrando como quem procura o ralo do esgoto pra fugir da chinela.

Eu escondi as minhas cria tudo pra traz de mim. Meu penhoar ficou transparente mas eu não me avechei não.

– Quiqui seis qué na casa de uma muié cheia de fiu? A gente num faz um mal pra ninguém, aqui ninguém é bandido não.

Foi um corre-corre, um pega pra capá. No meio do furdunço fui vendo que não era só minha casa que foi invadida, foi o bairro todo. Pense numa baderna…

Eu vim de uma terra chamada Ceilândia, cheguei aqui com a idade dessa minha fia caçula. Fui criada num bairro chamado Brasilândia. Até que descobri que estava grávida.

Meu pai não aceitou aquilo, disse que o cabra que deitou com sua filha tem que casá. Falou pra minha mãe que se eu já sabia fazer nenê, também já sabia cuidar das cria.

Foi aí que vim para nesse canto de mundo.

Meu marido era um homem bom, quando a gente viu já era quatro fio.

Um dia ele voltando tarde do trabalho pra casa levou um tiro da polícia, confundiram com um nóia daqui da área e mataram ele com quatro tiros, a mesma quantidade de fio que ele pôs no mundo.

Sem dinheiro pro velório o coitado foi enterrado como indigente.

Até esses dias eu não sabia o que era a guerra, terremoto, furacão, terrorismo essas desgraça que a gente só vê pela televisão e que acontece em lugar bem longe. Agora posso dizer que sei como é qui é.

Já faz uma semana desde aquele domingo chuvoso. A cidade toda em festa e pra cá a virada cultural foi revirando minha casa de ponta cabeça.

Me disseram que quem mandou aqueles homens baratas destruir minha casa foi esse tal prefeito, disseram que ele fez isso pra subir novos prédios. Eu não acreditei não. Subir prédio, pra que esse trabalho se já tinha prédio aqui? Agora destruiram tudo.

Dizem que é o prefeito, mas eu sei que não é.

Ele é um moço bonito, bem apessoado, fala bem, tem dinheiro, é estudado. Jamais uma pessoa dessas iria fazer isso com as família, tinha moça gravida, gente de idade que nem eu ví.

Onde já se viu derrubar casa cheia de gente dentro, só uma pessoa sem nada de bom dentro pra querer uma coisa dessas.

Eu votei nesse prefeito sabe. E vou votar nele de novo pra presidente. Isso é se eu conseguir achar os meus documentos no meio desses entulhos.

Já sei que vou morrer sem conseguir meu aposento, sem receber uma pensão do pai dos meninu.

Se eu recebesse um dinheirinho bom, iria querer levar as criança tudo pra Disneylândia.

Eu sei que é sonho alto pra uma mãe sozinha que cria os fí nesse porão de almas que eu chamo de Luz, mas o povo só conhece como Cracolândia.

A mim eles não me permitem nem sonhar, não me permitem nada, fora, temer.”

Toni C.
Texto originalmente publicado no jornal portugues Tornado.

“Pixação” (é) e Arte(?)

Por: Demetrios dos Santos Ferreira*

Existe uma nítida falta de consenso sobre o aspecto artístico da pixação (opto em grafar a palavra com ‘x’ pois essa é a forma mais comumente adotada pelos próprios pixadores). Uma parte desses próprios agentes ­alegam que o que estão produzindo não é arte, já outros encaram o ato de pixar como uma forma de arte.

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Edifício Pixado no centro de São Paulo

No documentário “Pixo” (http://bit.ly/PixoDoc) dirigido em 2009 por João Wainer e Roberto T. Oliveira, temos uma oportunidade ímpar de entender a pixação por meio dos próprios pixadores.

William, um pixador da cidade de Osasco em São Paulo faz um relato interessante nesse filme, que nos ajuda a refletir sobre o significado da expressão por meio da pixação.

Ele afirma que não é capaz de ler a “letra de forma”, apesar de ter passado oito anos na escola. William chegou a concluir a oitava série do ensino fundamental, mesmo assim ele afirma que só consegue “ler pixos” e que não compreende de forma alguma textos produzidos em letras de forma.

Durante o documentário, ao tentar ler textos de um anúncio comum pintado nas paredes em sua comunidade, William não consegue ler frases muito simples, mas ao se deparar com pixações diversas, que para a maioria de nós seriam inteligíveis, William consegue ler normalmente, sem nenhuma dificuldade. Ele afirma que compreende muito bem a tipografia das letras utilizadas na pixação. Ou seja, há um código estético estabelecido que pode ser perfeitamente compreendido ente o grupo social de pixadores e isso não pode ser desprezado em nossa análise. Continuar lendo

Aos alienados: revolução. Em tempos de ódio: o amor. Esse é Mano Brown, Boogie Naipe, Baby

Por: Toni C.*

Tem ser humano que é tipo vinho e tem os zé povinho, esse cara é definitivamente do primeiro tipo, tinto. Aquele que rimou sobre revolução enquanto éramos todos alienados, é o mesmo que canta amor em tempos de ódio, no elegantíssimo álbum Boogie Naipe pelo primeiro e único: Mano Brown.

