A calçada da fama e os anônimos na rua

Pouso em Los Angeles no feriado de Ação de Graças ao som de California Love nos fones de ouvido. Uma metrópole que voa na velocidade alucinante de possantes carros presos no engarrafamento da hora do rush e eu em trôpegos passos acaricio com a sola do pisante o chão ralo nos becos estreitos formado pelo vão entre os prédios, latões, conteiners de lixo e graffite, estou dentro do GTA parceiro.

Por: Toni C.

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Taí uma cidade charmosa e talvez meio cafona. Notei isso logo no primeiro segundo ao desembarcar num dos terminais ainda não reformado do moderno aeroporto de LAX. O Rolex gigante na parede marca que por aqui o tempo passa em flashes, o carpete no chão é um luxo que agrada a visão e dificulta as rodinhas das malas dizendo a cada forasteiro feito eu – Psiu, pra que tamanha pressa? Chega no sapatinho. – confesso que tento sacar o “alto lá”.

Outra prova de um luxo de outrora estão nas oxidadas escadas de ferro anti-incêndio em clássicos prédios de tijolinhos a vista dividindo espaço com os letreiros em neon no centro da cidade, ofuscado pelos modernos painéis de led da Olympic Bolevar.

O castelhano é a segunda língua por aqui, em alguns pedaços da cidade é a primeira e quiça única. Está lá, na máquina de bilhetes do metrô, na sinalização nos supermercados, em revistas, jornais e em canais de TV com programação exclusivamente em espanhol. O Uber oferece uma função para solicitar carro com motorista que fale a língua. O comércio de rua da 25 de Março tem sua versão aqui na feirinha de Santee Alley repleto de cultura chicana e advinha em qual língua o povo negocia? Isso sem falar no nome dos bairros, das praias, ruas e da própria cidade como quem faz questão de lembrar que aqui já foi México um dia e de algum modo, segue sendo.

Pulei de cabeça, mergulhei fundo na ânsia em descobrir o que a cidade mais populosa da Califórnia tem. Fui tão fundo que por vezes não caminhei pelas calçadas, seguia pelos bueiros por onde os turistas, os paparazzis e as celebridades mantém distância.

Meu QG também proporciona uma condição privilegiada, um antigo galpão convertido precariamente numa espécie de albergue com mais de 20 beliches e dois banheiros onde as pessoas se amontoam as noites, quando as temperaturas despencam nessa época do ano.

Um mosaico formado por 115 embaçados vidros num vitrô que ocupa quase toda a parede ao fundo formando um caleidoscópio urbano. Desse translúcido vitral devidamente empoeirado, com sobras de cimento e sujeira que mais revela do que esconde, brota uma vista estonteante dos edifícios espelhados. Eis meu observatório Grriffith, com o mesmo nome do famoso observatório espacial da cidade.

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Fiquei hipnotizado, posso fechar os olhos e continuo enxergando a janela.

Minhas acomodações são na parte de cima do segundo beliche próximo dessa janela. Presumi que estava em condição privilegiada, na prisão a lei entre os detentos é: quanto mais alto e mais perto da ventana maior o seu conceito. De quebra no beliche ao lado dormia o gerente, a pessoa que comandava o espaço. Tão diverso quanto a cidade são os sotaques e idiomas dos meus vizinhos de quarto. A noite a sinfonia de roncos multiétnico comprova que os sonhos não são propriedade de qualquer nação. 

Estava hospedado no meio do Distrito Industrial entre ruas e avenidas tomadas por homeless um nome pomposo para o que chamamos de moradores em situação de rua. Barracas de camping convertidas em abrigos permanentemente improvisados. Gente mutilada, negros, mulheres, homens, idosos e crianças estão entre as vidas descartadas à própria sorte nas calçadas aguardando a morte chegar. Quem de nós não está? O mercado das flores logo ali contribui aromatizando a fúnebre cena. Já havia visto e me chocado com vídeos, fotos e reportagens, mas conviver tem outro sabor, Los Angeles tem sua própria versão da Cracolândia conhecida por Skid Row. É como consigo traduzir o flagelo contrastando com os carrões luxuosos que disputam quase o mesmo espaço, estimam que mais de seis mil pessoas sobrevivam nessas condições.

Como o poeta, “Eu não sou as coisas e me revolto” … sem entender porque é mais fácil caminhar na Lua do que sanar a miséria humana me questiono – como essa gente não se rebela como aconteceu durante os Distúrbios de 1992? – Não conseguia deitar entre os beliches sem me sentir hipocritamente privilegiado.

Por aqui não é apenas o oceano que é Pacífico, parece que a vida também passa num slowmontion como uma cena épica de cinema. Apenas o dia vira noite de relance como um corte dramático: é dia só até cinco da tarde nesse período do ano. E num piscar de olhos a noite acontece em L.A., porém não sem antes de uma breve e bela transição com pôr do sol alaranjado e um céu em degradê que deixam as nuvens com cores que vão do dourado ao púrpura, justamente as cores do meu time do coração na NBA.

