Emicida apresenta AmarElo no Theatro Municipal, é o Elo da Arte Moderna ao Hip-Hop

Em 1922 um grupo de artistas realizaram ao longo de uma semana, uma grande mostra cultural cheia de brasilidade e contestação durante as comemorações do centenário da Proclamação da República. Este evento revolucionou a arte e marcou um capítulo da história que conhecemos por Semana de Arte Moderna de 22. Emicida é tão pioneiro que nem esperou 2022 para ocupar o palco do Theatro Municipal e pintar tudo de AmarElo Abaporu. No lugar de Tarsila quem brilha é MC Thá.

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Foto: Juliana Lubini @julubiniphotography

Por Toni C.*

Antes mesmo de começar o show, a lógica já estava toda subvertida, nessa noite não seria só o café no hall de entrada, o único preto que você encontraria no Theatro. O aviso sonoro traz a voz de um mano, é Fióti quem dá as instruções: “…o evento pode ser fotografado e filmado”. Desde o lado de fora já era de arrepiar, tanto cabelo crespo se enfileirando educadamente para atravessar o portal. Os cumprimentos, os abraços, os sorrisos… era de arrepiar.

As boas vindas são dadas com um trecho sonoro do filme Orfeu Negro de 1959:

“– Zeca, Zeca, toca, faz o sol nascer…
– Não sei se posso.
– Sabe sim, tenta, toca (…)”.

Eu fiz a lição de casa: decorei cada verso, repassei o setlist completo, estava com o timing de cada átimo de silêncio entre as batidas. Mas aí me vêm o primeiro acorde e nóiz acorda!

As cortinas do imponente Theatro Municipal de São Paulo começaram a subir junto com a emoção e revela atrás dela o eclipse, é o astro rei. E Emicida faz o sol alvorecer no meio do palco. O vitral translúcido em animação no telão bem que tentou filtrar a luz que dançava num caleidoscópio multicor, mas quem pode apagar o sol? É a Ordem Natural das Coisas, abrindo os caminhos.

E antes que a gente possa recuperar o fôlego, Emicida pega uma caixa de fósforo, é, uma simples caixa de fósforo da qual ele guarda o universo e toca em homenagem a Seu Wilson das Neves, Quem tem Um Amigo (Tem Tudo), malandramente a música se funde ao som de Fundo de Quintal, “(…) Valeu por você existir amigo”.

São versos de Pequenas Alegrias da Vida Adulta capazes de fazer este templo outrora ocupado de fraque e tailleur agora responder em unisono, “Encontrar uma tupperware que a tampa ainda encaixa (ó Glória)”.

Mas teatro tem que ter tragédia, 9nha com a dama Drik Barbosa é a prova que a arte imita a vida até quando ela arde, “Tua boca quente na minha virilha / Quase queima, que fase, reina, kamikaze”. Dessa forma Emicida parte num mix sem paradas para um Emicidio em pleno Municipal: “Eu gosto tanto dela, a ponto de querer tá perto, pronto / Não tem outro jeito de me ver sorrir / É louco o efeito dela, aqui”.

Aí bate a brisa suave de quem escreve como quem manda cartas de amor em Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, mergulhamos num momento suave entre os hits de: Baiana, Madagascar, Alma Gêmea. Quando nos damos conta estamos diante da dualidade agridoce de Paisagem. Até que nos deparamos ao rap-rock de Hoje Cedo.

É chegado o grande momento, da última fileira é possível ouvir o coração do Emicida bater no compasso dos versos de Belchior.

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro…

Presenciei as confortáveis cadeiras serem abandonadas pelo público que trocaram o veludo vermelho para abraçarem os versos de AmarElo. Majur é contralto, Pablo Vittar soprano e Emicida tenor nesse espetáculo que já nasce clássica. E antes que as últimas notas dessa sinfonia se dissipem, AmarElo se transforma num instante em Pantera Negra diante de nossos olhos. “Digam que o Zika Voltou tipo (m)AKA”.

Então Zika Vai Lá, converte o palco do Theatro no solo sagrado da Estação Santa Cruz, com mãos levantadas até o último foyer.

