Comunidades, Algoritimos e Ativismos Digitais é o tema do BaixaCharla ao vivo #8

Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: Olhares Afrodiaspóricos, organizado pelo pesquisador Tarcízio Silva, que é produtor cultural e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, doutorando em Ciências Humanas e Sociais na UFABC, onde estuda imaginários sociotécnicos de resistência, e Tech + Society Fellow pela Fundação Mozilla, atuando em promoção de segurança digital e defesa contra danos algorítmicos. Também atua como curador na Desvelar, entre outras atividades que podem ser conferidas em seu currículo.

Editado em 2020 pela Literarua, “Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: Olhares Afrodiaspóricos” busca relacionar raça, racismo, negritude e branquitude com os estudos de tecnologias digitais, especialmente algoritmos, mídias sociais e comunidades online. Reúne 14 artigos de pesquisadores/as provenientes do Brasil, países da Afrodiáspora e África, como Congo, Etiópia, Gana, Nigéria, Colômbia, Estados Unidos e Reino Unido. É uma publicação que, com sua diversidade de perspectivas, tenta suprir uma lacuna nos estudos acadêmicos brasileiros na área. 

No prefácio, Emicida escreve que “se a essência das redes sociais é a conectividade, está para nascer uma que cumpra seu papel com mais eficácia do que um tambor”. É importante  desnaturalizar a ideia de que “tecnologia, storytelling, minimalismo e ideias que visam ampliar a percepção do que significa ser humano sejam apenas invenções do vale do silício”, diz o rapper, que cita Paulina Chiziane, “às vezes sinto que nos oferecem algo que já era nosso antes deles chegarem”. 

O capítulo de abertura é de Ruha Benjamin, autora de “Race After Technology: Abolitionist Tools for the New Jim Code” (2019), ativista e professora da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Nesse texto, Ruha incentiva um compromisso de incorporar abordagens raciais críticas no campoos Estudos de Ciência e Tecnologia – Science and Technology Studies (STS), no inglês.  Como ela escreve: “seja na arquitetura de máquinas (…) ou na arquitetura de  tecnologias legais, os pesquisadores de STS devem treinar nossas ferramentas analíticas sobre as diferentes formas de “correção racial” que sustentam uma forma perniciosa de construção do conhecimento”. A tecnologia é um dos muitos meios pelos quais as formas anteriores de desigualdade são atualizadas, por isso, ela explica, a necessidade vital de se fazer um balanço rotineiro também das ferramentas conceituais que são usadas para entender a dominação racial.

Nos outros 12 textos, o livro colabora com a crescente complexificação do pensamento sobre a comunicação digital e internet resultante da diversificação dos olhares e falas nos espaços acadêmicos. “Da matemática na divinação Ifá ao ativismo político, os temas e objetos dos capítulos passam por transição capilar, blackfishing, afroempreendedorismo, Black Twitter, contra-narrativas ao racismo e métodos digitais de pesquisa apropriados à complexidade das plataformas, algoritmos e relações de poder incorporadas nas materialidades digitais racializadas”, como escreve Tarcízio na apresentação.

Tarcízio é o convidado da BaixaCharla, é dele o artigo no livro que complexifica o tema em voga no debate: “Racismo Algorítmico em plataformas digitais: microagressões e discriminações em código”. Para ele, o racismo online é um “sistema de práticas contra pessoas racializadas que privilegiam e mantém poder político, econômico e cultural para os brancos no espaço digital” (citando Tynes, Lozada, Smith & Stewart, 2019). Nos ambientes digitais, especialmente plataformas de publicidade (Facebook), de nuvem e computação (Amazon Web Services, Microsoft Azure, etc), de produto (como Zipcar etc), plataformas lean (Uber, AirBnB), o desafio se torna mais profundo na medida em que o racismo adentra os processos automatizados “invisíveis” como recomendação de conteúdo, reconhecimento facial e processamento de imagens. 

Nesse cenário em que a tecnologia cada vez mais é tanto mediação das atividades humanas quanto interação interpessoal e negociação de serviços e comércio, os casos de identificação de racismo algorítmico passam a ser somados por diversas pesquisadoras, ativistas e desenvolvedores – entre eles o próprio Tarcízio, com sua Linha do tempo do racismo algorítmico, projeto paralelo de sua pesquisa no doutorado (intitulado provisoriamente de “Dados, Algoritmos e Racialização em Plataformas Digitais”) que incorpora casos de 2010 a partir da pergunta: “Como as plataformas digitais, mídias sociais, aplicativos e inteligência artificial reproduzem (e intensificam) o racismo nas sociedades?”

O artigo também fala de chamadas “microagressões”,  “ofensas verbais, comportamentais e ambientais comuns, sejam intencionais ou não intencionais, que comunicam desrespeito e insultos hostis, depreciativos ou negativos contra pessoas de cor” (Sue, 2010a, p. 29). São expressões, consciente ou não, usadas para manter “aqueles à margem racial em seus lugares” e que mostram como o racismo é sistemático em nossa sociedade. No texto, o pesquisador identifica sete tipos dessas microagressões: Suposição de Criminalidade; Negação de Realidades Raciais/Democracia Racial; Suposição de Inferioridade Intelectual; Patologização de Valores Culturais; Exotização; Estrangeiro na Própria Terra / Negação de Cidadania; Exclusão ou Isolamento.

Outro tema em voga na discussão sobre racismo e plataformas digitais são as tecnologias baseadas em inteligência artificial para ordenação e vigilância de cidadãos no espaço público. Conhecidas como “tecnologias de reconhecimento facial”, elas ganharam mercado nos últimos anos tanto a partir do lobby das big techs quanto pelo avanço de ideologias de extrema-direita. Por conta disso, têm sido usadas (ou contratadas para serem) em polícias de diversos lugares, entre eles o Brasil; um estudo do Intervozes afirma que “dentre os 26 prefeitos de capitais empossados em janeiro de 2021, 17 apresentaram propostas que, de algum modo, preveem o uso das tecnologias de informação e comunicação na segurança pública”. Publicamos em nossas redes uma notícia da Folha de S. Paulo nesta semana que conta que 20 estados brasileiros, das cinco regiões do Brasil, utilizam ou estão implementando a tecnologia de reconhecimento facial na segurança pública local. 

Na Linha do Tempo citada há diversos casos de erros dessas tecnologias. Há, por exemplo, situações em que os sistemas de reconhecimento facial da Amazon e da IBM erram mais em imagens de mulheres negras, assim como sistemas de biometria visual costumam falhar de 10 a 100 vezes mais com imagens de pessoas negras ou asiáticas. Por conta dessas falhas que ajudam a perpetuar o racismo algorítmico, pesquisadores têm defendido o seu banimento; nos Estados Unidos, há decisões como a de Minneapolis, cidade onde Geroge Floy foi morto, onde Câmara Municipal vetou o uso da tecnologia pela polícia, por sinais de que a I.A. é tendenciosa contra negros e outros grupos raciais. Na Europa, o Comitê Europeu de Proteção de Dados (EDPB) e a Autoridade Europeia para a Proteção de Dados (EDPS), apresentaram opinião conjunta que sugere o banimento do reconhecimento de pessoas em espaços públicos.

Tarcízio recentemente participou do podcast Tecnopolítica em que conversou com Sueli Carneiro (e Sérgio Amadeu, âncora do podcast) sobre o tema, resgatando inclusive o questionamento à neutralidade da ciência moderna – Sueli lembrou de como a ciência tem origem racista, tendo por base um pensamento universal europeu colonizador que excluía os povos africanos e as diversas cosmologias ameríndias e asiáticas. 

