2019 Começa fervendo no Clube da RUA

2019 começou fervendo no Clube da RUA. Confira tudo que rolou no Box de Janeiro 🔥

Box do Mês Janeiro 2019
Tema: É Quente!
Artista Convidado: Crônica Mendes
Livro do Mês: Sol na Cabeça – Giovani Martins
Brinde exclusivo LiteraRUA: Boné RUA
Brinde: Aos Que Caminham (autografado)
Revista da RUA edição de Janeiro
Marca Páginas do livro NIdéias Que Rimam Mais Que Palavras Vol. 1 – Rashid

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Céu e Capão são palavras rivais

 

IMG_9582O ano era provavelmente 2001 e não era uma odisseia no espaço. Eu era só um maluco latino-americano querendo sair de Carapicuíba com a missão de participar de um encontro de jovens socialistas na Assembleia Legislativa de São Paulo. 

Pulei o muro da estação de trem para ter dinheiro na volta. Lá assisti a uma palestra de um cara de cabelo e barbas longas, grisalhas com nome esquisito, dizendo entre outras coisas: “O brasileiro precisa conhecer o Brasil”.

Por Toni C.*

Quase duas décadas depois, passo em frente ao mesmo endereço. Carrego além das memórias uma bagagem com o peso do mundo. São livros, alguns de minha autoria, outros de minha editora. O corre é pra entregar numa livraria, sim elas ainda existem, logo ali na sugestiva Rua Abolição.  

Dali, sigo pra sul, pra atender um chamado da Orpas, a missão? Fazer um papo com jovens estudantes do Céu.

Quando era criança, cresci com uma forte ideia que a zona sul era um lugar longe, rico e indiferente. Onde talvez more a felicidade. Um tio meu trabalhava como motorista particular de um grande empresário nacional. Aparecia com as nave nova em casa. Uma vez ganhamos agasalhos, os moletons de primeira eram dos uniformes do ano anterior dos filhos do patrão do meu tio. Eram as melhores roupas que tínhamos. Ouvia os adultos dizerem para tomarmos cuidados para não sermos raptados por conta daquela roupa alvíssima. Rapto era só como os sequestros eram chamados naquele tempo. O Rapto do Garoto Douradoera o que a professora exigia que a gente lesse na escola, cairia na prova, ela ameaçava. Porque não davam provas sobre a vila do Chaves, Spectreman, A Formiga Atômica ou Thundercats se pá?

Anos se passaram até que chegou o notável dia em que ouvi Pânico na Zona Sule meus neurônios deram logo um fatality em tudo que eu pensava que sabia do mundo.

Demorou para conseguir juntar sem bugar essas duas zonas sul: aquela que é o verdadeiro céu na terra do agasalho com “Morumbi” estampado no peito e a zona sul do Capão Redondo cantada pelos Racionais. Mentira, buga até hoje viado!

É a primeira vez que piso no Capão, depois que Lula foi raptado, depois que Mano Brown mandou a esquerda voltar pra base amassar barro. 

Da janela do metrô, sou recebido por quatro par de olhos do grafite esmaecido na Avenida Sabin, o mundo é diferente da ponte pra cá.

Passo na Loja 1 da Sul para me municiar de livros antes de conferir a boa.

Mau sabia a maldade que me aguardava, uma recepção acolhedora, eram os heróis da quebrada sem capa, sem mascara, professores e profissionais da educação torcendo para ver o palco se tornar um octógono pro cérebro.

A bibliotecária, sem dó, fez logo um caminho de flores com origami de papel que ia do camarim ao palco para eu passar como se fosse o caminho da noiva para o altar. 

Sorte a minha que tenho uns aliados forte, quem tem amigo tem tudo, Daniel Farias chamou no gogó feito puxadô de samba enredo, “Alô Comunidade!”. Grudei no palestrante Célio coordenador da Etec zona sul e percorremos juntos aqueles longos três metros e meio. 

Depois disso, foi uma troca de duas, três horas talvez, nem sei. A generosidade no fundo de cada olhar intrigado, não sabia quem tava mais espantado, os professor, aqueles jovens que deram folga ao celular ou eu. Tentava entender o placar, quem saiu dali ganhando mais? Estávamos achando graça de quem tem, e nos sentindo os verdadeiros milionários.

Sobre o que falamos? Nada de mais, oreiada sobre o quanto a leitura salva vidas, como o conhecimento e a cultura vale mais que barras de ouro. Vai vendo o estouro!?

Quem disse que “Céu” e “Capão” são palavras rivais?