E o Bang é o seguinte, Eminência Parda traz o mano que escapou da morte Jé Santiago, enquanto DJ Nyack faz as vezes do Papillon, é o próprio Africano.

Mas aí o tom grave de Boa Esperança ecoa pelos corredores de todo o velho Theatro. Cês tem o Fantasma da Opera, tiu. Nós tem é logo o Fantasma da Laboratório, o espirito que anda, canta e destrói limite.

“Hoje nóiz pegamos nossas almas de volta, há 500 anos sequestradas”. Disse a entidade com autoridade no centro daquele palco que desafia os melhores.

O artista, a banda, a plateia, os funcionários, a emoção é tão grande que pode ser tocada com a mão. Nunca vi tantos óculos suados por metro quadrado.

“Me emocionei”, se desculpa Emicida. Alguém grita: “Você merece Leandro!”. E ele corrige ligeiro: “Eu não, nóiz merecemos. E que a gente nunca se contente com nada menos que isso”.

Ismália é ópera épica.  “Olhei no espelho, Ícaro me encarou / Cuidado, não voa tão perto do sol / Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei / O abutre quer te ver de algema pra dizer: Ó, num falei?” É quando a poderosa voz de Fernanda Montenegro atravessava o salão. Levanta e Anda, e o espetáculo encerra com Principia.

As cortinas se fecham, mas ninguém arreda o pé. Aplausos, aplausos, aplausos…

Pra nossa sorte temos Passarinho no bis, e pra mostrar que o Gueto passou por aqui, A chapa é Quente e Libre. Eu olho para o mano da linguagem de sinais sem saber se ele estava traduzindo tudo em Libras ou dançando Libre.

Eu vi, o mano que faz a gente chorar de rir, com um cisco no olho, num só não, foi logo nos dois… durante o show inteiro num parava de entrar cisco no zói do mano do Taboão. Vi na sala escura do Theatro a Luz da poetiza iluminar o auditório. Vi a mina de discurso poderoso, cantando os versos com vontade. Vi pesquisador estudioso sem entender nada. Eu vi, ninguém me contou.

Numa outra situação semelhante em que Leandro fez tudo virar uma catarse, eu falei pro Zika assim ó: “Você pegô mó boi, que matar as pessoas de orgulho, num dá cadeia”. Bom era os tempos em que Emicida matava os MC adversários com versos. Dai vem seu nome (Homicida de MCs), agora ele vem numa de nos matar de emoção, deveria se chamar como? “Emição”.

Por um momento a gente num sabe bem se está na Rinha dos MC’s ou de volta na Central Acústica, mas é só ver a grandiosidade da história sendo construída na sua frente, que voltamos ao Theatro Municipal.

Esse é um espetáculo tão autêntico e urgente que o mestre Emicida deveria se tornar residente em apresentações permanente, seria a sensação do cartão postal.

Tatuei freneticamente todo o ingresso do espetáculo ao longo da apresentação como quem psicografa em ritmo de freestyle, guardei a caneta apenas para aplaudir de pé.

Emicida fez uma ligação direta terra espaço, e quando tudo terminou e saímos, foi possível comprovar. Até o mano do Céu não se conteve e desandou a chorar, a cidade como nos velhos tempos novamente se tornou a terra da garoa.

Eu escrevi no romance “O Hip-Hop Está Morto!” – A História do Hip-Hop no Brasil, publicado em 2011:

“Antes de sair, um dos que participava do debate morador do interior do estado, arrisca:
– Dá uma letra, mostra uma direção para onde devemos caminhar para essa tal evolução?
Hip-Hop aponta para o fim da rua. Todos se viram e avistam o imponente prédio do Teatro Municipal”.

Tenho sorte de ser contemporâneo desse mano e testemunha ocular deste momento. Com ingressos esgotados em poucos minutos, aqueles que não puderam entrar poderia assistir tudo transmitido em telões na mesma escadaria onde há quatro décadas ativistas negros fundaram um movimento unificado. Emicida com sua banda se despediu do público ciente de seu papel na arte: “Vejo vocês nas páginas dos livros de história!”.

Foi assim que Emicida fez numa noite com o Hip-Hop, aquilo que os modernistas realizaram numa semana: REVOLUCIONOU.