O pesquisador também escreveu em seu blog sobre 10 razões para as tecnologias de reconhecimento facial serem banidas. Estão entre eles o reconhecimento facial e visão computacional são técnicas altamente imprecisas, em especial sobre pessoas racializadas; de como as tecnologias digitais vistas como “neutras” ou “objetivas” favorecem ainda mais excessos de policiais, e no espaço público pressupõe e fortalecem uma sociedade vigilantista. Também é fator para defender o banimento o fato de que não podemos pressupor boa-fé de corporações de tecnologia, como exemplifica casos como o impacto do Facebook no Brexit e nas eleições americanas, do extremismo digital no YouTube e do lobby da Google no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, entre muitos outros. 

No aspecto econômico, mesmo o custo-benefício para captura de condenados não justifica a coleta massiva, como exemplifica a milionária implementação de reconhecimento facial em Londres, onde bases reuniam fotos de mais de 2.400 suspeitos que geraram apenas 8 prisões. Dados proporcionais ainda piores foram reportados no Brasil, onde gigantesca infraestrutura de reconhecimento facial foi implementada na Micareta de Feira de Santana, Bahia, coletando e vulnerabilizando 1,3 milhões de rostos para o cumprimento de apenas 18 mandados.

Para debater o livro e os temas citados, Leonardo Foletto e Tatiana Balistieri, do BaixaCultura, conversam com Tarcízio Silva no dia 22 de julho, às 19h, no canal do Youtube do BaixaCultura, onde as outras charlas já estão disponíveis. Nas próximas semanas ela também vira podcast, que pode ser escutado aqui e nas principais plataformas de streaming. Essa é a última charla do ciclo de 2021 que discutiu diferentes perspectivas dos estudos das tecnologias de comunicação no Brasil e no mundo. 

Emerson Alcalde analisa Nelson Triunfo: do sertão ao Hip-Hop

Seguindo a lista de leituras de pesquisa do projeto da minha autobiografia e do Slam peguei da minha estante o título Nelson Triunfo: do sertão ao Hip-Hop, de Gilberto Yoshinaga.

Eu tinha acabado de ler A minha vida e a revolução cubana, de Carlos Moore e postada a nota nas redes sociais, diante de alguns comentários, surgiu um do Yoshinaga se colocando à disposição para colaborar com a obra. O Toni C. já tinha me dado a letra de que ele elaborou uma metodologia zica para escrever biografias. Para este projeto eu já tenho o Ni Brisant como consultor literário, mas é sempre bom ouvir várias opiniões. Aceitei a ajuda.

Nas primeiras ideias trocadas por áudios de whatsapp ele já estava me mostrando algumas possibilidades e recursos estilísticos. Enviei o meu cronograma e a proposta do sumário enquanto estruturação da obra, e posteriormente as três primeiras partes e através de suas observações melhorei consideravelmente os caminhos e a forma, em paralelo com o Ni, que vai por outra perspectiva me trazendo provocações me que tiram do chão.

Iniciei a leitura e na primeira página me deparei com um autografo datado de 02 de novembro de 2014, ou seja, 7 anos após a aquisição me disponho a me debruçar sobre a obra. O livro impressiona de cara pelo projeto gráfico assinado pelo mestre Toni C., da LiteraRUA, desde o sumário, o número das páginas todos com a marca do Black Power até as clássicas fotos e cartazes, além de apêndices informativos. A história começa com Nelsão na Alemanha, onde já esteve mais de uma vez. Lá ministrou workshops, dançou, interpretou.

Começa pelo o que seria o seu ápice, o lugar mais longe o Nelson Triunfo chegou. E no capítulo seguinte sim se inicia contando a história da sua família e de sua infância no interior de Pernambuco, na cidade de Triunfo. Passando pela adolescência em Paulo Afonso, Bahia, onde conheceu os Bailes Blacks, que tocavam soul e funk, música troncha, como dizia na sua cidade natal. E lá se tornou conhecido pela dança, criando até um grupo os Invertebrados no Soul. Depois se mudou para o Distrito Federal, foi morar na Ceilândia, cidade satélite conhecida aqui por nóis pelas letras do GOG e Câmbio Negro. Do DF se jogou para SP morando com os seus irmãos no Bixiga, se envolve com o samba e desfila durante anos na GRCES VAI-VAI, depois se muda para Guarulhos e por fim Tiquatira, onde vive até hoje.

Yoshinaga narra com muita clareza e riqueza de detalhes que te faz acompanhar passo a passo da vida do biografado em paralelo com a história dos bailes blacks e do Hip-Hop. Resultado de uma pesquisa de uma vida sobre este movimento que somente um apaixonado pode ter.

Este livro mostra como o Hip-Hop nacional já nasceu abrasileirado, o pioneiro do break começou misturando os passos que via nos vídeos clipes e filmes norte-americanos com o suingue do Nordeste e o gingado da capoeira. Então antes de dizer que vai inovar algo busque a história porque nela já pode estar a resposta.

A primeira vez que ouvir falar o seu nome foi na música do Thaíde e DJ Hum, Sou do Hip-Hop. Anos depois conectei que ele era o cara que via nas ruas, na lotação e no parque ecológico. Me recordo de várias vezes pegar a lotação vinda da Vila Silvia sentido metrô Penha e no meio do trajeto subir um sujeito alto e de toca das cores da bandeira da Jamaica, era o Homem-Árvore.

Eu poderia ter lido o livro rapidamente, mas são tantas referências que eu desconhecia ou que só tinha ouvido falar que me fazia parar, ir no Youtube, escutar a música a música e assim continuar a leitura. Digo principalmente artistas dos anos 70 e 80. Brasileiros como Black Juniors e Buffalo Girls, e os gringos Kurtis Blow, Kool Moe Dee e Whodini. Eu só fui ter acesso a este estilo a partir dos anos 90 e alguns somente agora.

No livro me aprofundei na sua vida, na sua obra e no Hip-Hop. Acredito que este seja um dos poucos materiais que exista de uma forma tão organizada deste período da história. As famosas e importantes coletâneas: Hip-Hop Cultura de Rua, O som das ruas, The Best Beat of Rap e Consciência Black, responsáveis por lançarem artistas que hoje são consagrados como Thaíde, Pepeu e Racionais MC’s.

Nas últimas páginas me deparo com uma foto dos irmãos Gama que na época estavam produzindo o CD do Nelson Triunfo e nós acabávamos de comprar a casa de um dos Gama, o Renato. Fomos no show de lançamento no auditório do Ibirapuera, o livro foi finalizado antes deste lançamento, então pude avançar um pouco além da história que está no livro com a vivência que tive de ver o seu show completo com banda e tudo mais, ver ele cantando, dançando com sua família e parceiros.

Termino o livro com mais conhecimento e com vontade de ouvir mais músicas. Continuar aprendendo sobre funk, soul e rap dos anos 80. Nesta década eu era criança e morava em Itaquaquecetuba. Meu pai e meus tios curtiram este momento e o viram dançando na Rua 24 de maio e na Estação São Bento e me relataram com muito entusiasmo. Fico imaginando como deve ser morar no Brooklyn e ver no dia-a-dia o Mos Def, Busta Rhymes, KRS-One, os membros do Wu Tang Clan, do Gang Starr. Mas lembro que nas ruas da Leste encontro frequência com Rincon Sapiência, que para pra me cumprimentar, divido uns salgados de R$0,50 com Jé Versátil, trombo o Raillow (Primeiramente), o Nocivo Shomon, o Mikimba (De Menos Crime), o Pepeu está sempre no meu prédio e vou no mesmo vagão do metrô que Nelson Triunfo viajando nas histórias engraçadas que ele sempre tem pra contar. Como diz o Dexter: “Se este é o lugar, já era, eu tô aqui”.

