Aos alienados: revolução. Em tempos de ódio: o amor. Esse é Mano Brown, Boogie Naipe, Baby

Por: Toni C.*

Tem ser humano que é tipo vinho e tem os zé povinho, esse cara é definitivamente do primeiro tipo, tinto. Aquele que rimou sobre revolução enquanto éramos todos alienados, é o mesmo que canta amor em tempos de ódio, no elegantíssimo álbum Boogie Naipe pelo primeiro e único: Mano Brown.

mano_brown_boogie_naipe
A gente só queria dançar feito Michael Jackson e ter a cor que ele adotou aos 40 anos. Paulo Maluf vencia eleição para qualquer coisa que ele disputasse antes da gente saber sobre Malcolm X. Música jovem na quebrada no fim dos anos 80 era música estrangeira e ponto.
Posso falar um quilo dos tempos da Função, quando Gil Gomes era quem mostrava ao seu modo a favela, os pé-di-pato era fábrica de presunto.
“Justiceiros são chamados por eles mesmos
Matam homens e dão tiro a esmo” (Pânico na Zona Sul)
A partir daí, nada mais ficou no mesmo lugar.
Quer saber o que era ser jovem de periferia em 1992? Digita Negro Limitado e ouça Edi Rock no álbum Escolha Seu Caminho, a gente era limitado pela falta de informação, falta de orgulho, falta de estima própria.
Hoje os tempos são outros, temos informações até de sobra. Não se informa quem não quer,  quem fica só de zepovinhação, quem não morre afogado pelo tsunami de ideias, pela desinformação num mundo pós-verdade.
Eis que ressurge Mano Brown de maneira futurista e nostálgica como o globo espelhado no alto da pista de dança. Contagiante e versátil, Boogie Naipe é um álbum musicalmente foda. O primeiro disco solo de Mano Brown tem uma atmosfera envolvente fazendo das canções um repertório tão variado quanto os embalos de sábado a noite.
Confesso, resisti para ouvir e quando apertei o play fui imediatamente sequestrado por Simoninha…

“Boa noite, boa noite
Sejam bem-vindos
Hoje é dia de festa
Hoje é o nosso dia
Poesia e música
Coração e mentes
Sinta-se bem
Com o Boogie Naipe
Me rendi, me senti bem.
Os sons urbanos ao meu redor foram se calando para celebrar a irresistível Gangsta Boogie na companhia do soulman Lino Krizz que produz a maioria das faixas na parceria de Mano Brown.
A terceira faixa é a cura para Mal de Amor, marca a estreia de Ellen Oléria no álbum com sua doce voz, contrastando com o timbre rasgado de Brown, veludo e cristal.
Ellen e Krizz estão de volta para nos guiar ao encontro de Mano Brown em Boa Noite São Paulo, uma track pelas pistas do fundão da zona sul.
Uma Viagem? Então espere até ser abduzido pelo groove da psicodélico da Nave Mãe bem diferente da sobreiedade de Adicto, “Minha insensatez me trai, Mas dessa vez não”.
Mas antes o frenesi provocado pela misteriosa Mulher Elétrica. Ouvi militante na época em que circulou o single questionar: – Agora protesto é isso? Mulher elétrica e tal… – A história de sedução de uma mulher forte, frenética, cheia de energia, 3.000 volts, já entendo como posicionamento. Como se a valorização da mulher não fosse algo a ser debatido inclusive entre militantes de forma eminente. Essa é uma canção que soa a mim como uma discreta metáfora em que a tal mulher de alta voltagem pode ser o que você desejar, talvez aquilo que você mais precisa… a liberdade, a fama, a grana, o poder, a cocaína, a vida ou a até mesmo a democracia. Quem sabe? Taí só algumas pistas daquilo que pode ser entendido como algo efêmero ou fugaz que a gente corre atrás, procura, anseia e é “…capaz de ir no banheiro e não voltar mais”.
“Cê é zica mesmo, ein?”
Foi Num Baile Black é a persistência na busca… “Tantas vezes voltei no baile pra rever, dançar outra vez com você”. Aqui a musa segue como na canção anterior é inalcançável e anônima: “Desde então não vi mais, não sei / Se quer o seu nome, quem souber me diz…”.
Atire a primeira kriptonita aquele que não quis ser o Superman para salvar sua Louis Lane, nesse original funk com Seu Jorge e William Magalhães.
Dance, Dance Dance traz sample da clássica Soup for One da banda Chic, também utilizada na gravação de 2000 da banda inglesa Modjo na canção Lady (Her Me Tonight) é o ápice do álbum cheio de referências ao cinema e a famosos casais como “Bonnie & Clyde”. A participação de Seu Jorge bastaria para cravar a faixa como grande hit que ainda tem participação de Don Pixote.
A partir deste ponto é o momento da luz negra brilhar com os casais dançando agarradinho, conversando próximo ao ouvido.
Nova Jerusalém, chega como uma reflexão intimista em que Brown se apresenta na melhor picadilha do síndico, Tim Maia.