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A gente só queria dançar feito Michael Jackson e ter a cor que ele adotou aos 40 anos. Paulo Maluf vencia eleição para qualquer coisa que ele disputasse antes da gente saber sobre Malcolm X. Música jovem na quebrada no fim dos anos 80 era música estrangeira e ponto.
Posso falar um quilo dos tempos da Função, quando Gil Gomes era quem mostrava ao seu modo a favela, os pé-di-pato era fábrica de presunto.
“Justiceiros são chamados por eles mesmos
Matam homens e dão tiro a esmo” (Pânico na Zona Sul)
A partir daí, nada mais ficou no mesmo lugar.
Quer saber o que era ser jovem de periferia em 1992? Digita Negro Limitado e ouça Edi Rock no álbum Escolha Seu Caminho, a gente era limitado pela falta de informação, falta de orgulho, falta de estima própria.
Hoje os tempos são outros, temos informações até de sobra. Não se informa quem não quer,  quem fica só de zepovinhação, quem não morre afogado pelo tsunami de ideias, pela desinformação num mundo pós-verdade.
Eis que ressurge Mano Brown de maneira futurista e nostálgica como o globo espelhado no alto da pista de dança. Contagiante e versátil, Boogie Naipe é um álbum musicalmente foda. O primeiro disco solo de Mano Brown tem uma atmosfera envolvente fazendo das canções um repertório tão variado quanto os embalos de sábado a noite.
Confesso, resisti para ouvir e quando apertei o play fui imediatamente sequestrado por Simoninha…

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16 frases que provam que 2016 foi um ano que não deixará saudades

Por: Toni C.

Segundo o poeta, é genial quem teve a ideia de cortar o tempo em anos. Mas em 2016 foi diferente, essa pequena fração do infinito não foi cortada, foi rasgada, mascada e cuspida em frases que dá uma mostra do ano do qual somos sobreviventes. 2016 é um ano para ser esquecido… nunca, jamais. Para que não se repita, para que a gente acorde desse pesadelo e não durma no barulho dos patos e no silêncio repentino das panelas aqui vai uma lista de 16 desgraças resumidas em 16 pérolas para provar que 2016 foi um ano zuado e pode perdurar por mais 20 anos:

1 – “Apesar da crise…”.

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O tom de pesar se tornou um mantra para lamentar os bons índices que o Brasil mantinha na economia no início do ano… “apesar da crise” de pessimismo dos meios de comunicação.

2 – “A prisão coercitiva do ex-presidente Lula foi para evitar tumultos” – 04/03/2016.

eicay3e659l6zkde03hs3qz4qO juiz Moro justifica o abuso de autoridade ao conduzir e manter preso por horas o ex-presidente Lula, enquanto sua casa e de sua família eram reviradas, nada de comprometedor foi encontrado.

3 – “O Brasil não é a República da Cobra” – 04/04/2016.

19139628Discurso de Janaina Pascoal descabelada rodando a bandeira como numa vaquejada em ato pró-impeachment para rebater a afirmação de Lula: “se quiseram matar a jararaca não bateram na cabeça, bateram no rabo”.

4 – “Na televisão, a verdade não importa. É negro, favelado, então tava de pistola”.

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MC Carol protesta com a música Delação Premiada sobre casos como o do Amarildo, o do DG, crianças que são baleadas a caminho da escola e quem não se lembra da Cláudia morta quando foi amarrada e arrastada em uma viatura policial. Atitude semelhante teve Beyonce ao apresentar a música Formation no intervalo do Superbowl também denunciando o genocídio da juventude negra “parem de atirar em nós” diz a música da cantora americana, “cada país tem o Formation que merece” completa MC Carol.

 5 – “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”  – 23/05/2016.

Frase de Sérgio Machado à Jucá em conversa vazada à imprensa. Apesar de ser o mais citado na Lava a Jato, Aécio nunca foi convocado a depor. evqcv12mx9nevs0lrmbo3momiO juiz Moro e Aécio ainda apareceram sorrindo em evento da Revista Isto É onde Temer recebe título de “Homem do Ano”.

6 – “Amassaram a mina, intendeu ou não intendeu?” – 26/05/2016.

estuproUma garota de 16 anos foi vítima de estupro coletivo com a participação de mais de 30 homens no RJ, o vídeo com abuso foi filmado e compartilhado nas redes sociais pelos próprios agressores.

7 – “Dear Mama” – 03/05/2016.

wenn_afeni_tupac_shakur_jc_160503_4x3_992Morre aos 69 anos Afeni Shakur, integrante dos Panteras Negras e mãe do rapper assassinado Tupac Shakur.

8 – “Tchau Querida” – 31/08/2016.

ng6521680Primeira mulher eleita Presidenta da República é afastada do cargo mesmo sem haver comprovação de crime algum.

9 – “Não fale em crise, trabalhe”.

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Quando o golpe transforma oposição em situação, o “Apesar da Crise” se torna imediatamente na frase acima citada pelo presidente que desistiu de espalha-la por todos os cantos. O autor da frase se encontra preso condenado há oito anos por tentativa de homicídio.