Fonte: página do Emerson Alcalde no Facebook, publicado originalmente no dia 24 de maio de 2021.

Adquira o livro e viaje nessa leitura você também: https://www.literarua.com.br/livro/nelson-triunfo-do-sertao-ao-hip-hop

LiteraRUA: Conheça livraria voltada ao público negro e periférico – Estação Livre – TV Cultura

Livrarias especializadas em literatura negra, periférica e feminista se espalham por todo o país. Elas acabam se tornando refúgio de quem deseja se ver representado no universo literário, mas não encontra respaldo em grandes redes.



A LiteraRUA é uma delas. “A gente é uma editora com ideologia, voltada para o público preto, pobre, favelado, periférico e essa literatura nossa. A gente não trabalha meramente com dinheiro. A gente tem a missão de contar a história do nosso povo“, diz o escritor Toni C.

Segundo a proprietária da livraria Africanidades Ketty Valêncio, o projeto traz uma ação transformadora. “Eu me vejo nas pessoas que comprar os livros, e vice-versa”, conta.

Toni C aponta para a importância do hip hop em sua trajetória de vida. “Foi o hip hop que me apresentou a literatura. A literatura que eu aprendi na escola era uma coisa chata. Foi o rap que falou: ‘abre um livro e vai se informar'”. Valêncio reitera a relevância da vertente cultural: “O hip hop e a literatura são praticamente a mesma coisa. É o primeiro movimento que me traz a minha humanidade”, afirma.

Assista à íntegra do Estação Livre sobre literatura:

AmarElo É Tudo Pra Ontem estreia o Doc-Alforria de Emicida

Por Toni C.*

Faz mil dias que ceifaram a vida de Marielle Franco. Este oito de dezembro foi uma madrugada de vigília, é a estreia do potente AmarElo É Tudo Pra Ontem.

Emicida reúne a destreza do samba e inova feito um modernista para nos devolver as páginas arrancadas dos livros de história, e nóiz tamu nela! O rapper ocupou em novembro passado o Theatro Municipal e hoje crava o primeiro documentário do Hip-Hop verde-AmarElo para o mundo através Netflix. 

Dias atrás, a produção ​estava ​a ​todo vapor​,​ ​com ​equipe se falando ​à distância, ​foi a primeira vez em que Emicida sugeriu o título: É Tudo Pra​ ​Ontem. Parecia uma piada, daquelas tiradas sagaz do MC do Cachoeira. Tá ligado? Afinal era tudo pra ontem mesmo, e sugestões de ​nomes ​sonoros e poéticos não faltavam. Mas o tino infalível de Emicida sintetizou ​a urgência histórica ​nesta frase​ que a gente solta até sem querer​, afinal​, ​​é pra ontem​​: preservar a vida, a mata, a vacina, a estima, ​a memória, ​a democracia​​…​ é tudo pra ontem, tio!​

Era a sessão de pré-estreia de um documentário extremamente sensível e inspirador. Vivíamos um mundo sem pandemia, e a obra em questão era Sobre Noiz, exibido no Céu Jaçana. Ví na tela uma África diferente da qual nossos inimigos insistem em botar em nossa mente. No fim da sessão, após o Emicida responder as perguntas do público, me aproximei dele e fiz um pedido, queria registrar a história desse artista-pensador e falei isso em voz alta pra ele de uma vez, assim a queima roupas…

Quatro anos depois, meu pedido pra ontem, tem cara nova hoje, quando tenho a sorte e a felicidade de ser convocado, não para contar a história do Emicida, nem de seu álbum o premiadíssimo AmarElo, Leandro é tão generoso que no lugar de simplesmente promover seu trampo ou de se autopromover, faz questão de resgatar e homenagear aqueles que vieram antes, grandes personalidades que pavimentaram o chão com suas pegadas gigantes como Ruth de Souza – Abdias do Nascimento – Lélia Gonzalez – Mário de Andrade – Candeia – Wilson das Neves e tantos outros Elos. Que não estão mais condenados a simples notas de rodapé nos livros da escola.

É loko pensar que em meio ao surto global da Covid, o Zika da Rima espalharia uma verdadeira “Febre do AmarElo“, nosso ouro reluzente, a cor saqueada da bandeira. 

Não viu AmarElo? Veja. Já assistiu AmarElo? Reveja… estude, beba, coma, mergulhe em AmarElo

“É uma faculdadezinha que fizemos, alí”.

Me disse com ternura o próprio Emicida. Dia desses ouvi isso do Fióti, que acrescentou: “É pra se assistir com papel caneta e lenço”. Me ensinou com cada gesto Felipe Choco… o corpo docente  dessa facú conta ainda com Raissa, Joelma, Lohana, Alexandre de Maio… que time! Pensa você mano, num dia você assiste o videoclipe Triunfo e em outro você tá diante do diretor Fred Ouro Preto discutindo o roteiro do documentário!? 

Preciso agradecer aos mestres com carinho que me apoiei ao longo dessa missão, os professores Big Richard, com seu recém lançado Maioria Minorizada. Renato Gama com sua sabedoria Afrogira. Leci Brandão que nos torna Zé do Caroço com sua existência. Enéas Armagedon, que nesse momento enfrenta o vírus da Covid, força irmão! Além de Amailton Azevedo que através de seu livro Sambas, Quintais e Arranha-céus nos trouxe outro mestre pra roda, o sambista Geraldo Filme, ligeiro em imortalizar com seu samba o construtor Tebas como um grande patrimônio.

Só tenho que agradecer por ser contemporâneo de alguém como Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, você é alento num deserto de desesperança.

O Tundum quem fez foi a batida dos nossos corações soando alto em AmarElo.

*Escritor, roteirista do Documentário AmarElo é Tudo Pra Ontem.

Poesia Pra Encher A Laje 2.0 – INQUÉRITO, Renan

POESIA PRA ENCHER A LAJE 2.0 é muito mais que uma simples reedição do segundo livro de poesia visual de Renan, essa nova LAJE na versão 2.0, têm suas poesias inteiramente recriadas e também ganha poemas inéditos, com projeto gráfico totalmente reelaborado com parceria da OBS.curadesign.  

O livro nesta edição conta com prefácio de Arnaldo Antunes, participação de Marcelino Freire e do rapper Emicida que decreta: “Se hoje temos a ambição de reivindicar nossa identidade e transformar as quebradas em inteiras é porque tem uns doido igual ao Renan, que faz da poesia um estilo de vida e sai gritando por ai com seu megafone coisas que nos lembram que o cérebro mora na cobertura do corpo, mas aquele morador problemático que tá sempre batucando no andar de baixo, também tem seu valor. Escute ele.”

Criada apesar e com as condições próprias do iSOLamento, sem que o livro se torne mero lamento, é leitura leve para dias pesados. O próprio autor revela por suas redes sociais como tem atravessado este período de criação e reinvenção: “… assim como tod@s vocês, passei por vários processos distintos, foram duras e dores, foras e flores, mas confesso que tenho vivido um misto de quarentena e libertação, tenho usado a arte como liberdade. Criar foi minha única Cura!”

Assim sintetiza Arnaldo Antunes em seu prefácio: “​A poesia de verdade não é só crônica de seu tempo, mas ela em si um acontecimento. Um fato transformador da consciência e da sensibilidade de quem o presencia.​”​

Marcelino Freire ​é direto: “​Poeta que vai além do concreto. Feito um papo reto. No grito. No pé do ouvido. Para manter o nosso olhar aberto. “​

A obra poética de Renan faz parte de um grande projeto chamado i(SOL)amento, onde o livro não chega sozinho, a ação conta também com disco, vídeo, podcast e tudo mais que sua mente mandar. Uma verdadeira auto-curadoria afirma o autor: “Sou criador e curador, de mim mesmo, na arte e na mente. Depois da pandemia vem a primavera!” Mas sempre concreto, sempre certeiro INQUÉRITO, Renan alerta: 

“Só quem encheu a laje vai poder tomar sol”.

