“Pixação” (é) e Arte(?)

Por: Demetrios dos Santos Ferreira*

Existe uma nítida falta de consenso sobre o aspecto artístico da pixação (opto em grafar a palavra com ‘x’ pois essa é a forma mais comumente adotada pelos próprios pixadores). Uma parte desses próprios agentes ­alegam que o que estão produzindo não é arte, já outros encaram o ato de pixar como uma forma de arte.

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Edifício Pixado no centro de São Paulo

No documentário “Pixo” (http://bit.ly/PixoDoc) dirigido em 2009 por João Wainer e Roberto T. Oliveira, temos uma oportunidade ímpar de entender a pixação por meio dos próprios pixadores.

William, um pixador da cidade de Osasco em São Paulo faz um relato interessante nesse filme, que nos ajuda a refletir sobre o significado da expressão por meio da pixação.

Ele afirma que não é capaz de ler a “letra de forma”, apesar de ter passado oito anos na escola. William chegou a concluir a oitava série do ensino fundamental, mesmo assim ele afirma que só consegue “ler pixos” e que não compreende de forma alguma textos produzidos em letras de forma.

Durante o documentário, ao tentar ler textos de um anúncio comum pintado nas paredes em sua comunidade, William não consegue ler frases muito simples, mas ao se deparar com pixações diversas, que para a maioria de nós seriam inteligíveis, William consegue ler normalmente, sem nenhuma dificuldade. Ele afirma que compreende muito bem a tipografia das letras utilizadas na pixação. Ou seja, há um código estético estabelecido que pode ser perfeitamente compreendido ente o grupo social de pixadores e isso não pode ser desprezado em nossa análise.

Outro pixador que aparece em depoimento no mesmo documentário é o “O Animal”, ele explica que “Muita da gente da periferia e da pobreza gostaria de falar e não tem essa condição de se expressar. Só quem tem o diretor de falar e de opinar sobre as coisas são os engravatados”. Nesse sentido é inegável a correlação entre arte e expressão. Afinal um dos objetivos da arte é a capacidade de expressar as intenções dos próprios autores. Penso que a pixação possa ser encarada como uma forma de expressão próxima a um protesto que tem uma intenção de incomodar e por vezes, chocar.

Podemos invocar as reflexões do professor Jorge Coli, professor de História da Arte da Unicamp. Em sua obra “O que é Arte?”, Coli nos explica o quanto é difícil contemplar de maneira objetiva o que seria arte propriamente dita, para ele:

“Dizer o que seja arte é coisa difícil. Um sem-número de tratados de estética debruçou-se sobre o problema, procurando situá-lo, procurando definir o conceito. Mas se buscamos uma resposta clara e definitiva, decepcionamo-nos; elas são divergentes, contraditórias, além de frequentemente se pretenderem exclusivas, propondo-se como solução única.” (COLI: 1981).

Um contraponto importante a respeito da pixação é o Grafite. Alexandre Barbosa Pereira em seu texto “Pichando a Cidade: Apropriações “impróprias” do Espaço Urbano” nos lembra que ambos (o grafite e a pixação):

“…utilizam o mesmo material: a tinta spray. Porém, enquanto ao trabalho dos grafiteiros é atribuído o status de arte, o produto final realizado pelos pichadores é classificado como sujeira, como atentado à propriedade privada.” (PEREIRA: 2007).

Aliás, um ponto importante para se refletir nesse aspecto é que o grafite vem sendo utilizado como uma forma de contenção da própria pixação. Para se evitar uma pixação, executa-se antes naquele muro, porta ou que quer seja: um grafite. Dessa forma, em tese, as pixações serão evitadas. Nesse sentido vemos inclusive um aparente paradoxo, uma vez que um muro, por exemplo, não pode ser permanentemente um “muro branco” ou “bege” ou seja lá qual cor se deseja, pois se ele simplesmente e inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, será pixado e, para se evitar essa pixação, será necessária ou muita vigilância, o que via de regra é inviável, ou executa-se um grafite qualquer afim de evitar a pixação em si. É como se um muro não pudesse ser da cor que se originalmente se deseja, pois isso é virtualmente impossível em uma grande metrópole como São Paulo. Retomando, portanto as próprias palavras de Pereira: “o grafite, enquadrado como algo artístico, passou a ser utilizado como forma de combate à pichação”.

Aliás, ao conhecer melhor o mundo do grafite, vemos como um movimento natural uma transição dos agentes que partem da pixação e seguem para o grafite, sendo para uma parte significativa deles um movimento natural de transição. Um exemplo desse movimento pode ser visto na biografia de grandes grafiteiros. OsGemeos são um exemplo disso. Os hoje reconhecidos internacionalmente irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo já admitiram publicamente que iniciaram suas atividades na pixação e somente depois migraram para o grafite.

A propósito, seguindo as reflexões de conceituação de arte pelo já citado Jorge Coli, considerando o quão subjetivas são essas definições, precisamos partir do princípio de que arte é, antes de tudo, uma forma de expressão social. Uma obra de arte, seja ela qual for, não tem o objetivo de se encerrar nela mesma, a arte precisa ser vista e de alguma forma “lida” por outras pessoas que vão além do autor.