UBUNTU

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, coroteirista da cinebiografia do rapper Emicida (em produção), criador do coletivo LiteraRUA.

A Loja Inquérito agora tem espaço físico em SP com parceria da LiteraRUA

IMG_0646Os artigos do Inquérito que você já conhece agora estão mais perto de você.

Desde o começo de julho quando você adquire um produto na loja oficial do Inquérito www.loja.souinquerito.com.br a equipe da LiteraRUA é quem cuida do manuseio, embalagem e envio até sua casa.

Dessa forma todos ganham em agilidade, mesmo quando o Inquérito está na estrada levando sua música e poesia mundão afora.

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Além disso os clientes da grande São Paulo ainda podem economizar com o frete, basta comprar os produtos Inquérito pelo site e marcar na entrega ”Retirada na Loja” que fica na Av. Deputado Emílio Carlos, 179 – Loja 4, zona norte de São Paulo, há dez minutos do metrô Barra Funda. Horário de funcionamento de segunda a sexta das 8h as 18h. Mais informações pelo telefone: (11) 3857-6225 WhatsApp (11) 97715-4412 loja@souinquerito.com.br.

Quando Demetrios, diretor da LiteraRUA, se encontra com Obama

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Obama nos visitou hoje e deixou alguns recados importantes.

O primeiro deles, foi um tapa na cara: “Não existe sucesso sem sorte, por melhor que você seja”. Isso não negativa em hipótese alguma o empenho de quem busca seus objetivos, mas esse esforço representa muito pouco diante do contexto e história de cada um, um desmonte ao simplismo da meritocracia.

Outra lição foi sobre liderança. Para o ex-presidente, um líder precisa de duas capacidades: ser inteligente o suficiente para ter uma equipe tão ou mais inteligente que si próprio e, como segunda capacidade, ser inteligente o suficiente para fazer as perguntas certas para essas pessoas.

Sobre machismo, Obama explicou que ter mulheres (e outras minorias) ao nosso lado, não é apenas uma necessidade atual, mas um pré-requisito que nos permite ver coisas que sem a presença delas, não seria sequer percebido.

Outras pautas foram a necessidade de reconhecer a educação como um valor imprescindível para qualquer nação, justamente num dia de protestos brasileiros sobre esse tema e sem que precisasse citar nada sobre a política brasileira, diretamente. Também falou sobre o perigo da banalização das armas, mais um tema espinhoso entre nós.

Obama reconhece que é um homem capitalista, que o excesso de capital concentrado impede até mesmo que esses detentores consigam gastar suas próprias “riquezas”e que esse é um problema para ele mesmo hoje, mas acredita que seu programa de saúde pública, Obama Care, foi um dos maiores orgulhos que carrega consigo. Também se vangloria em ter combatido a crise econômica mundial em seu segundo mandato.

Estive presente e adorei a oportunidade em ouvir tudo isso, ao vivo. Foram esses os recados que levamos conosco, de um político que de certa forma também sambou no carnaval do capitalismo, porém um homem notável e de uma era imediatamente anterior à radicalização e predominância da ignorância que reina de ponta a ponta no continente americano.

Carta de Lula ao Salão do Livro Político

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“Ler é um ato político. Não é por acaso que nossos adversários, ao mesmo tempo que tentam criminalizar a política e impedir toda e qualquer forma de ativismo, atacam com tanto ódio o saber e o conhecimento. Querem mais armas e menos livros. Mais jovens presos e abatidos por disparos de helicópteros, do que com acesso ao ensino público de qualidade. Disparam sua artilharia pesada contra a educação como um todo, e a universidade em especial. Agridem a ciência, estrangulam a pesquisa.

Ler é resistir. E nós resistimos nas trincheiras cavadas com tanta garra e tanto carinho por gente que nem Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e cada professora e cada professor anônimo deste país, que nossos adversários tentam inutilmente destruir. E nós resistimos, porque a vida nos ensinou, e porque aprendemos com nossos mestres.