Livro: POESIA PRA ENCHER A LAJE 2.0
Autor: INQUÉRITO, Renan
Editora: LiteraRUA / Inquérito
Participações: Arnaldo Antunes, Emicida, Marcelino Freire
Páginas: 88
Dimensões: 17,5×13,5cm
ISBN: 978-65-86113-02-0
Edição: 2
Ano: 2020

Disponível em LiteraRUA

Pedido de fim de ano: Quando o vírus revela o verme

Você pediu.

Me lembro como se fosse ontem: contagem regressiva, fogos, champanhe.

E você desejou com tanta força que quase dava para ouvir em voz alta.

Você pediu mais tempo pra você.

Pediu mais tempo para ficar juntinho de sua família, seu parceiro, filhos, seus amores…

Você desejou que o mundo inteiro se unisse numa só causa.

Que todos percebessem o quanto somos dependentes uns dos outros.

Você desejou um ar melhor para respirar.

Que a cidade fosse mais organizada, a vida menos atribulada, sem trânsito, buzina, que as pessoas não se esbarrassem no vai e vem frenético. Você pediu um tempo para sair do “piloto-automático”, queria não ter rotina.

Você pediu, lembra? Pediu e prometeu que neste ano iria se alimentar melhor – Regime não, reeducação alimentar – esse era o seu mantra.

Você queria que o dinheiro não significasse tanto na vida das pessoas. Que todos fossem tratados iguais.

Pediu, pediu sim vai, menos falsidade, nada de beijinho, abraços, apertos de mão.

Prometeu que quando sobrasse um tempo iria colocar a leitura em dia. Que iria passar a tratar as pessoas como gostaria que elas também te tratariam.

Confesse, você pediu todas as manhãs mais cinco minutinhos para o despertador. Quando na verdade queria mesmo era passar o dia todo deitada na cama sem ter nada pra fazer.

Você pediu que a vida não fosse tão corrida, trabalho, estudo, academia, cursinho… Quantas vezes eu peguei você amaldiçoando tudo isso?

Você pediu, ah como pediu, não ver mais a cara de seus colegas de trabalho, reunião nem pensar, ficar bem longe daquela falsa do escritório, lembra? – Nem pintada de ouro!

Você pediu, pediu não, implorou, queria ter todas as últimas novidades do mundo moderno made in China e agora taí.

Você queria que a violência diminuísse, então me diz: pra que serve aquela arminha que seu candidato tanto fazia? Agora, do que adianta ir pra varanda bater panela para o presidente que você elegeu?

Foi você quem pediu. Pediu não, exigiu. A volta dos médicos pra Ilha e agora minha filha, não adianta aplaudir os profissionais dos hospitais.

Logo você que sempre pediu para acabar com tantas regalias de dentro da cadeia, comer de graça e ficar o dia inteiro sem ter o que fazer, ironizava – Êeee vidão! – Agora é você quem pragueja que sua casa virou uma prisão.

Lá no fundo você pediu em silêncio pra chegar o apocalipse e acabar com tudo, assim você alcançaria a redenção.

Só que, quando todos os seus desejos se realizaram, você se apavora na ânsia de ter sua vida medíocre de volta, meu bem?

E como é que tudo isso eu sei?

É que eu sou sua consciência e não leva umas não, que eu peso na sua.

Cuidado com o que deseja!

Toni C.

Uma imagem e mais de mil palavras, conheça Beatriz símbolo da rebeldia juvenil das manifestações estudantis

A pandemia que enfrentamos hoje faz com que ficar dentro de nossas casas seja um ato político pela vida, há apenas três anos, ocupar as ruas era a maneira mais avançada de combater  a violência contra a democracia que deixou sequelas até hoje. Em março de 2017, estudantes e professores ocupavam as Ruas e as escolas em defesa da educação e do direito a aposentadoria. Meses depois, em setembro, a LiteraRUA lançava A Mais Longa Duração da Juventude.

“Ver os alunos organizados contra a desorganização foi a maior ironia que o Estado não esperava.”

Todo esse contexto, nos permitiu escolher duas fotos históricas para ilustrar a capa da narrativa de Urariano Mota. A primeira refere-se a Passeata dos Cem Mil, ocorrida em junho de 1968 e um marco da luta de artistas contra a ditatura militar que imperava no Brasil.

passeata-famosas

Na foto, da esquerda para a direta, podemos ver as atrizes: Eva Todor, Tônica Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Normal Bengell.

Sobre essa foto, explicou em março de 2018 a atriz Eva Wilma, no programa Vídeo Show da TV Globo:

“…É uma foto famosa, emblemática, de um momento difícil para a cultura no país. Era uma mobilização contra a censura e pela cultura. Os teatros todos de São Paulo pararam, uma greve. A mobilização foi combinada de ser feita nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Três dias e três noites ininterruptos. A gente se revezava”

Essa imagem imortalizou a participação de mulheres fortes e formadoras de opinião na luta contra o Golpe Militar.

Já a segunda foto que escolhemos com apoio do artista gráfico Andocides Bezerra para a capa do romance, retrata um momento contemporâneo, uma manifestação de 15 de março de 2017 contra a Reforma da Previdência e sobre o sucateamento promovido no Ensino Médio pelo então presidente Michel Temer:

protesto-sp

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Na foto, de autoria da fotógrafa Rovena Rosa, vemos em destaque uma jovem estudante, no ápice da Juventude, demonstrando força e poder. Não foi por acaso a escolha dessa foto: o gesto executado por essa jovem, remete de forma quase que direta aos gestos executados por Tommie Smith e John Carlos em outubro de 1968, durante as Olímpiadas: o símbolo que eternizou os Panteras Negras.

q2qGZfdV0WRm-52lHV5ZP1Oppzw4Ce0ZB5k8qPzd6XcO click perfeito de Rovena Rosa, feito para a Agência Brasil, não apenas serviu para a capa do nosso livro, mas também rodou a internet, se transformando em uma imagem obrigatória para entender e sentir a rebeldia e força daquela contestação que ilustrou (e ainda ilustra) dezenas de matérias publicadas nos mais variados contextos, de veículos como a publicação semanal CartaCapital, aos blogs de sociólogos como o Demétrio Magnoli. E não apenas isso, em determinados momentos essa imagem foi utilizada até mesmo para ilustrar memes reacionários com críticas aos movimentos sociais, uma prova efetiva de que estamos diante de uma imagem icônica.

Mas, quem é a jovem em primeiro plano na imagem? Chegou a hora de conhecermos quem era essa estudante,  pelo o que passou e para onde seguirá. Seu nome é Beatriz Punça, 18 anos e estudante de Ciências Sociais da Unifesp, em Guarulhos.

O Blog da LiteraRUA conversou com ela há algum tempo e temos o prazer em revelar essa história para vocês, agora.

LiteraRUA: Conte um pouco sobre você?

Imagem1

Beatriz: “O ápice dessa foto foi ter chegado na capa de um livro, se tem uma coisa que eu não imaginava na vida, era isso”.

Beatriz: Todos me chamam de Bia, com exceção da minha mãe quando está brava. Inclusive, já iniciando com quem me espelho, Eunice, minha mãe, 35 anos, primeira pessoa com ensino superior da família e Jorge, autônomo que sabe fazer tudo ou quase tudo nessa vida.