Enquanto costurava o verbo com ideias que pode até parecer demodê, blasé ou sei lá o que…  Eu pensava comigo, lembrava daquela palestra que assisti há quase 20 anos onde aquele Toni lá trás ouvia de um cara com cabeça grisalha e barba longa dizendo que o brasileiro precisa conhecer o Brasil. E eu xingando aquele velho em pensamento: “Conhecer o Brasil? Esse maluco num faz ideia que pra chegar aqui tive que pular a estação. Conhecer o Brasil como?”.

Hoje com outra quilometragem rodada, posso dizer que conheço alguma coisa desse Brasil e aquelas palavras fazem pra mim mais sentido hoje do que quando foram ditas pelo grande Azis Ab’Saber um geógrafo que percorreu o país na ponta do lápis, muito antes da invasão curiosa dos satélites e Street Views.

Terminei de responder a última pergunta da plateia, achando que alguma daquelas bobagens que falei, pode fazer a diferença pra alguém. Daqui vinte anos talvez, assim como aquela frase hoje faz pra mim.

O brasileiro precisa conhecer o Brasil.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA e curador do ClubedaRUA.

Livro Café, de Dona Jacira trata de coragem e busca por seu lugar na vida

Dona Jacira lança em novembro Cafémais uma publicação da Editora LiteraRUA em parceria com a Laboratório Fantasma, primeiro livro da artista, griot, guardiã das histórias do seu povo, mestre em artes e ofício, poetisa, mulher e mãe.

Biografia narrada em primeira pessoa, Café nos apresenta palavras impressas que refletem mais que o brilho da poesia que, por vezes, brota do riso e do olhar reflexivo de Dona Jacira. Tal como em um baile, a obras nos oferta palavras que valsam entre um capítulo e outro e vão, suavemente, apresentando a rica história de uma mulher que decidiu perseverar.

 

Mas, não se engane! A obra descortina mais que a história de uma mulher de personalidade forte. Café fala sobre sonhos, desilusões, desejos, identidade, território, justiça e medo.

 

Como bem colocado pela educadora Maria do Rosário, outra mulher lutadora nos palcos da vida, ao prefaciar o livro: “Cuidado, você está entrando em terreno perigoso!”. E o perigo é não parar de folhear as páginas que apresentam não só a história de Dona Jacira, mas refletem também a realidade crua da vida que é imposta as muitas “Jaciras” de nosso Brasil, mulheres que cismam em não desistir da vida, que se recusam a parar de sonhar.

 

Café não nos oferta uma história triste – ainda que faça rolar uma lágrima aqui e acolá a cada lance narrado e vivido por Dona Jacira -, fala de coragem, de altivez, de bondade, de humanidade. Fala de uma criança que, precocemente virou mãe, mulher, cidadã e que muito cedo enfrentou a dureza da vida, a navalha dos preconceitos e descobriu que a violência podia estar sentada no sofá da sala, na mesa de jantar ou se esconder nas paredes de sua infância. O livro nos ensina perseverança, arte e amor pela vida.

 

“Vivi momentos muitos duros. Nos quais não havia espaço para o desenho, a pintura, ou mesmo para a poesia e menos ainda para a prosa. Mas, sempre escrevi! Na minha cabeça, escrevi. A arte sempre foi um refúgio, lugar de busca e de encontro!”, afirma a autora.

 

Dona Jacira é daquelas que alerta sobre o valor dos livros. “Aquele que lê e não entende o valor do escrito e seu papel na história, não é nada além de um mero carregador de livros. Mas, aquele que lê e entende o papel da arte na vida, esse sim, sabe o valor da luta por espaço, por seu território”.

 

E entre uma oficina e outra, com risos, espontaneidade e franqueza que são peculiares a Dona Jacira, vamos desvendando não só a história de uma mãe que lutou para criar seus filhos. Mais que isso, de uma mulher que compreendeu seu papel social e decidiu ocupar seu espaço na vida tendo como horizonte vencer a opressão, a violência e o preconceito. Uma Carolina Maria de Jesus do nosso tempo!

 

“Acredito que o livro vai contar e se fazer ouvir pelas milhões de “Jaciras” que estão espalhadas Brasil afora. E, guardada as devidas proporções de espaço e tempo, são histórias que refletem, infelizmente, a realidade de muitas mulheres no Brasil e no mundo até hoje”, alerta o músico e produtor executivo da obra Evandro Fióti, um dos filhos da autora.

 

E completa: “E ainda que ela não tenha ocupado bancos acadêmicos, a forma como a minha mãe escreve, sua perspicácia, inteligência a forma como ela narra e conduz o leitor a um mergulho em suas histórias têm muito a ver com tudo que ela leu, com tudo que ela absorveu da cultura, da arte, resultando na sabedoria que hoje testemunhamos em suas produções e escritos. Sem dúvida, será uma grata surpresa para todos e todas que ousarem conhecer a história de Dona Jacira, sobretudo ela poderá ser ouvida por outras “Jaciras” e que isso dê força a outras mulheres, visto o momento tão complexo que atravessa o Brasil e diversas partes do mundo”.

