AmarElo É Tudo Pra Ontem estreia o Doc-Alforria de Emicida

Por Toni C.*

Faz mil dias que ceifaram a vida de Marielle Franco. Este oito de dezembro foi uma madrugada de vigília, é a estreia do potente AmarElo É Tudo Pra Ontem.

Emicida reúne a destreza do samba e inova feito um modernista para nos devolver as páginas arrancadas dos livros de história, e nóiz tamu nela! O rapper ocupou em novembro passado o Theatro Municipal e hoje crava o primeiro documentário do Hip-Hop verde-AmarElo para o mundo através Netflix. 

Dias atrás, a produção ​estava ​a ​todo vapor​,​ ​com ​equipe se falando ​à distância, ​foi a primeira vez em que Emicida sugeriu o título: É Tudo Pra​ ​Ontem. Parecia uma piada, daquelas tiradas sagaz do MC do Cachoeira. Tá ligado? Afinal era tudo pra ontem mesmo, e sugestões de ​nomes ​sonoros e poéticos não faltavam. Mas o tino infalível de Emicida sintetizou ​a urgência histórica ​nesta frase​ que a gente solta até sem querer​, afinal​, ​​é pra ontem​​: preservar a vida, a mata, a vacina, a estima, ​a memória, ​a democracia​​…​ é tudo pra ontem, tio!​

Era a sessão de pré-estreia de um documentário extremamente sensível e inspirador. Vivíamos um mundo sem pandemia, e a obra em questão era Sobre Noiz, exibido no Céu Jaçana. Ví na tela uma África diferente da qual nossos inimigos insistem em botar em nossa mente. No fim da sessão, após o Emicida responder as perguntas do público, me aproximei dele e fiz um pedido, queria registrar a história desse artista-pensador e falei isso em voz alta pra ele de uma vez, assim a queima roupas…

Quatro anos depois, meu pedido pra ontem, tem cara nova hoje, quando tenho a sorte e a felicidade de ser convocado, não para contar a história do Emicida, nem de seu álbum o premiadíssimo AmarElo, Leandro é tão generoso que no lugar de simplesmente promover seu trampo ou de se autopromover, faz questão de resgatar e homenagear aqueles que vieram antes, grandes personalidades que pavimentaram o chão com suas pegadas gigantes como Ruth de Souza – Abdias do Nascimento – Lélia Gonzalez – Mário de Andrade – Candeia – Wilson das Neves e tantos outros Elos. Que não estão mais condenados a simples notas de rodapé nos livros da escola.

É loko pensar que em meio ao surto global da Covid, o Zika da Rima espalharia uma verdadeira “Febre do AmarElo“, nosso ouro reluzente, a cor saqueada da bandeira. 

Não viu AmarElo? Veja. Já assistiu AmarElo? Reveja… estude, beba, coma, mergulhe em AmarElo

“É uma faculdadezinha que fizemos, alí”.

Me disse com ternura o próprio Emicida. Dia desses ouvi isso do Fióti, que acrescentou: “É pra se assistir com papel caneta e lenço”. Me ensinou com cada gesto Felipe Choco… o corpo docente  dessa facú conta ainda com Raissa, Joelma, Lohana, Alexandre de Maio… que time! Pensa você mano, num dia você assiste o videoclipe Triunfo e em outro você tá diante do diretor Fred Ouro Preto discutindo o documentário!? 

Preciso agradecer aos mestres com carinho que me apoiei ao longo dessa missão, os professores Big Richard, com seu recém lançado Maioria Minorizada. Renato Gama com sua sabedoria Afrogira. Leci Brandão que nos torna Zé do Caroço com sua existência. Enéas Armagedon, que nesse momento enfrenta o vírus da Covid, força irmão! Além de Amailton Azevedo que através de seu livro Sambas, Quintais e Arranha-céus nos trouxe outro mestre pra roda, o sambista Geraldo Filme, ligeiro em imortalizar com seu samba o construtor Tebas como um grande patrimônio.

Só tenho que agradecer por ser contemporâneo de alguém como Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, você é alento num deserto de desesperança.

O Tundum quem fez foi a batida dos nossos corações soando alto em AmarElo.

*Escritor, roteirista do Documentário AmarElo é Tudo Pra Ontem.