10 –”Transformar a vítima em culpado” – 18/08/2016.

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Foi o que fez o juiz Olavo Zampol Junior ao negar o pedido de indenização ao fotógrafo Sergio Andrade que perdeu a visão quando foi atingido no olho por uma bala disparada pela Polícia Militar.

11 – “Argentina, não. Bê de Brasil…” 17/09/2016.

xserra-brics2-png-pagespeed-ic-bosw4x4v5aJosé Serra, convertido em Ministério das Relações Internacionais tenta enumerar os países que compõe os Brics.

12 – “O que está acontecendo? Essa será a nova bandeira do Brasil?” – 17/11/16.

rosangela-mullher-2Provoca uma confusa manifestante, temendo que o Brasil venha a ter uma “bandeira comunista”, apontando para bandeira do Japão.

13 – “América será grande de novo” – 9/11/2016.

trump-hillaryDonald Trump é eleito, pelo colégio eleitoral, o 45º Presidente dos EUA, apesar de ter menos votos que Hillary

14 – “Não se preocupe. É isso mesmo. Fique tranquila. Está tudo bem. Deixa comigo”. – 30/11/2016.

63002778_the-wreckage-of-the-lamia-airlines-charter-plane-carrying-members-of-the-chapecoense-reSobre o plano de voo do avião que conduziria o time Chapecoense ao desastre, a frase atribuída ao despachante acreditando que o combustível seria suficiente para concluir a viagem.

15 – “A PM tirou um pedaço de mim que jamais será preenchido. A PM matou meu filho. Essa dor nunca irá se cicatrizar” – 11/12/2016.

filhotatiLamenta a funkeira Tati Quebra Barraco nas redes sociais. A família ainda sofreu agressão moral com mensagens ofensiva na internet.

16 – “Havendo um inferno, está indo pra lá”. – 26/11/2016.

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Sempre infeliz, Reinaldo Azevedo comenta a morte do líder da revolução cubana Fidel Castro, morto aos 90 anos.

Espantado com essas 16 frases que comprovam que este ano foi um grande erro? Com esta pequena amostra dá pra ter ideia das outras 2.000 calamidades impublicáveis!?

Como desgraça pouca é bobagem, antes do ano terminar outra frase fala por sí. Se as mães tem um defeito é que elas não duram para sempre:

“Aí Dona Ana a senho é uma rainha”. (Mano Brown).

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A calçada da fama e os anônimos na rua

Pouso em Los Angeles no feriado de Ação de Graças ao som de California Love nos fones de ouvido. Uma metrópole que voa na velocidade alucinante de possantes carros presos no engarrafamento da hora do rush e eu em trôpegos passos acaricio com a sola do pisante o chão ralo nos becos estreitos formado pelo vão entre os prédios, latões, conteiners de lixo e graffite, estou dentro do GTA parceiro.

Por: Toni C.

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Taí uma cidade charmosa e talvez meio cafona. Notei isso logo no primeiro segundo ao desembarcar num dos terminais ainda não reformado do moderno aeroporto de LAX. O Rolex gigante na parede marca que por aqui o tempo passa em flashes, o carpete no chão é um luxo que agrada a visão e dificulta as rodinhas das malas dizendo a cada forasteiro feito eu – Psiu, pra que tamanha pressa? Chega no sapatinho. – confesso que tento sacar o “alto lá”. Continuar lendo

Socorro, ajudem uma amiga em apuros

Por Toni C.

Acabo de chegar da delegacia de defesa da mulher onde fui acompanhar uma amiga que foi violentada. Estou em choque e a única coisa que consigo fazer é compartilhar o texto do escrivão com o depoimento sofrido narrado aos prantos para que nunca mais nenhum de nós caia num golpe tão repugnante desses também:

[A delcarante iniciou o depoimento aflita]. Vim prestar queixa porque sou vítima de um violento ataque. Não quero tomar seu tempo com qualquer bobagem… Dizem que desgraça pouca é bobagem não é? Pois bem, não tenho nenhuma bobagem para contar.

[O escrivão pediu para ela começar com informações pessoais para o preenchimento do prontuário].

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Desculpe, estou com os nervos a flor da pele e acabei nem me apresentando: Eu sou brasileira, pele parda, tenho 28 anos, que aliás acabei de completar. Nasci em 5 de outubro de 1988 em Brasília e minha chegada foi celebrada com festa e alegria. Continuar lendo

2016, O Ano do Rap

Por Toni C.

Uns caçando Pokémom outros caçando assunto. E eu aqui caçando ideia.

“1994 é o ano do Rap
Quem nos critica, esquece”. (Sistema Negro, Poder da Rima).

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Pleno emprego, autosuficiencia em petróleo, credor do FMI, moral nas galáxia e a porra toda.

Aí já viu né tio, é osso, vai rimar o que? Vai reclamar do que? Vai contestar o que? Rap é som de protesto, critica social… Né não?

O só, cheguei a escrever: “O Hip-Hop Está Morto!” em 2011.

Pra quem achou que tudo foi pro saco, o pesadelo acordou: É hoje, é agora, O ANO DO RAP. Continuar lendo