 

E assim, em um momento tão confuso de nossa história, Café completa bem mais que a conversa da tarde, ele alerta sobre o que já foi vivido não só por Dona Jacira, mas por todas as “Jaciras” desta época e de todas as épocas passadas.

 

Um gole de Café

 

“Sabe leitor, apesar de ser uma história de café de mãe e filha, sei que você é curioso e, por isso, esta louca que vos fala dá um giro na linha do tempo pra que você bote a cara pra dentro desta cozinha em movimento, desfrute do nosso passado e, quem sabe, viaje na sua própria infância. Eu sou um tanto bem louca, tenho delírios, você vai encontrar muita gente que vai ler e dizer: ‘É ficção!’”.
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FICHA TÉCNICA
Título: Café
Autor: Dona Jacira
Categoria: Autobiografia poética
Editora: LiteraRUA / Laboratório Fantasma
Páginas: 440
Dimensões: 16×23 cm.
ISBN: 978-85-66892-18-5
Ano: 2018

 

Ler nem sempre é libertar

A prova disso é o nosso mundo de agora. Passamos horas lendo em nossos dispositivos portáteis: feeds de redes sociais, fotos, memes e o que mais vier. Nunca lemos como antes, mas nunca nos desinformamos tanto. A arte da escrita tem como princípio a libertação, mas se usada de forma equivocada, pode nos alienar, nos confundir e oprimir.

O Clube da RUA (www.clubedarua.com.br), que anuncio hoje por aqui, vem para afirmar o princípio original da leitura, formar e informar para e sobre um mundo comumente negligenciado e pouco lido: a arte que produzimos em nossas periferias, por pessoas e artistas que em condições normais não são ouvidos e lidos como deveriam.

 

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Livros do Clube da RUA no Box de Outubro no Mês das Crianças

 

Todos os meses levaremos aos nossos leitores um box temático e recheado de perspectivas plurais e diferenciadas sobre nossas periferias, sobre nossa sociedade, tudo produzido por autores talentosos, provocações necessárias e reflexões instigantes. Uma biblioteca não é pacote de biscoitos que precisamos consumir em poucos dias para não estragar.

Uma biblioteca é um acervo para consulta, de referência, atemporal e transformador. É isso que queremos: levar para você arte e livros que nos ajudem a compreender o mundo sob perspectivas diferentes das impostas por aqueles que não nos representam.

Boa leitura!

Demetrios dos Santos Ferreira

Editor e idealizador do Clube da RUA

clubedarua.com.br

Vem pra RUA

“Era uma vez…” dos contos de fadas não dá conta de narrar a história de nosso tempo. Por isso saldamos você meu bom:

Salve!

Em tempos de hiperconectividade, em que todos falam e ninguém se entende, apresentamos o Clube da RUA.

O primeiro e único Clube da luta das ideias, onde a literatura periférica é o centro do campo de batalhas. POW-POW-POW!

Carregado até o pente de cultura urbana e o que há de melhor das ideias que brotam das margens e transformam vidas. Pode acreditar.

Receba em sua casa mensalmente uma caixa de primeiros socorros com poesia que cura almas, papo reto que fecham feridas e letras que fortalecem a esperança.

Nóiz é mente crica, que cria enquanto o mundo em caos e crise, chora e mente.  O crime do raciocínio é: omissão, panguá e opressão.

Mas na RUA né não…

Fabricamos o cruzamento entre livros e RUA, arte e autoestima, você e nóiz. Pode chegar. Mas calam aí… Inspira: uuuuuuh e espira: uffffffffff!

Suave na nave? Vem com nóiz, vem de coração.

Sejam bem-vindos ao nosso Clube.

Sejam bem-vindos à Literatura das RUAS.

Esse é o… Clube da RUA!

Toni C. – Curador do Clube da RUA

www.clubedarua.com.br

O que o clip This is… de Gambino diz sobre a nossa América

Toni C.*

Lá vamos nós.

Assim que o videoclipe This is América estorô na net, opiniões e críticas pipocaram de maneira quase tão frenética quanto os 284 segundos críticos da obra prima do rapper Childish Gambino ou se preferir do ator Donald Glover produtor da série Atlanta. Então o que estou fazendo ao me aventurar em também analisar a peça audiovisual mais polêmica de 2018?

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Minha cara é interpretar essa obra dentro da realidade do Brasil. Yes, nosso país também é América! Somos campeões mundiais em linchamentos, temos Bolsonaros, chacinas, milícias e  motivos de sobra para nos envergonhar, por isso aperte a tecla “Tradutor da Quebrada” e assista Gambino mandando nudes da nossa realidade, vai:

Jim Crow

Di cara somos pegos desprevenidos com tiro na nuca do mano do violão, pow! Para dominar um povo mate a sua arte. É uma forma de explicar esta cena?