Tenho 18 anos recém completados, moro desde que nasci em Lavras, bairro periférico de Guarulhos a cidade do “super aeroporto” e, apesar de quando pequena achar que isso facilitaria as minhas várias futuras viagens (não que não vá acontecer), só voei pela primeira vez aos 17 anos, pra visitar meus familiares do Nordeste.

Estudo ciências sociais na Unifesp. Trabalho em um hotel, que apesar de acolhedor internamente, me faz ter contato  com realidades que antes eu só via na TV, igual ao João do livro Reservado [LiteraRUA, 2019].

LiteraRUA: Qual você pensa ser sua vocação, sua missão de vida?

Bia: De uns tempos pra cá, tenho tido cada vez mais certeza: trabalhar com jovens. É o que faço há 6 anos e talvez o fato de ser tão prazeroso, mesmo que desafiador, reafirma essa missão a cada dia. Dialogar, analisar, provocar, questionar, sensibilizar, transformar… É realizador saber que com o trabalho de base e eu, somos capazes de fazer com que esses verbos não sejam ações só na grafia. Dando aula, participando de atividades, indo às escolas, criando um projeto, não sei ao certo, mas sei que é com os jovens.

LiteraRUA: Você atua ou atuou em algum projeto educacional ou cultural? Pode nos falar um pouco de sua participação em trabalhos voluntários?

Bia: Não sei se posso considerar educacional/cultural, mas é isso que venho fazendo desde 2013. Sou coordenadora de um grupo de base da Pastoral da Juventude, uma das pastorais sociais da Igreja católica, que vai muito além de evangelizar jovens, mas desenvolver uma nova ideia de mundo, com uma metodologia que, desde os primeiros contatos, me encantou.

Nunca em outro espaço, falamos sobre nós, sobre o eu, sobre o outro com tanta intensidade como nas propostas da Pastoral. Esse é o chão de aprendizado, de formação integral, de crescimento em que eu piso e sei que, dos meus 12 anos pra cá, foram muitos aprendizados. Um dos mais gritantes é o método “ver-julgar-agir”. Usamos isso pra tudo ou quase tudo, pra analisar/adentrar em diversas temáticas. Conforme a Pastoral foi sendo mais que um “domingo de manhã”, percebi o quanto ela já estava internalizada no meu jeito de ser. Foi e ainda é o chão perfeito pra uma menina cheia de questionamentos e pisar nesse chão não deveria (não hoje) abalar as estruturas que permeiam (a Igreja católica): o tão temido desafio da fé e política.

Na Pastoral a gente descobre um Jesus diferente daquele que algumas pessoas pintam por aí (tenho um poema sobre isso inclusive). Mas além de descobrir, a gente reflete sobre as nossas realidades com um olhar de “menos julgamentos” e “mais amor” ou com um olhar mais crítico e menos senso comum. Os encontros que construímos variam em temáticas de identidade, educação, sociedade, relações, esperança, ou qualquer outra que estejam de acordo com a realidade do grupo. O planejamento traçado, o cenário ao redor, entre outros… também caminham com a formação integral de todos, em que cada um se desenvolve conforme suas particularidades.

LiteraRUA: Conte um pouco pra gente da sua família?

Bia: Em casa somos em seis: mãe, pai, um irmão de 15 anos, minha irmãzinha de 4 anos e minha gata. A família que tenho bem mais contato é a da minha de mãe, convivo constantemente com todas as três tias e primos. A família por parte de meu pai, vejo mais esporadicamente. No Nordeste tenho família de pai e mãe. Em Recife avô, tias e primo e em Alagoas mais alguns tios, ambos de parte de pai. No interior do Pernambuco muitas tias de parte de mãe.

LiteraRUA: Bia, você gosta de Literatura?

Bia: Eu sempre gostei de escrever, desde novinha. Todas as propostas dos professores eu abraçava. Em 2012 fiz um blog que durou até 2015, nele eu publicava sobre roupas, tênis, tendências, ideias e algumas resenhas de livros. Nesse meio tempo, em 2015 escrevi pra um portal de universo juvenil, não ganhava nada, não era um portal famoso, lembro de ter ficado feliz com o convite pra escrever e me dedicava a postar uma vez por semana sobre lançamentos, livros, eventos e o que estivesse gerando comentário.

Mais recentemente me descobri na poesia, gosto de viajar nas ideias e brincar com as rimas… Não escrevo com a frequência que eu gostaria, ultimamente o que tenho são ideias e mais ideias de rimas, de histórias que eu nunca tiro do papel, ou do bloco de notas do celular, no caso. Por gostar de escrever, o que é proposto eu me jogo, já escrevi nota de repúdio pra organização estudantil, crônicas pros concursos da escola e poemas, sejam de amor, sejam de luta. Até me arrisquei a compor uma música (o que o amor não faz com a gente, né João?). João é meu namorado e ele é culpado de algumas madrugadas de sono perdidas escrevendo coisas fofinhas.

Por conta da faculdade, eu tenho corrido pra tentar ler os textos das aulas e não leio mais por hobby. O que tenho arriscado escrever nesses últimos tempos, compõem o que conhecemos por poesia marginal, registrar em rimas histórias que acontecem, dores que são guardadas e gritos que são diariamente silenciados, tirando um pouco do sentimento de impotência diante de tudo que rola.

LiteraRUA: Quando e de que forma começou a atuação nos movimentos sociais?

Bia: Através da Pastoral da Juventude (P.J.). Eu era a mais jovem dentre aquelas pessoas, então sempre ouvi entre eles sobre além das próprias atividades, como a Semana da Cidadania e a Semana do Estudante que são realizadas por toda pastoral nacional, com subsídios de estudos, ideias e encontros com temáticas que despertaram o protagonismo que já tinha uma chama acesa em mim.

Em 2015, na oitava série, fui presidente do grêmio da escola e essa experiência foi o start. Em agosto, acontecia em todo país campanhas contra a redução da maioridade penal e a Pastoral aderiu a Campanha do Amanhecer contra a redução. Ajudei nos bastidores fazendo estêncil e artes que decorariam toda a praça de um bairro vizinho de onde moro. Nesse mesmo ano participei pela primeira vez do Grito dos Excluídos, ato organizado nacionalmente no dia 07 de setembro para questionar o tão falado Dia da Independência. Aqui em Guarulhos, quem organizava o grito até o ano retrasado era a P.J., foi a primeira experiência de estar na rua, de gritar o que incomodava.

Em seguida desembocaram as ocupações e foi quando me joguei nessa vida, foi quando mesmo que cedo, a militância me abraçou… Uma das mentes pensantes para a ocupação da escola aqui do bairro do Lavras. Em um domingo à noite, mais de uma cabeça indignada junta não ia dar bom, na real deu bom. Ocupamos a escola contra a desorganização escolar que era proposta pelo nosso governador. Dia inteiro na escola, esquema de organização, limpeza, comida, união de uma galera do bairro que eu mal conhecia, mas já considerava demais. Foram dias loucos… saudades.

Ver os alunos organizados contra a desorganização foi a maior ironia que o Estado não esperava, participar integralmente disso aquecia ainda mais a chama de esperança que ardia no meu peito. Nesse ano também conheci a JR, Juventude Revolução, organização de jovens até então apartidária, que defende causas plausíveis e fundamentais. Inclusive foi essencial para que a escola fosse ocupada e durante todo o processo. Segui participando de alguns encontros e formações da JR, a partir daí tiver maior contato com as entidades estudantis.

Já na nova escola, ensino médio, colhi assinaturas pra representar com mais uma galera nossa escola em um Congresso da UPES. Durante o Congresso, a galera da JR me propôs um cargo na diretoria executiva da UPES, não aceitei. Gosto de saber o chão que piso, a UPES nem de longe estava presente nas escolas, não nas periferias, e eu nem sabia de sua existência antes da ocupação e gostaria que essa crítica não fosse mais atual. Não tinha pés (nem grana pra ficar indo em reunião em São Paulo, que sempre nos custou muitos dinheiros) pra mudar as estruturas. Preferi me abster. Daí em diante, foram vários atos, várias ideias, algumas atividades na escola, panfletagens, de algum jeito, sempre na ativa.