Em Felizes (Heart 2 Heart), é o encontro entre as lendas do rap nacional e do Rhythm & Blues, Leon Ware, que assina produções com Marvin Gaye, Michael Jackson e Quincy Jones. Tá bom ou quer mais?

Amor Distante, vem em duas versões Rap e Blues, junto com De Frente Pro Mar, Você e Eu… Só! músicas com líricas dignas de Tupac.
Faltou só um final feliz? Nem pensar. O disco termina com Felizes, uma música que tem referência em outras duas canções Boa Noite São Paulo e com outra faixa de encerramento presente no disco mais ressente dos Racionais MC’s – Eu te Proponho. Ouça as três e me diga se estou louco ou se também encontrou a liga.
Não contente em ouvir e repetir quase até furar a nuvem, escrevi para o poeta da periferia: – Achei monstro o disco solo de Mano Brown e precisava contar a alguém. Escolhi você meu bom. – Então contou para a pessoa certa, achei o máximo também. – Rebateu Sérgio Vaz.
Afinal, convenhamos, eu e você temos o direito de errar, mas quantas alternativas mesmo teria “aquele Loko que não pode errar”?:
a) Cantar Eu Sou 157 em programa de auditório?
b) Morrer agarrado a um discurso como se carregasse um gordo malote?
c) Se candidatar a presidente da república pelo partido de Marighella com o slogan: “É Nois Memo Vagabundo”?
d) Lançar um disco com a hashtag #ForaTemer em frente ao prédio da Fiesp?
Não se deixe enganar, Mano Brown não é óbvio, o principal cronista de seu tempo em Boogie Naipe Pedro Paulo nos ensina a escapar da sina de Pixote, quando a vida imita a arte e vice-versa reservando para o narrador periférico o mesmo destino de seu alterego ficcional: presídio, maca ou caixão. No caso do ator Fernando Ramos da Silva que interpretou o personagem tema do filme Pixote, A lei do Mais Fraco e após o sucesso do longa Fernando voltou a viver na miséria, cometer delitos e ser perseguido pela polícia que não distinguia a diferença entre o ator e o personagem… Fernando foi assassinado por policiais.
1-1
Mais vale Mil Faces de Um Homem Leal de quem está a frente de seu tempo do que a velha opinião formada sobre tudo. Clichê? Então pega a visão que descolei de um livro sobre uma figura controversa de nossa música, quando o autor saca das entranhas da história uma declaração do mestre Gilberto Gil dada ao Jornal do Brasil em que ele diz haver em todas as grandes civilizações duas figuras básicas: a dos reis e a dos profetas: “O rei representa o poder, o controle, o estático, o mantenedor, sempre à direita. – Define Gil que segue. –  O profeta é o maluco, o louco, o revolucionário o livre atirador, o que ousa, o apedrejado”.
A definição de Gilberto Gil é tão atual e precisa que parece desenhar no ar o Rei da Música – Sabe Bicho!? – e o Profeta Cachorro Loko da Sul, inconfundível.
– Um discão para ser escutado, dançado, pesquisado e sampleado – Acrescentou o parça Hot Black.
 
Enquanto isso…
As prisões ardem em todo país com massacres de Norte a Sul. Ninguém tem o direito de dizer desconhecer o problema descrito minuciosamente em Diário de um Detento.
Quando o rap gourmet vira bom negócio. Boogie Naipe recria o baile black fundamental no surgimento do movimento negro.
Oito milionários contam suas fortunas equivalente ao dinheiro de metade da população do planeta. Brown deixa um tesouro para os menos afortunados e gerações futuras.
Em tempos em que o mundão é devorado pelo ódio que decreta autoritário: “Não reclame da crise, TRUMP!”, nada é mais revolucionário do que plantar e espalhar aos quatros ventos o amor.

“A chapelândia não vê

Não entende a discórdia
Eu quero liberdade
Não Misericórdia” (Mano Brown)

 


* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS, integrante do Portal Vermelho e criador do coletivo LiteraRUA.

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