O gesto do atirador, dizem, ser uma alusão a Jim Crown, um ator racista branco que pintava o rosto com carvão e a boca com baton vermelho técnica conhecida como blackface, quando atuava representando um negro preguiçoso e malandro em menestréis numa representação tão forte que as leis pra zuar os preto dos Estados Unidos ganharam seu nome.

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Pois bem, o videoclipe foi ao ar na gringa na mesma semana em que por aqui a maior emissora do país teve de se retratar por sua nova novela ambientada na Bahia, sem atores negros. O Segundo Sol não foi suficiente para bronzear o elenco. Quem sabe no desenrolar da novela a emissora inove com a volta do blackface.  

“Lua cheia, lobos em ceia
Estrobo clareia os cantos com lodo
E eu com boot branco, tão branco
Que eu chamo de elenco da Globo” – Todos os olhos em nóiz (Emicida)

Tio Ruckus

A careta com um olho esbugalhado e o outro fechado faz alusão ao personagem Tio Ruckus do desenho animado The Boondocks. O personagem negro com o cérebro sequestrado, pensa, age, fala como branco racista, esperando ser visto como um deles. Como Stephan o negro capataz da casa grande que alerta a todos aos gritos: “Um negro montado no cavalo” quando avista o protagonista no filme de Tarantino DJango Livre.

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Em tempos em que Kanye West despiroca apoiando Trump e vomitando declarações sugerindo que a escravidão foi uma escolha. This is América é um videoclipe obrigatório.

Capataz da casa grande em nosso país infelizmente não é algo raro. O melhor do pior exemplo é Fernando Holiday o vereador Feriado afirma que as cotas incentiva o racismo, o vitimismo, e pede o fim do dia da Consciência Negra.

“Ovelha branca da raça, traidor!
Vendeu a alma ao inimigo, renegou sua cor!
Mas nosso júri é racional, não falha!
Por que?
Não somos fãs de canalha!” – Juri Racional (Racionais Mc´s)

Um pouco diferente é Joaquim Barbosa, ele quase foi capturado, por pouco não se torna o negro mais amado pelos brancos. E só não aconteceu porque retirou a sua candidatura à presidência. Voltou a ser um negro imprestável para a elite.  

A dança

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É unânime as afirmações de que a dança no clip serve para distrair do caos rolando ao fundo do vídeo. Nada mais óbvio e ao mesmo tempo nada tão profundo ao expor com tamanha beleza e sofisticação a arte como instrumento de alienação.

No país da boquinha da garrafa lembrei do rapper Aliado G do grupo Faces da Morte ao responder a pergunta de um jornalista questionando se era uma obrigação, o rap sempre falar de política. A resposta de Aliado G foi demolidora: “Toda arte é política, não só quando ela é engajada.” Respondeu o rapper antes de finalizar com essa, “Nós fazemos uma música para transformar a realidade. A música também pode ter a função de descontrair, distrair para manter as coisas como estão, não inventaram ainda uma terceira forma de arte”.

“Mudar o mundo é impossível é o que a maioria diz
Engole a dor engole o ódio e tenta ser feliz” – Mudar o Mundo (Faces da Morte)

Massacre de Charleston

O coral negro cantando no meio da música é um momento de trégua quando as coisas parecem começar a entrar nos eixos. Mas é só achar que tá suave uma arma cai na mão de nosso personagem e, vrau… Os comentários dizem sobre a relação da cena com o Massacre da Igreja de Charleston na Carolina do Sul.

A rajada que cala a voz do coral no filme, soa perturbadoramente idêntica as balas que calaram a voz da Vereadora do Rio de Janeiro Marielly Franco. É o mesmo tom autoritário que breca cinco jovens negros num automóvel comemorando a conquista de emprego de um deles, é monótono.

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“É muito fácil vir aqui me criticar
A sociedade me criou
Agora manda me matar” – Soldado do Morro (MV Bill)

O cavalo branco do apocalipse

A morte vestida toda de preto montada num cavalo branco galopando a partir de onde está estacionado uma viatura policial parece ser uma referência ao projeto de limpeza étnica promovido pelo Estado.  

Por aqui o massacre do Carandiru, da Candelária, as chacinas como a de Osasco e os Crimes de Maio são tristes capítulos onde a polícia tem licença para matar.

“Muito bem saiam da mira dos tiras
Saiam da mira dos tiras
São eles é quem forçam são eles quem atiram
Reze pra sobreviver” – Click Clack Bang (Conexão do Morro)

Celulares

Num pavilhão superior em um cenário semelhante a uma cadeia, jovens se mantêm calados e indiferentes ao caos. Imbecis aprisionados em smartphones é mato, essa é a maior epidemia global e nenhum de nós estamos imunes.