LiteraRUA: E o que a levou a manifestação que se tornou uma imagem das lutas sociais daquele período? Como foi?

Bia: De novo a indignação. Como queriam definir o que era bom ou ruim para nós estudantes, sem antes nos consultar? Éramos responsáveis o suficiente pra optar entre matemática ou história, mas não para opinar em seus projetos de lei? Professores e alunos unificados foram para as ruas, dizer Não a reforma do ensino médio, Não a reforma da previdência e Não ao governo ilegítimo que todos os dias nos atacava.

 

Imagem2

Bia sob a lente de Demetrios dos Santos

LiteraRUA: A foto, com sua imagem ganhou grande notoriedade. Você sabe o que gritava naquele momento? Qual era o clima e seu sentimento no momento do clique?

 

Beatriz: Era 15 de março de 2017. Tínhamos várias palavras de ordem e até algumas com ritmos de funk. Mas a que mais marcava era “A nossa luta, unificou. É estudante, operário e professor”. Com certeza eu gritava o mais alto possível, sem me importar em ficar rouca, a vontade era que aquele grito, aquele coro, fossem ensurdecedores, a vontade era realmente  fazer barulho, ser escutada, fazer com que os gritos diariamente silenciados nas quebradas, nas ruas, nas escolas, nas casas, nos hospitais, fossem enfim escutados. Se eu não trabalhava, se eu tive a oportunidade de cruzar a cidade pra ir lá, eu precisava gritar, não só por mim, mas por todos esses gritos silenciados.

Era depressão pós golpe, Temer nos surpreendia a cada dia com novas mudanças e a greve geral da educação naquele dia tinha como pauta a rejeição ao dito Novo Ensino Médio e a Reforma da Previdência. Uma semana antes do dia 15, chamei uma roda de conversa (presidente do grêmio de novo, agora no 2° ano) com a galera da minha escola, em uma praça próxima. A divulgação foi boca a boca, a escola não concordava. Então foi tudo por de baixo dos panos, uns 30 alunos foram e rolou uma roda de conversa sobre a greve do dia 15 e os porquês da mesma, a então coordenadora da JR em Guarulhos tirou várias dúvidas da galera e foi uma atividade bem produtiva.

Chegou o grande dia da manifestação, era a primeira vez que eu iria na tão falada Avenida Paulista, no ônibus fretado pela APEOESP, uns amigos da escola, outros da JR, da Pastoral também, além de claro, os professores. Partimos. A parte do “de volta pra minha terra” foi delicada, o ônibus demorou muito pra chegar, além do próprio trajeto pro meu “país” Guarulhos. Chegamos em casa bem tarde.

LiteraRUA: Você sabia que estava sendo fotografada por uma fotojornalista?

Bia: Não, o ato estava muito cheio, tinham fotógrafos com câmeras grandes que eu nunca nem tinha visto pessoalmente, mas jamais imaginaria estar sendo fotografada, não com esse foco. Acredito que se soubesse da foto, o punho não ficaria bravamente cerrado e o grito não seria altamente gritado, o inesperado compõe a beleza da foto.

LiteraRUA: Quando foi a primeira vez que você viu a foto daquela manifestação? Tinha noção que a imagem se tornaria tão popular?

Bia: Foi em 28 de abril daquele ano, greve geral, não somente da educação. O site Catraca Livre publicou uma matéria “Veja 5 eventos da Greve geral de hoje para você ir em São Paulo” (bit.ly/FotoBia). Eu não fui por conta dos motoristas de ônibus que aderiram à greve, sem busão, sem chances de chegar ao Centro da cidade pra pegar o fretado da APEOESP, mas minha foto estava lá, estampando a matéria. As notificações chegavam e eu sem entender nada, quando vi, fiquei pasma, era eu quem estava ali: como aquela foto foi tirada? Como foi parar no Catraca Livre?

Também descobri que além do Catraca Livre, a foto estampou uma matéria na CartaCapital (bit.ly/FotoBia2) e até então okay, todas legendadas no devido contexto, ambos mídias alternativas de muito reconhecimento.

Imagem3

Memes esbanjam baixaria e fakenews

Em contra mão, a foto após um tempo passou a estampar memes,  bem diferente das primeiras aparições, não me senti nada representada. Nesses memes a foto foi e vem sendo (porque infelizmente ainda estão circulando e criando novos) circulada totalmente fora do contexto em questão, utilizada como uma representação equivocada da esquerda, eu só conseguia pensar “E agora, me descobriram?!” e as pessoas próximas “Nossa, a Bia tá sendo usada pra representar a esquerda, tá famosa”, mas sério, a última coisa que queria era aparecer em memes, muito menos em memes reaças de páginas como Corrupção Brasileira Memes, Endireita etc.

Por um lado, eu tinha o conforto de ler os comentários e saber que os ataques não eram pra mim, afinal nem sabiam quem eu era. Por outro, vinha à tona um sentimento de indignação, por não ter controle sobre o destino dessa foto, onde e em que contexto ela seria utilizada, não soube lidar, pensei em denunciar na delegacia virtual, mas eu ainda era menor de idade e como era muita burocracia, a raiva acabou esfriando e ficou por isso.

Imagem4

Postagem da Bia registra sua surpresa ao conhecer a obra

O ápice dessa foto foi ter chegado na capa de um livro, se tem uma coisa que eu não imaginava na vida, era isso.

O mais triste nisso tudo, é o quanto tem ficado cômodo, o quanto um novo ataque aos nossos direitos é ” só mais um”, não é o primeiro e não será o último. Mas dói ver gente como a gente apoiando um governo que sucateia a educação, nos distância do direito de se aposentar, entrega demarcação indígena pro agronegócio, acaba com Ministério da Cultura, retrocede direitos conquistados pela comunidade LGBT, proíbe INPE, FIOCRUZ e IBGE de divulgarem dados, apoia tortura e se eu fosse continuar listando seria uma lista infinita, olha que nem citei as pérolas que ele fala sempre que abre a boca.

Isso tudo assusta e em mim causa uma sensação de impotência, de não conseguir fazer nada, de ver a população acuada, com medo. O que temos feito além de militar no Facebook?

LiteraRUA: O que sua geração espera sobre nossos governantes?

Bia: Talvez o problema já esteja aí: “esperar de nossos governantes…”. Que infelicidade não poder esperar nada das pessoas que foram eleitas através de processos ditos democráticos, com a vã promessa de nos representar. Esperar que eles nos percebam é pedir demais, estão muito ocupados com suas fortunas ou em como se safar das investigações. O problema da minha geração é esse, pronto, esperar… Corrompidos pelo individualismo que o sistema nos empurra de goela abaixo, “o que não me atinge não é problema meu” e “se me atinge alguém vai fazer por mim”. Quanto tempo mais essa fase de apatia vai durar?

LiteraRUA: Você ingressou numa faculdade de Ciências Sociais, o que te motivou para essa escolha? E o que pretende no futuro em relação a essa área?

Bia: O amor em dialogar com jovens, acredito que eu posso fazer diferença dentro da sala de aula, espero até lá ter espaço pra isso. Mas não somente, se hoje eu tenho a oportunidade em estar em uma universidade pública, cursando algo que faz parte do meu projeto de vida, preciso fazer por onde. O futuro parece tão longe, não sei… Além de dar aula, pretendo fazer pesquisas, além de pesquisas, ações concretas, criar e participar de projetos. Longe de mim que a periferia seja somente um objeto de estudo, eu sou a periferia, quero ter o olhar de dentro pra fora, não o contrário.