Nossos adversários odeiam o fato de termos criado mais universidades e institutos tecnológicos do que todos os que governaram antes de nós. Distribuímos bolsas de estudo, garantimos acesso ao crédito estudantil e colocamos jovens negros e pobres no ensino superior como nunca antes na história. Criamos políticas públicas de acesso ao livro e à leitura e espalhamos bibliotecas pelo país afora.

A educação foi e será sempre a nossa maior riqueza e a nossa principal forma de resistência. É por isso que nossos adversários se surpreendem e se assustam quando uma juventude esclarecida enche as ruas em defesa da educação, lutando contra os retrocessos de um governo que tem o povo brasileiro como seu principal e mais temido inimigo.

Ler é ser livre. Estou há mais de um ano preso pelo “crime” de sonhar e trabalhar pela construção de um país onde um pai de família não fosse mais obrigado a escolher entre comprar um pão ou um caderno para seus filhos. Onde uma mãe de família não tivesse que partir um lápis no meio para que seus filhos pudessem estudar. Por esse “crime” estou preso, e, no entanto, mais livre do que nunca, graças aos livros e à leitura.

Nestes 13 meses de quase solidão – não fossem as visitas de parentes e amigos e o carinho da incansável vigília na porta do cárcere em Curitiba – tenho lido muitos livros. Cavalguei com Riobaldo e Diadorim pelas veredas do grande sertão de Guimarães Rosa. Cruzei o Atlântico em navio negreiro ao lado de Luísa Mahin, no extraordinário romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

Navego nas águas da ficção, mas tenho, sobretudo, me dedicado aos livros dito políticos – com a ressalva de que se ler é um ato político, todo livro é político, seja ele de poesia, romance, contos, filosofia, sociologia, economia ou ciências políticas.

Mas é o livro propriamente político, razão de ser desse Salão, que quero saudar agora. É principalmente graças aos livros que, quando a justiça for restaurada neste país, sairei da prisão sabendo mais do que quando entrei.

Um abraço a todos e todas, e viva o livro!”

Luiz Inácio Lula da Silva

Box do Clube da Rua de Abril com Rashid

Salve.
Aqui MC Rashid e eu também estou no Clube da RUA. O Box do mês está com mil ideias, ideias que transbordam pra fora da caixa. Vai vendo…

Logo de cara chega o trampo cheio de ideias pesadas dos parceiros do Inquérito o CD Corpo e Alma.

Pra você não perder ideia nenhuma, vai o marcador do livro pesado Rebeliões na Sensala de Clóvis Moura. O que firmeza!

O brinde literário é o livro Mercado de Ideias de Martis Movimento da Cruz.

E olha o que o Clube da RUA elegeu como livro do mês. Logo o livro de estreia do pai. Ideias Que Rimam Mais Que Palavras Vol. 1.

Eu te falei que é muita ideia!?

Tudo embalado nesse Box responsa personalizado com a arte do graffiteiro Bonga Mac. Mas ae, ideia boa é aquela que a gente põe pra fora da caixa.

Então acessa ai clubedarua.com.br e cola na RUA com a gente.

Satisfação!

Conheça os nossos Boxes

2019 Começa fervendo no Clube da RUA

2019 começou fervendo no Clube da RUA. Confira tudo que rolou no Box de Janeiro 🔥

Box do Mês Janeiro 2019
Tema: É Quente!
Artista Convidado: Crônica Mendes
Livro do Mês: Sol na Cabeça – Giovani Martins
Brinde exclusivo LiteraRUA: Boné RUA
Brinde: Aos Que Caminham (autografado)
Revista da RUA edição de Janeiro
Marca Páginas do livro NIdéias Que Rimam Mais Que Palavras Vol. 1 – Rashid

Clube da RUA, é só chegar
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Céu e Capão são palavras rivais

 

IMG_9582O ano era provavelmente 2001 e não era uma odisseia no espaço. Eu era só um maluco latino-americano querendo sair de Carapicuíba com a missão de participar de um encontro de jovens socialistas na Assembleia Legislativa de São Paulo. 

Pulei o muro da estação de trem para ter dinheiro na volta. Lá assisti a uma palestra de um cara de cabelo e barbas longas, grisalhas com nome esquisito, dizendo entre outras coisas: “O brasileiro precisa conhecer o Brasil”.