“Celular óctoc
Na mão, do zé polvim
É uma arma poderosa
Nisso eu acredito sim” – Terceira Opção (Trilha $onora do Gueto)

Carros antigos

Uma hora o barato fica tão loco, que só o gesto de simular estar empunhando uma arma é o suficiente para fazer geral dá fuga. É o único momento do vídeo em que Gambino se vê solitário, ele tira do bolso um baseado e os problemas parecem desaparecer.

Sob o cadáver do cara do violão morto no começo do vídeo ele sobe em cima do capô de um carro. Quer maior símbolo de status social que o automóvel na cultura americana?

Ele dispensa o baseado pra longe e dança em cima do capô do carango como Michael Jackson no vídeoclipe The Way You Make Me Feel, onde ele se empenha para conquistar sua musa. Aqui a cantora Sza é sua espectadora mas parece não dar muita bola para a performance do galã. Embora tenha visto muitos relacionar a dança com James Brown e a apropriação cultural, penso que a influência do Rei do Pop é onipresente. Os estudantes que o acompanham, alertou meu parceiro, estão na verdade mortos, como em Trillher, são mortos vivos.

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Carrões e mulheres é uma combinação batida nas maiores feiras de automóveis do mundo, na Fórmula 1 e nos vídeoclipes de rap e de funk. Só que aqui os carros não são as naves ostentadas nas músicas e nos clipes. Os veículos com mais de 40 anos não tem luxo, como se o artista quisesse destacar a diferença entre o showbizness e a realidade.

“21, 22, 23, 24
Desse jeito que eu gosto
Das cromadas no meu carro
21, 22, 23, 24
Não importa a idade
Eu coloco elas de quatro” – Desse Jeito (VDA)

Calça do exército confederado

Algumas das análises deste clipe são minuciosas, afirmam que a calça que o rapper veste é um modelo do uniforme dos soldados dos estados do sul dos Estados Unidos agrários e atrasados rebelados contra o fim da escravidão. Analisam mais a sua calça do que o fato do rapper estar sem camisa. Mas alguém arriscou em comparar seu estilo com a do músico ativista Fela Kuti.

Em nossa história, tivemos a Guerra do Paraguai, tá ligado? Quando Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para massacrar nossos hermanos paraguaios. O motivo? O Paraguai era mais evoluído e próspero, abraçamos as conversa dos poderosos de que os paraguaios tavam na crocodilagem querendo ferrar com a gente, então pra não ser ferrados, ferramos com eles de maneira covarde.

Naquela época quando um homem branco cheio de posses era convocado para a guerra, o cara se safava enviando seus escravos para morrer em seu lugar.

A promessa de liberdade para quem combatesse na guerra e retornasse com vida se tornou a melhor prática do projeto de embranquecimento do país antes da abolição da escravatura. Portanto só consigo deduzir que a calça do ator vertido para nossa realidade é uma calça de capoeirista.

“Gingando igual capoeira
Virado tô no Jiraiya
Voado tipo uma raia” – Afro Rep (Rincon Sapiência)

As armas

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Enquanto corpos dos negros atingidos pelas balas são arrastados para fora do vídeo, alguém observou o quanto as armas são recebidas com cuidado por uma criança com um pano vermelho para não arranhar a peça. O direito ao porte de arma não pode ser maior que o direito à vida. O trato zeloso das armas no clipe é uma crítica as gangues de rua, ao Gangsta Rap e a cultura de violência banalizada que vitimaram milhares entre Big, Tupac, Jam Master Jay.

Aqui, conflitos com armas de fogo ceifaram a vida de Sabotage, DJ Lah, Da Leste, Gato Preto. Preto matando preto, pobre matando pobre… normal segue o baile. Esta é a América.

O Levante de Soweto

As roupas dos dançarinos são consideradas referência à política de apartheid na África do Sul quando os estudantes do bairro de Soweto foram proibidos de serem ensinados em sua língua local nas escolas, o que levou milhares de estudantes às ruas.

Alguma semelhança com a política de Geraldo Alckmin quando estudantes ocuparam as escolas para impedir que elas fossem fechadas?

Corrida  

O sprint final é uma fuga a toda velocidade com Gambino sendo perseguido por homens brancos, ele carrega no rosto uma expressão aterrorizadora. A adrenalina liberada pelo corpo em situações de stress é para reagirmos de um dos dois modos: lutar ou correr. A fuga no final do vídeo demonstra que resistir é impossível.