Assista ao vídeo em que o autor Urariano Mota comenta sobre a capa de seu romance.

Matéria produzida por Demetrios dos Santos e Toni C. com apoio de Luciana Karla Pereira Macedo.

Para seguir a Beatriz no instagram @_biapunca

Dedicada à Christiane Brito (1960-2020), jornalista e agente literária que apresentou Urariano Mota para a LiteraRUA e assim nasceu a publicação impressa: A Mais Longa Duração da Juventude.

Técnicas criativas para manter a saúde mental em tempos de isolamento

Por: Toni C.*

O surto de casos confirmados no Brasil de pessoas que contraíram o Coronavírus (Covid-19) não para de saltar e impõe a necessidade do isolamento social. Preparei algumas dicas para sobreviver e preservar a alma, corpo e mente sãs, quando o contato humano e a circulação são restritos.

Spolier: não contém lista de filmes da Netflix, nem lançamentos do mundo dos games.

Ouvir música
Taí uma boa chance de resgatar seus discos antigos. Ouvir suas canções preferidas e descobrir novas músicas, a escritora Elizandra Souza informou em postagem em uma rede social que voltou a ver videoclipes e está se atualizando com o que há de mais novo sendo produzido. Meu parceiro Hot Black me apresentou Sonhos Reais, o novo som com sua participação que você (confere aqui).

Ler livros
Sabe aquela “decoração” na prateleira que você tem evitado passar perto? Aproveite o paninho com álcool que tem à mão para tirar a poeira dos seus velhos livros, selecione uma boa leitura e mergulhe no mundo mágico da literatura. É uma excelente forma de sair por aí sem medo de contaminação e viajar pra todo canto apesar das restrições e fechamento de fronteiras. Uma indicação de leitura que você pode ler sem pagar nada é o livro organizado pelo cientista social Tarcízio Silva, com prefácio do rapper Emicida intitulado: Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: Olhares Afrodiaspóricos (LiteraRUA 2020), em pré-venda com download do PDF gratuito (baixe aqui).

Escrever
“Se a história é nossa, deixa que nóiz escreve!” a frase de autoria de Renan Inquérito deveria ser usada nestes tempos como se fosse álcool em gel pra exterminar o tédio. Estamos enfrentando uma pandemia global única em nossa história, diários como o de Anne Frank produzidos agora, darão ideia para as pessoas no futuro do tamanho da guerra que enfrentamos em nosso tempo. Nem todos serão os próximos Hemingway, mas como terapia, a tarefa de escrever um diário, uma carta ou um plane é um excelente tratamento de cura, me contou à jovem Manu conhecida em suas redes sociais como a Merida do Bairro, ela ainda me presenteou com um pequeno bloco de anotações chamado Caderninho da Gratidão, uma iniciativa desenvolvida pela Turma Valente.

Desenhar e pintar

WhatsApp Image 2020-03-21 at 09.19.25

Gravura do graffiteiro Bonga Mac: “O Pior Vírus Pode Ser Sua Indiferença!”

Uma folha, lápis de cor e muita imaginação, é tudo que você precisa para sair desenhando e se expressar através de coloridas artes-visuais. Este ensinamento vem do experiente graffiteiro Bonga Mac, privado de expressar sua arte nos muros, faz do papel sua parede de escaladas com o desenho que ilustra essa matéria em que podemos ler seu apelo à solidariedade nestes tempos: “O pior vírus pode ser sua indiferença!“.

Preparar seus alimentos
Com a restrição da circulação das pessoas, os pedidos de delivery dispararam, é o que relata Daniel N. Faria dono do Sonego’s Bistrô que adaptou o restaurante na quebrada para atender uma demanda recorde, adotando diversas medidas de segurança para oferecer a melhor experiência gastronômica para seus clientes, e ainda mantêm a economia e os empregos locais. Mas, e que tal você trocar o aplicativo de entregas de comida pela visita à cozinha de sua casa? O que você ganha com isso é um tempo bem aplicado no cuidado pessoal, uma economia no custo de sua alimentação e uma comidinha da qual você conhece a procedência. (Assista aqui) Daniel N. Faria ensina a fazer o “Circuit Breaker” na quebrada.

Exercícios físicos
É difícil se exercitar e se manter ativo sem poder sair de casa, ainda mais na periferia, com moradias precárias. Ontem mesmo ouvi uma pessoa dizendo: “Vai ficar isolado como com cinco pessoas morando numa casa com um só cômodo?”. Mas quando não podemos sair para caminhar, pedalar, ir à academia e nem bater uma bola na quadra, precisamos ser criativos. Polichinelo, pular corda e agachamento são bons treinos para aumentar os batimentos cardíacos. Abdominal, dorsal e flexão de braço são os mais indicados para serem realizados mesmo sem espaço e equipamentos adequados e ainda assim manter em dia a musculação. Yoga, alongamento e meditação são exercícios de baixo impacto para o corpo e a mente indicado para todas as pessoas em todas as idades.

Estudo
Estudar um idioma estrangeiro, se preparar para um curso ou uma prova é uma boa aplicação do tempo para sairmos deste momento fortalecidos intelectualmente.

Ócio
Sempre que ouço a palavra “ócio”, ela vem acompanhada da palavra “criativo”, como se não fazer nada é só um breve intervalo para ganhar impulso e como num passe de mágica sair criando coisas espetaculares possuído das melhores ideias. Mas não é necessário isto não, tire um tempo para descansar sem compromisso. Atenção: ver televisão não é descansar e você não precisa do meu incentivo pra isso. Ócio é colocar os pés pra cima e o estresse no chão, é deitar numa rede e desconectar das redes-sociais, olhar pro teto, deixar o tempo passar… enfim, não fazer nada. “Privilégio” que este tempo nos dá.

Estas foram algumas dicas para se manter útil, ativo e focado para enfrentamos de forma inteligente o isolamento sem pirar.

Fortalecidos destruiremos o vírus e não os nossos neurônios.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, coroteirista da cinebiografia do rapper Emicida (em produção), criador do coletivo LiteraRUA.

Demetrios Santos fala sobre o momento que enfrenta o mercado editorial

Demetrios dos Santos editor da LiteraRUA fala sobre o mercado editorial no Entendo Nada Podcast. No canal oficial do Podcast podemos ler as questões que foram levantadas ao longo da entrevista:
As grandes livrarias estão falindo? Como as editoras estão se virando para sobreviver a crise? E os e-books realmente estão dominando o mercado? Venha saber se é hora de realmente comprar um e-reader ou uma estante para livros!

ERvvwnrXYAErY2c

O episódio está disponível no YouTube e nos seguintes agregadores:

Spotify
https://tinyurl.com/w263zls

Anchor
https://tinyurl.com/v7myj6o

Youtube
https://youtu.be/XjWikBW2K9Y

 

Emicida apresenta AmarElo no Theatro Municipal, é o Elo da Arte Moderna ao Hip-Hop

Em 1922 um grupo de artistas realizaram ao longo de uma semana, uma grande mostra cultural cheia de brasilidade e contestação durante as comemorações do centenário da Proclamação da República. Este evento revolucionou a arte e marcou um capítulo da história que conhecemos por Semana de Arte Moderna de 22. Emicida é tão pioneiro que nem esperou 2022 para ocupar o palco do Theatro Municipal e pintar tudo de AmarElo Abaporu. No lugar de Tarsila quem brilha é MC Thá.