Por Toni C.*

Quase duas décadas depois, passo em frente ao mesmo endereço. Carrego além das memórias uma bagagem com o peso do mundo. São livros, alguns de minha autoria, outros de minha editora. O corre é pra entregar numa livraria, sim elas ainda existem, logo ali na sugestiva Rua Abolição.  

Dali, sigo pra sul, pra atender um chamado da Orpas, a missão? Fazer um papo com jovens estudantes do Céu.

Quando era criança, cresci com uma forte ideia que a zona sul era um lugar longe, rico e indiferente. Onde talvez more a felicidade. Um tio meu trabalhava como motorista particular de um grande empresário nacional. Aparecia com as nave nova em casa. Uma vez ganhamos agasalhos, os moletons de primeira eram dos uniformes do ano anterior dos filhos do patrão do meu tio. Eram as melhores roupas que tínhamos. Ouvia os adultos dizerem para tomarmos cuidados para não sermos raptados por conta daquela roupa alvíssima. Rapto era só como os sequestros eram chamados naquele tempo. O Rapto do Garoto Douradoera o que a professora exigia que a gente lesse na escola, cairia na prova, ela ameaçava. Porque não davam provas sobre a vila do Chaves, Spectreman, A Formiga Atômica ou Thundercats se pá?

Anos se passaram até que chegou o notável dia em que ouvi Pânico na Zona Sule meus neurônios deram logo um fatality em tudo que eu pensava que sabia do mundo.

Demorou para conseguir juntar sem bugar essas duas zonas sul: aquela que é o verdadeiro céu na terra do agasalho com “Morumbi” estampado no peito e a zona sul do Capão Redondo cantada pelos Racionais. Mentira, buga até hoje viado!

É a primeira vez que piso no Capão, depois que Lula foi raptado, depois que Mano Brown mandou a esquerda voltar pra base amassar barro. 

Da janela do metrô, sou recebido por quatro par de olhos do grafite esmaecido na Avenida Sabin, o mundo é diferente da ponte pra cá.

Passo na Loja 1 da Sul para me municiar de livros antes de conferir a boa.

Mau sabia a maldade que me aguardava, uma recepção acolhedora, eram os heróis da quebrada sem capa, sem mascara, professores e profissionais da educação torcendo para ver o palco se tornar um octógono pro cérebro.

A bibliotecária, sem dó, fez logo um caminho de flores com origami de papel que ia do camarim ao palco para eu passar como se fosse o caminho da noiva para o altar. 

Sorte a minha que tenho uns aliados forte, quem tem amigo tem tudo, Daniel Farias chamou no gogó feito puxadô de samba enredo, “Alô Comunidade!”. Grudei no palestrante Célio coordenador da Etec zona sul e percorremos juntos aqueles longos três metros e meio. 

Depois disso, foi uma troca de duas, três horas talvez, nem sei. A generosidade no fundo de cada olhar intrigado, não sabia quem tava mais espantado, os professor, aqueles jovens que deram folga ao celular ou eu. Tentava entender o placar, quem saiu dali ganhando mais? Estávamos achando graça de quem tem, e nos sentindo os verdadeiros milionários.

Sobre o que falamos? Nada de mais, oreiada sobre o quanto a leitura salva vidas, como o conhecimento e a cultura vale mais que barras de ouro. Vai vendo o estouro!?

Quem disse que “Céu” e “Capão” são palavras rivais?

Enquanto costurava o verbo com ideias que pode até parecer demodê, blasé ou sei lá o que…  Eu pensava comigo, lembrava daquela palestra que assisti há quase 20 anos onde aquele Toni lá trás ouvia de um cara com cabeça grisalha e barba longa dizendo que o brasileiro precisa conhecer o Brasil. E eu xingando aquele velho em pensamento: “Conhecer o Brasil? Esse maluco num faz ideia que pra chegar aqui tive que pular a estação. Conhecer o Brasil como?”.

Hoje com outra quilometragem rodada, posso dizer que conheço alguma coisa desse Brasil e aquelas palavras fazem pra mim mais sentido hoje do que quando foram ditas pelo grande Azis Ab’Saber um geógrafo que percorreu o país na ponta do lápis, muito antes da invasão curiosa dos satélites e Street Views.