“Ser preta no corre é tipo o filme Corra
Não vivo de sorte,
Aqui é viva ou morra
Pode crer” – Camélia (Drik Barbosa)

Algumas das críticas que li insistia em dizer que o assassino deveria ser um branco. Apesar do conflito racial ser a tônica do autor, considere o personagem sem alma, sem cor, ou se preferir branco, vermelho, azul, com estrelas e listas. Entenda o protagonista representando a própria América. Matando seus filhos, a cultura de seu povo, enquanto vende o feliz sonho americano, no fundo, um terrível pesadelo.

O videoclipe é uma obra aberta que fala por si, e dá a chance de inúmeras interpretações e reflexões. Estas foram algumas das minhas brisas, tire suas próprias conclusões. Diga aqui nos comentários sua opinião sobre o vídeo.

Mas não mosque, esta é a América fí.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

Triunfo na estreia da turnê de 10 anos da carreira de Emicida

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Emicida estreia a turnê de 10 anos da Triunfo.

O Bang é o seguinte, quando as cortinas do Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros se abriram no show de estreia da nova turnê de Emicida, Triunfo. Todos os olhos, ouvidos e corações ali presente foram incinerados com uma apresentação da mais alta octanagem.

“Quem é quem nessa multidão” (Bang)

Toni C.*

Do canto do palco, o menino nascido no Jardim Fontales, aguarda a deixa. Quando Emicida atravessa a coxia escura para os spots de luz rumo ao centro do palco, é a plateia que lota o auditório que o fuzila com aplausos e gritos.

Antes de executar a primeira canção, Emicida agradece a cada um ali presente, que o acompanhou de alguma forma, em algum momento dessa década cheia de Triunfo. “Em 15 de março de 2008,” relembra ele, “O público era de 300 pessoas para ver nossa primeira apresentação do single Triunfo”, comenta o filho de Dona Jacira diante dos três dias consecutivos de apresentações esgotadas.

“Neguinho é o caralho
meu nome é Emicida,
porra o Zika”

…segue versando passando por Gueto, A Chapa é Quente, Boa Esperança com a participação de Jota Ghetto, funde o canto de alforria seguida da poderosa Pantera Negra.

“Cês veio golpe
eu vim Sabotage” (Pantera Negra)

De I Love Quebrada, à Passarinhos são onze canções de maior introspecção bem no interior do show passando por Oásis, Mãe, Hoje Cedo, Como Tudo Deve Ser, Chapa, Alma Gêmea, Eu Gosto Dela, Madagascar e Baiana.

Evandro Fióti seu irmão e produtor, monitora cada movimento do canto do palco garantindo que tudo seja executado conforme o planejado como um maestro invisível. Alguns minutos antes no camarim, Emicida reune a equipe e lembra do empenho de seu irmão desde a apresentação de estreia, “Esse garoto saiu correndo do McDonald’s para contar as entradas” relembra daquele primeiro show.

Seu DJ Nyack companheiro nessa trajetória passou a contar com o reforço dos percussionistas Carlos Café e Sivuca, com o brilho dos metais de Ed Trombone, Fernando Bastos e Gustavo Souza além da guitarrista Michelle. Juntos executam evoluções de uma banda marcial com a precisão de um sniper em um show a parte. A excelência, ecoa como uma batalha onde decibéis são disparados para todos os lados, quem ganha é o público.

Uma senhora com a filha ao lado dança o tempo todo, levanta a mão, canta as letras uniformizada com as roupas da LAB como a maioria bem mais jovem ali.

Dispara os acordes de Zica Vai Lá, Emicida se aquece como se fosse entrar num confronto físico, mas pede para a música parar, vai até o público e chama um garoto, “Cê canta pra caralho eihn!?,” antes de se corrigir: “Canta da hora!”. O pequeno Yohan, não se sente menor por não ter participado do show original há 10 anos, praticamente sua idade, manda bem junto de seu ídolo ajuda a manter as mãos e almas pra cima.

O show é eletrizante, praticamente sem intervalos entre as músicas, não há pausas longas para trocas de roupas, o artista não deixa o palco uma única vez, como uma demonstração voraz de que toda sua jornada foi para viver aquele momento. Emicida se quer bebe água durante as duas horas de show, sua intenção é preencher toda as duas horas de apresentação com os hitz construídos ao longo destes anos.

Mandume trás ao palco Muzzike, Amiri, Raphão Alaafin, Jota Ghetto e a aniversariante da noite Drik Barbosa, são implacáveis.

Triunfo é o single que alcança sua primeira década, é o show que a partir de agora está nas plataformas digitais, é o DVD, é a turnê que dá ignição a partir desta noite, é toda a trajetória de Emicida.

Tive o privilégio de assistir do melhor lugar, entre os cases de instrumentos ao lado do palco. Pude ver o pequeno Yohan chegando feliz ao fim da apresentação para conhecer no camarim seu ídolo. Me despedi do Mestre de Cerimônias, sai de lá às pressas sem querer falar com mais ninguém pra não correr o risco de desmanchar as imagens nítidas que acabei de narrar.