O reconhecimento efetivo do que é arte depende, dentre outros fatores sob os quais não abordarei em profundidade, da compreensão daqueles que possuem acesso ao objeto da arte. Quanto maior a compreensão desse objeto expressivo em si, maior o reconhecimento social de que estamos diante de uma obra de arte. Sob essa perspectiva, quando comparávamos o grafite com a pixação, temos dois polos relativamente opostos. Por um lado temos o grafite com suas cores e formas geralmente bem definidas, pautado pelo desenho e raramente pela escrita (essa quando utilizada no grafite apresenta formas geralmente compreensíveis para a maioria das pessoas). Do outro lado temos o pixo e sua simetria peculiar, pautado praticamente apenas pela letra e não por desenhos. A grafia é muito particular e normalmente é compreendida somente por aqueles que fazem parte do grupo social de pixadores. Quem vê de fora geralmente não reconhece o significado dessas mensagens, ficando impossibilitado de compreender qualquer mensagem objetiva que elas possam expressar.

Contudo, é inegável que a pixação não é feita pelo autor para o próprio autor. Ao contrário, elas possuem uma relação com o outro, no caso, demais pixadores que reconhecem o que foi criado: eles conseguem compreender marcas, mensagens, autorias, localizações geográficas, o risco empregado na execução das pixações, dentre outros elementos. Ou seja, a pixação comunica-se com o outro, há uma expressão concreta, mesmo que essa expressão só possa ser percebida para uma camada da população bastante peculiar: os próprios pixadores.

E se pensarmos nas razões da pixação? O que leva geralmente os jovens (a grande maioria dos pixadores são jovens) a pixarem as cidades? A pixação na sociedade urbana é um fenômeno relativamente novo. Pereira explica isso em seu texto, remetendo a ideia de que a pixação surgiu da forma que a conhecemos na década de 1970 em Nova York:

Captura de Tela 0029-03-08 às 11.50.09.png“Relata-se que uma das primeiras manifestações a alcançar certa notoriedade nessa cidade foi inscrição “TAKI 183”. Essa marca apareceu em diversos locais… Na verdade, tratava-se de um garoto, conhecido por Taki, que morava na 183” (PEREIRA: 2007).

Poderíamos realmente associar à pixação a uma necessidade de expressão? Provavelmente sim. Mesmo que os próprios pixadores em sua totalidade não reconheçam o seu produto como arte, como já dito no referido documentário, diversos pixadores afirmam que pixar é uma necessidade, uma forma de contestação e de manifestação, uma maneira de comunicar aos outros a sua própria existência e isso tem uma relação inegável com a ideia de arte. A pixação é um fenômeno que parte da periferia, mesmo como tendo foco principal e desejo dos pixadores as regiões centrais da cidade, pois são essas áreas urbanas que dão mais status aos mesmos.

E é na periferia que normalmente estão a carência aos instrumentos sociais básicos de educação, cultura e arte. Muitos jovens sem acesso à educação formal de qualidade, consequentemente não conseguem atingir o capital cultural e artístico necessários para suas necessidades de expressão. Desprovidos dessas possibilidades, a pixação acaba sendo uma alternativa de certa forma artística para que esses jovens expressem suas existências aos outros, que demarquem seus territórios, tanto nas comunidades e regiões das quais pertencem, quanto para outras regiões da cidade. Inegavelmente é uma forma de expressão bastante peculiar e estamos nos últimos anos vendo isso se concretizar de forma direta até mesmo nos meios artísticos. Um exemplo disso pudemos ver na Bienal de Arte de São Paulo que em 2008 foi invadida por pixadores que, sem autorização, deixaram suas marcas na exposição. Dois anos depois, em 2010, uma ala significativa da Bienal foi destinada aos próprios pixadores, para que eles pudessem então executar a pixação em um ambiente próprio das artes.

Dois anos mais tarde, em 2012, pixadores brasileiros foram convidados para a Bienal de Arte de Berlim, na Alemanha. Inicialmente eles deveriam executar suas pixações numa área da exposição destinada exatamente para essa finalidade, como ocorreu dois anos antes na Bienal de São Paulo. Contudo esses pixadores extrapolaram o espaço delimitado e começaram a pixar em áreas que não estavam previstas. A polícia de Berlim acabou sendo chamada para intervir no incidente. Isso demonstra o aspecto inclusive transgressor que a pixação é capaz de carregar.

Como se viu, o limiar entre arte e vandalismo na pixação é bastante nebuloso. Por vezes a percepção pode se alterar facilmente de acordo com a perspectiva de quem vê e as razões que são associadas ao ato em si. Sem dúvida elementos como expressão, transgressão, demarcação territorial, dentre outros são facilmente detectáveis na pixação e a arte carrega consigo todos esses elementos. Nem todo tipo de arte deve ser contemplado sob a ótica da beleza, a arte também pode ser “feia” intencionalmente, a arte pode depender das condições sociais, culturas e econômicas do grupo que a produz, a arte pode comunmente incomodar também e nada disso deveria a desqualificar como arte.

*Demetrios dos Santos Ferreira é cientista social pela FFLCH/USP, editor da LiteraRUA Editora e gerente de operações da revista National Geographic Brasil. – Texto originalmente de Julho de 2016.

Bibliografia:

OLIVEIRA, Roberto T. e WAINER, João – “Pixo” (documentário) – 2009;

PERERIA, Alexandre Barbosa – “Pichando a Cidade: Apropriações ‘Impróprias’ do Espaço Urbano” in “Jovens na Metrópole” – 2009 – Editora Terceiro Nome – São Paulo;

COLI, Jorge – “O que é Arte” – 1981 – Editora Brasiliense – São Paulo.

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