Terminei de responder a última pergunta da plateia, achando que alguma daquelas bobagens que falei, pode fazer a diferença pra alguém. Daqui vinte anos talvez, assim como aquela frase hoje faz pra mim.

O brasileiro precisa conhecer o Brasil.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, criador do coletivo LiteraRUA e curador do ClubedaRUA.

Livro Café, de Dona Jacira trata de coragem e busca por seu lugar na vida

Dona Jacira lança em novembro Cafémais uma publicação da Editora LiteraRUA em parceria com a Laboratório Fantasma, primeiro livro da artista, griot, guardiã das histórias do seu povo, mestre em artes e ofício, poetisa, mulher e mãe.

Biografia narrada em primeira pessoa, Café nos apresenta palavras impressas que refletem mais que o brilho da poesia que, por vezes, brota do riso e do olhar reflexivo de Dona Jacira. Tal como em um baile, a obras nos oferta palavras que valsam entre um capítulo e outro e vão, suavemente, apresentando a rica história de uma mulher que decidiu perseverar.

 

Mas, não se engane! A obra descortina mais que a história de uma mulher de personalidade forte. Café fala sobre sonhos, desilusões, desejos, identidade, território, justiça e medo.

 

Como bem colocado pela educadora Maria do Rosário, outra mulher lutadora nos palcos da vida, ao prefaciar o livro: “Cuidado, você está entrando em terreno perigoso!”. E o perigo é não parar de folhear as páginas que apresentam não só a história de Dona Jacira, mas refletem também a realidade crua da vida que é imposta as muitas “Jaciras” de nosso Brasil, mulheres que cismam em não desistir da vida, que se recusam a parar de sonhar.

 

Café não nos oferta uma história triste – ainda que faça rolar uma lágrima aqui e acolá a cada lance narrado e vivido por Dona Jacira -, fala de coragem, de altivez, de bondade, de humanidade. Fala de uma criança que, precocemente virou mãe, mulher, cidadã e que muito cedo enfrentou a dureza da vida, a navalha dos preconceitos e descobriu que a violência podia estar sentada no sofá da sala, na mesa de jantar ou se esconder nas paredes de sua infância. O livro nos ensina perseverança, arte e amor pela vida.

 

“Vivi momentos muitos duros. Nos quais não havia espaço para o desenho, a pintura, ou mesmo para a poesia e menos ainda para a prosa. Mas, sempre escrevi! Na minha cabeça, escrevi. A arte sempre foi um refúgio, lugar de busca e de encontro!”, afirma a autora.

 

Dona Jacira é daquelas que alerta sobre o valor dos livros. “Aquele que lê e não entende o valor do escrito e seu papel na história, não é nada além de um mero carregador de livros. Mas, aquele que lê e entende o papel da arte na vida, esse sim, sabe o valor da luta por espaço, por seu território”.

 

E entre uma oficina e outra, com risos, espontaneidade e franqueza que são peculiares a Dona Jacira, vamos desvendando não só a história de uma mãe que lutou para criar seus filhos. Mais que isso, de uma mulher que compreendeu seu papel social e decidiu ocupar seu espaço na vida tendo como horizonte vencer a opressão, a violência e o preconceito. Uma Carolina Maria de Jesus do nosso tempo!

 

“Acredito que o livro vai contar e se fazer ouvir pelas milhões de “Jaciras” que estão espalhadas Brasil afora. E, guardada as devidas proporções de espaço e tempo, são histórias que refletem, infelizmente, a realidade de muitas mulheres no Brasil e no mundo até hoje”, alerta o músico e produtor executivo da obra Evandro Fióti, um dos filhos da autora.

 

E completa: “E ainda que ela não tenha ocupado bancos acadêmicos, a forma como a minha mãe escreve, sua perspicácia, inteligência a forma como ela narra e conduz o leitor a um mergulho em suas histórias têm muito a ver com tudo que ela leu, com tudo que ela absorveu da cultura, da arte, resultando na sabedoria que hoje testemunhamos em suas produções e escritos. Sem dúvida, será uma grata surpresa para todos e todas que ousarem conhecer a história de Dona Jacira, sobretudo ela poderá ser ouvida por outras “Jaciras” e que isso dê força a outras mulheres, visto o momento tão complexo que atravessa o Brasil e diversas partes do mundo”.