Na saída trombei um velho conhecido que trampou mô cota com rap nacional, ele me contou que não via um show há um tempão, comentou o quanto a coisa evoluiu, e o quanto estava feliz por ver a renovação do público.

Entrei no metrô convicto de que noites como essas nos provam que viver vale a pena e com a certeza de que nada mais poderia me abalar. Ledo engano, na estação seguinte embarcaram trabalhadores voltando pra suas casas depois de uma jornada exaustiva. Entre eles dois rostos conhecidos, Muzzike e DJ Nyack, a pouco tinha os vistos no palco, pra mim foi como se tivesse embarcado Barack Obama ou se Lula tivesse deixado o cárcere.

Bem diferente da desgastada forma de tentar materializar o sucesso nos videoclipes cheio de carrões. Dividir o vagão de metrô com essas figuras, depois do nirvana que provocaram na plateia é a comprovação de que Triunfo não é uma palavra, é a atitude!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA.

As provas do triplex que condenam Lula

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Foto: Ricardo Stuckert Filho

Querido Lula.
Não consigo imaginar como esse desfecho poderia ser diferente.
Pra essa gente a solução do mundo foi jogar o meu povo no porão de um navio escuro e fedido e arrastar para o outro lado do Atlântico.
Acorrentar, açoitar, aprisionar foram as soluções civilizadas dessa gente.
Dizimaram com a nossa população nativa, sem um pingo de arrependimento.
Escalpelaram as florestas, como uma baita solução.
É ouro por espelho, dinheiro por respeito, pré-sal por consolo.
Convenhamos, essa gente aprisionou Graciliano Ramos, Prestes, Mandela, Gandhi, Rafael Braga e essa segue como a mais eficaz política pública nas periferias.
Derrubaram João Goulart, fizeram o mesmo com Allende, Lugo e com a Dilma, sequestraram Hugo Chaves, levaram Getúlio ao suicídio.
Não contentes, assassinaram Chê, Malcolm, Martin, Marighella, Marielle, Olga e seguem cotidianamente quebrando nossos irmãos nas quebradas.
Com Jesus Cristo fizeram um outdoor, pregado-o vivo numa cruz.
Sempre, sempre e sempre em nome da lei e da ordem, como uma solução para deixar o mundo melhor.
Por tudo isso Lula, não pense que você foi condenado só por convicção, sem provas.
Eu estou de prova, a multidão que foi pra frente do Sindicato está de prova.
Testemunhamos mais um ato de estupidez, essa estupidez sem tamanho que é a maior prova do ódio de classes.
Tenha certeza Lula, você foi condenado pelo triplex: acabar com a fome, com o analfabetismo e com o desemprego.
Nunca antes na história desse país… pobre voou de avião, fez faculdade, ganhou salário feito patrão. Estas são as provas de sua condenação.
O resto é conversa pra Bonner dormir.

Toni C. Lula da Silva

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A VídeoRUA Produções apresenta “Alo Comunidade!” de Leci Brandão

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A cantora, compositora e sambista Leci Brandão lança um novo programa no seu canal do YouTube. “Alô Comunidade!” é o nome da série de vídeos onde Leci Brandão apresenta os enredos das escolas de samba paulistas do grupo especial do carnaval 2018. A partir de 9 de janeiro, serão publicados 14 vídeos relativos às agremiações do grupo especial. Leci foi a primeira integrante feminina da ala de compositores da Mangueira do Rio de Janeiro, é um dos grandes nomes do samba no Brasil e comentou por muito tempo os desfiles de carnaval de São Paulo e Rio de Janeiro pela TV Globo. Voz da experiência, Leci fala com autoridade sobre o que esta festa popular expressa de melhor: a Comunidade, termo usado pela cantora em todos os comentários que fez.

foto                     Crédito da foto: Demetrios dos Santos Ferreira

No YouTube, porém, Leci ressalta que o formato será bem diferente: “Antes eu percorria todas as escolas, uma a uma. Conversava pessoalmente com a comunidade, com as tias baianas, carnavalescos, harmonia, enfim. Hoje, a falta de tempo não me permite fazer tudo como antes. Mas, tenho o maior prazer de falar sobre o carnaval, isso me faz muito feliz mesmo e espero que o nosso povo goste. Fizemos tudo com muito carinho e simplicidade”, explica.