Captura de Tela 2019-11-28 às 00.55.04

Foto: Juliana Lubini @julubiniphotography

Por Toni C.*

Antes mesmo de começar o show, a lógica já estava toda subvertida, nessa noite não seria só o café no hall de entrada, o único preto que você encontraria no Theatro. O aviso sonoro traz a voz de um mano, é Fióti quem dá as instruções: “…o evento pode ser fotografado e filmado”. Desde o lado de fora já era de arrepiar, tanto cabelo crespo se enfileirando educadamente para atravessar o portal. Os cumprimentos, os abraços, os sorrisos… era de arrepiar.

As boas vindas são dadas com um trecho sonoro do filme Orfeu Negro de 1959:

“– Zeca, Zeca, toca, faz o sol nascer…
– Não sei se posso.
– Sabe sim, tenta, toca (…)”.

Eu fiz a lição de casa: decorei cada verso, repassei o setlist completo, estava com o timing de cada átimo de silêncio entre as batidas. Mas aí me vêm o primeiro acorde e nóiz acorda!

As cortinas do imponente Theatro Municipal de São Paulo começaram a subir junto com a emoção e revela atrás dela o eclipse, é o astro rei. E Emicida faz o sol alvorecer no meio do palco. O vitral translúcido em animação no telão bem que tentou filtrar a luz que dançava num caleidoscópio multicor, mas quem pode apagar o sol? É a Ordem Natural das Coisas, abrindo os caminhos.

E antes que a gente possa recuperar o fôlego, Emicida pega uma caixa de fósforo, é, uma simples caixa de fósforo da qual ele guarda o universo e toca em homenagem a Seu Wilson das Neves, Quem tem Um Amigo (Tem Tudo), malandramente a música se funde ao som de Fundo de Quintal, “(…) Valeu por você existir amigo”.

São versos de Pequenas Alegrias da Vida Adulta capazes de fazer este templo outrora ocupado de fraque e tailleur agora responder em unisono, “Encontrar uma tupperware que a tampa ainda encaixa (ó Glória)”.

Mas teatro tem que ter tragédia, 9nha com a dama Drik Barbosa é a prova que a arte imita a vida até quando ela arde, “Tua boca quente na minha virilha / Quase queima, que fase, reina, kamikaze”. Dessa forma Emicida parte num mix sem paradas para um Emicidio em pleno Municipal: “Eu gosto tanto dela, a ponto de querer tá perto, pronto / Não tem outro jeito de me ver sorrir / É louco o efeito dela, aqui”.

Aí bate a brisa suave de quem escreve como quem manda cartas de amor em Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, mergulhamos num momento suave entre os hits de: Baiana, Madagascar, Alma Gêmea. Quando nos damos conta estamos diante da dualidade agridoce de Paisagem. Até que nos deparamos ao rap-rock de Hoje Cedo.

É chegado o grande momento, da última fileira é possível ouvir o coração do Emicida bater no compasso dos versos de Belchior.

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro…

Presenciei as confortáveis cadeiras serem abandonadas pelo público que trocaram o veludo vermelho para abraçarem os versos de AmarElo. Majur é contralto, Pablo Vittar soprano e Emicida tenor nesse espetáculo que já nasce clássica. E antes que as últimas notas dessa sinfonia se dissipem, AmarElo se transforma num instante em Pantera Negra diante de nossos olhos. “Digam que o Zika Voltou tipo (m)AKA”.

Então Zika Vai Lá, converte o palco do Theatro no solo sagrado da Estação Santa Cruz, com mãos levantadas até o último foyer.

E o Bang é o seguinte, Eminência Parda traz o mano que escapou da morte Jé Santiago, enquanto DJ Nyack faz as vezes do Papillon, é o próprio Africano.

Mas aí o tom grave de Boa Esperança ecoa pelos corredores de todo o velho Theatro. Cês tem o Fantasma da Opera, tiu. Nós tem é logo o Fantasma da Laboratório, o espirito que anda, canta e destrói limite.

“Hoje nóiz pegamos nossas almas de volta, há 500 anos sequestradas”. Disse a entidade com autoridade no centro daquele palco que desafia os melhores.

O artista, a banda, a plateia, os funcionários, a emoção é tão grande que pode ser tocada com a mão. Nunca vi tantos óculos suados por metro quadrado.

“Me emocionei”, se desculpa Emicida. Alguém grita: “Você merece Leandro!”. E ele corrige ligeiro: “Eu não, nóiz merecemos. E que a gente nunca se contente com nada menos que isso”.

Ismália é ópera épica.  “Olhei no espelho, Ícaro me encarou / Cuidado, não voa tão perto do sol / Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei / O abutre quer te ver de algema pra dizer: Ó, num falei?” É quando a poderosa voz de Fernanda Montenegro atravessava o salão. Levanta e Anda, e o espetáculo encerra com Principia.

As cortinas se fecham, mas ninguém arreda o pé. Aplausos, aplausos, aplausos…

Pra nossa sorte temos Passarinho no bis, e pra mostrar que o Gueto passou por aqui, A chapa é Quente e Libre. Eu olho para o mano da linguagem de sinais sem saber se ele estava traduzindo tudo em Libras ou dançando Libre.

Eu vi, o mano que faz a gente chorar de rir, com um cisco no olho, num só não, foi logo nos dois… durante o show inteiro num parava de entrar cisco no zói do mano do Taboão. Vi na sala escura do Theatro a Luz da poetiza iluminar o auditório. Vi a mina de discurso poderoso, cantando os versos com vontade. Vi pesquisador estudioso sem entender nada. Eu vi, ninguém me contou.

Numa outra situação semelhante em que Leandro fez tudo virar uma catarse, eu falei pro Zika assim ó: “Você pegô mó boi, que matar as pessoas de orgulho, num dá cadeia”. Bom era os tempos em que Emicida matava os MC adversários com versos. Dai vem seu nome (Homicida de MCs), agora ele vem numa de nos matar de emoção, deveria se chamar como? “Emição”.

Por um momento a gente num sabe bem se está na Rinha dos MC’s ou de volta na Central Acústica, mas é só ver a grandiosidade da história sendo construída na sua frente, que voltamos ao Theatro Municipal.

Esse é um espetáculo tão autêntico e urgente que o mestre Emicida deveria se tornar residente em apresentações permanente, seria a sensação do cartão postal.

Tatuei freneticamente todo o ingresso do espetáculo ao longo da apresentação como quem psicografa em ritmo de freestyle, guardei a caneta apenas para aplaudir de pé.

Emicida fez uma ligação direta terra espaço, e quando tudo terminou e saímos, foi possível comprovar. Até o mano do Céu não se conteve e desandou a chorar, a cidade como nos velhos tempos novamente se tornou a terra da garoa.

Eu escrevi no romance “O Hip-Hop Está Morto!” – A História do Hip-Hop no Brasil, publicado em 2011:

“Antes de sair, um dos que participava do debate morador do interior do estado, arrisca:
– Dá uma letra, mostra uma direção para onde devemos caminhar para essa tal evolução?
Hip-Hop aponta para o fim da rua. Todos se viram e avistam o imponente prédio do Teatro Municipal”.

Tenho sorte de ser contemporâneo desse mano e testemunha ocular deste momento. Com ingressos esgotados em poucos minutos, aqueles que não puderam entrar poderia assistir tudo transmitido em telões na mesma escadaria onde há quatro décadas ativistas negros fundaram um movimento unificado. Emicida com sua banda se despediu do público ciente de seu papel na arte: “Vejo vocês nas páginas dos livros de história!”.

Foi assim que Emicida fez numa noite com o Hip-Hop, aquilo que os modernistas realizaram numa semana: REVOLUCIONOU.

UBUNTU

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, coroteirista da cinebiografia do rapper Emicida (em produção), criador do coletivo LiteraRUA.