 

E assim, em um momento tão confuso de nossa história, Café completa bem mais que a conversa da tarde, ele alerta sobre o que já foi vivido não só por Dona Jacira, mas por todas as “Jaciras” desta época e de todas as épocas passadas.

 

Um gole de Café

 

“Sabe leitor, apesar de ser uma história de café de mãe e filha, sei que você é curioso e, por isso, esta louca que vos fala dá um giro na linha do tempo pra que você bote a cara pra dentro desta cozinha em movimento, desfrute do nosso passado e, quem sabe, viaje na sua própria infância. Eu sou um tanto bem louca, tenho delírios, você vai encontrar muita gente que vai ler e dizer: ‘É ficção!’”.
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FICHA TÉCNICA
Título: Café
Autor: Dona Jacira
Categoria: Autobiografia poética
Editora: LiteraRUA / Laboratório Fantasma
Páginas: 440
Dimensões: 16×23 cm.
ISBN: 978-85-66892-18-5
Ano: 2018

 

Ler nem sempre é libertar

A prova disso é o nosso mundo de agora. Passamos horas lendo em nossos dispositivos portáteis: feeds de redes sociais, fotos, memes e o que mais vier. Nunca lemos como antes, mas nunca nos desinformamos tanto. A arte da escrita tem como princípio a libertação, mas se usada de forma equivocada, pode nos alienar, nos confundir e oprimir.

O Clube da RUA (www.clubedarua.com.br), que anuncio hoje por aqui, vem para afirmar o princípio original da leitura, formar e informar para e sobre um mundo comumente negligenciado e pouco lido: a arte que produzimos em nossas periferias, por pessoas e artistas que em condições normais não são ouvidos e lidos como deveriam.

 

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Livros do Clube da RUA no Box de Outubro no Mês das Crianças

 

Todos os meses levaremos aos nossos leitores um box temático e recheado de perspectivas plurais e diferenciadas sobre nossas periferias, sobre nossa sociedade, tudo produzido por autores talentosos, provocações necessárias e reflexões instigantes. Uma biblioteca não é pacote de biscoitos que precisamos consumir em poucos dias para não estragar.

Uma biblioteca é um acervo para consulta, de referência, atemporal e transformador. É isso que queremos: levar para você arte e livros que nos ajudem a compreender o mundo sob perspectivas diferentes das impostas por aqueles que não nos representam.

Boa leitura!

Demetrios dos Santos Ferreira

Editor e idealizador do Clube da RUA

clubedarua.com.br

Vem pra RUA

“Era uma vez…” dos contos de fadas não dá conta de narrar a história de nosso tempo. Por isso saldamos você meu bom:

Salve!

Em tempos de hiperconectividade, em que todos falam e ninguém se entende, apresentamos o Clube da RUA.

O primeiro e único Clube da luta das ideias, onde a literatura periférica é o centro do campo de batalhas. POW-POW-POW!

Carregado até o pente de cultura urbana e o que há de melhor das ideias que brotam das margens e transformam vidas. Pode acreditar.

Receba em sua casa mensalmente uma caixa de primeiros socorros com poesia que cura almas, papo reto que fecham feridas e letras que fortalecem a esperança.

Nóiz é mente crica, que cria enquanto o mundo em caos e crise, chora e mente.  O crime do raciocínio é: omissão, panguá e opressão.

Mas na RUA né não…

Fabricamos o cruzamento entre livros e RUA, arte e autoestima, você e nóiz. Pode chegar. Mas calam aí… Inspira: uuuuuuh e espira: uffffffffff!

Suave na nave? Vem com nóiz, vem de coração.

Sejam bem-vindos ao nosso Clube.

Sejam bem-vindos à Literatura das RUAS.

Esse é o… Clube da RUA!

Toni C. – Curador do Clube da RUA

www.clubedarua.com.br