Assista ao teaser, inscreva-se no canal Leci Brandão Oficial e marque o “sininho” para receber o aviso de novo vídeo! Link: YouTube.com/LeciBrandãoOficial


Serviço
Canal “Leci Brandão Oficial” no YouTube estreia o programa “Alô Comunidade!”
Tema: enredos das escolas de samba do grupo especial do carnaval 2018
Link de acesso para o canal: YouTube.com/LeciBrandãoOficial

Ficha técnica
Produção – VídeoRUA Produções
Direção – Toni C.
Técnico de som – Jonathas Costa
Som direto – Daniel N. Faria
Produção – Luciana Karla
Câmera – Demetrios dos Santos Ferreira, Daniel N. Faria, Toni C.
Voz vinheta – Daniel N. Faria
Fotografia – Demetrios dos Santos Ferreira
Participação Especial – PH do Cavaco

Contatos
nois@literaRUA.com.br
leci.brandao@hotmail.com
CDs de Leci Brandão podem ser adquiridos pelo e-mail: cdlecibrandao@gmail.com – com Alexandre Battel, presidente do fã-clube Auto Estima

Sobre a apresentadora do Alô Comunidade!
Leci Brandão nasceu no Rio de Janeiro em 12 de setembro de 1944. É cantora, compositora e umas das mais importantes intérpretes de samba da música popular brasileira. Começou sua carreira musical no início da década de 1970. Gravou 24 álbuns, entre eles, três compactos e dois DVDs. Entre 1984 e 1993, Leci foi comentarista dos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro pela TV Globo. Após uma pausa de seis anos, voltou a comentar o Carnaval carioca de 2000 a 2001. Entre 2002 e 2010 comentou os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo, pela mesma emissora. Leci é madrinha do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé, campeã do carnaval de 2017, agremiação que acompanha desde 2012 quando foi tema do enredo da escola. Completou 40 anos de carreira artística em 2015 e lançou seu novo trabalho, “Simples Assim – Leci Brandão”, em 2017.

Rap da liberdade para José Amaro Correia, o nosso Mário Sapo

Urariano Mota *

 

Em um trecho do Dicionário Amoroso do Recife, escrevi: “José Amaro Correia, Zé Amaro, ou Mário Sapo, como o chamamos, era e continua a ser um socialista, militante político, preso em 1973 no DOI-CODI no Recife…

Quando eu lhe pergunto se depois de tanta luta, se alguma vez ele não pensou em desistir, ele, que sei estar com problemas circulatórios, pressão alta, e que piora todas as vezes em que se emociona, ele me responde:

— Desistir? Nunca! Às vezes me dá uma preguiça. Mas dá e passa.

Então ele me conduz, tateante, devagar, até o portão. Às vezes vira a cabeça de lado para ver o meu vulto, quem sabe, algum traço. Talvez não veja mais nem sequer a minha sombra. E não diz. Mas entendo. Devo ser mais real que o seu sonho, que um dia ele escreveu num poema:

‘Vivo semeando o sonho
Do fim da pobreza
De todas as crianças terem o direito
De brincar e sorrir
Vivo a semear o sonho
Do nascer igual
Perante a natureza dos homens’”. 

Agora em 2017, na quinta-feira à noite, ele falece aos 74 anos de idade. Estava com a saúde ao fim em tudo. Infecção nos pulmões, nos rins, no coração. Quando eu o visitei na UTI, embora ele estivesse sem consciência, pelo que falavam, eu lhe disse na esperança de que me ouvisse:

– Você é meu irmão. Você sabe: não te faltei antes na ditadura, não vou te faltar agora.

Pois bem, porque agora vem o segredo de uma revelação: na quarta-feira, quando o ônibus parou próximo ao hospital onde ele estava internado, subiu um grupo de três jovens que, antes de começarem a pedir uma ajuda, começaram a cantar um rap. Um rap da liberdade.

Eu fiquei comovido até os olhos, porque pensava: o meu amigo no fim e estes jovens cantando a liberdade. Era como a encarnação viva do meu próximo romance. Eu me dizia: cantam para ele. E me vieram associadas as palavras de John Donne:

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

| Mario Sapo e Urariano |

Então os jovens cantavam para Mário Sapo, eu os compreendia muito bem. Cantavam e tocavam pelos guerreiros. Então eu nunca tinha ouvido um rap tão emocionado. E pensei também no Toni, da LiteraRua, na editora do meu próximo romance. E volta agora a apresentação que José Carlos Ruy escreveu para o livro, no trecho:

“O tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente… Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista”.

Aquele canto no ônibus, a sua associação ao amigo que padecia não era delírio. É fato. Os jovens cantavam um rap que se unia ao amigo, na mais longa duração da juventude. Então eu aplaudi com entusiasmo, como quem grita: presente! um guerreiro cai, outro se levanta. Esses jovens com violão, percussão e canto levam adiante a resistência . Eles são inconformados como a maior razão de viver.

Agora, com o falecimento de José Amaro Correia vem um breve abatimento. Mas não temos esse direito. Não podemos cair e esmorecer. É levantar a cabeça e continuar a caminhada. Se possível, até o lado ensolarado da rua.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.