Meus pontos turísticos são outros

Turistá? Turistei. Caminhei nas calçadas repletas de nomes de gente famosa caçando algum que me identificasse como quem cerca Pokémon. Alguém mais surtado dirá que é coisa de petista um chão cheio de estrelas. Mas confesso que os anônimos na rua me emocionam muito mais que a famosa calçada.

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“Negro Drama / Entre o sucesso e Lama” (Racionais MC’s)

Tour para passear em um ônibus sem teto pela frente das casas de gente famosa. Sem chance. Fiz questão de conhecer a casa de gente trabalhadora.

Subi as montanhas onde se projeta em letras brancas o inconfundível letreiro com o nome do bairro das ilusões: Hollywood. Ir ao cume não é nada do outro mundo pros alpinistas dos morros tortuosos de Carapicuíba, andar em linha reta por Compton é suave.

Straight Outta

cbMesmo quando os ouvidos sangram com os gritos nos fones com o clássico do N.W.A.: Fuck Tha Police simultâneo à viatura que passa lentamente na sua cara com os uzome farejando como quem adverte – Saí fora, o que você está fazendo nessa área? – ó que louco: a língua é outra, o dinheiro é outro, e mesmo muitas milhas de casa o Modus operandis é o mesmíssimo. 

Por uma semana pude chamar Compton de lar. Me senti em casa na vizinhança de Gardena, comendo em restaurantes latinos, ao cortar o asfalto à sola, me locomovendo para os quatros cantos de metrô, encontrando pessoas simpáticas e gentis.

Um tapa na cara é a maneira como pedestres aguardam tranquilamente o sinal abrir: enquanto não aparece o homenzinho verde no semáforo ninguém ousa por o pé pra fora da calçada, só então iniciam a travessia na faixa com toda a segurança. Os motoristas então não deixam barato, eles aguardam o pedestre finalizar a travessia para só aí avançarem… Isso é tudo menos o que esperamos do americano médio: individualista, agressivo, consumista, pró guerra e eleitor do Trump. Pois é, a vida real é mais complexa e desconcertante. Em S.P. as peruas do Terminal Cachoeirinha, os motoboys na 23 de Maio, os pedestres no Largo 13, eu garanto em geral são mais violentos no trânsito que o californiano. E nem é preciso incluir os ataques aos ciclistas e a batalha entre taxistas e motoristas de Uber nessa parada.

Biqueira com CNPJ

Por aqui a maconha é legalizada. Particularmente ainda considero mais inteligente chapar com literatura. Em Veniche Beach a praia do povo descolado, onde até mesmo o Sol elegeu para o happy hour diário depois do trabalho suado, as biqueiras legalizadas brotam aos montes, concorrendo umas com as outras como as drogarias no meu bairro, mas aqui as lojinhas se convertem facilmente em atração turística. Foi daí que surgiu um vendedor com uniforme todo verde mundano, como se fosse um duende da Cannabis sativa se projetando agressivo aos berros com quem fotografava a fachada do inusitado estabelecimento. – Vai comprar maconha? Quer comprar maconha? – gritava ele – Então porque fotografa se não quer fumar? – Protestou indignado o funcionário.

E eu queimando os miolos – Que lugar é esse onde o transito é civilizado e o maconheiro estressado? Vai entender…

Então tento explicar ao meu modo o que é L.A. em um único parágrafo: Imagine um lugar onde se você for para o oeste você encontrará praias, ao sul praias, se você for para o norte montanhas e para o leste você tem Las Vegas! 

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Vista do Skate Park em Veniche Beach ao pôr do sol.

Não tem jeito, são quase todos pretos

A cultura do fast food fode. Gordura transaturada, frituras reutilizadas, sódio, açúcar refinado… traduzindo: tudo o que mata no tamanho big coberto por ketchup, mostarda e uma Coca-Cola geladinha. Os pobres comem mal. A indústria estadunidense é campeã em convencer as pessoas em comprarem coisas ruins. Na fila da comida rápida vejo apenas negros e hispânicos, bem diferente de Beverly Hills ou Long Beach. Agora para devorar essa gororoba expressa é necessário desembolsar algo em torno de dez dólares, cerca de 35 reais, mas pelo menos a Coca é refil e você pode beber até explodir.

As bibliotecas daqui são impecáveis, quase esquecidas, são refugio para desabrigados, praticamente a extensão de suas “casas”. Este é um lugar silencioso onde é possível carregar o celular, ler notícias, acessar o e-mail, utilizar o banheiro para se lavar, fazer a barba assobiando, enfim… Imigrantes matam as saudades contactando familiares, com mensagens instantâneas e ligações utilizando o wi-fi gratuito. A área infantil da biblioteca se torna um playground, enquanto as jovens mães colocam o assunto virtualmente em dia.

Se na Skid Row só encontrei negros, nos fast foods dos bairros afastados negros e nas bibliotecas negros. Nada mais justo que o aeroporto internacional da cidade também preste sua contribuição homenageando o arquiteto Paul R. Williams, arquiteto negro que projetou milhares de casa ao longo de sua vida. Você conhece outro aeroporto que carrega o nome de um negro? Se conhecer por favor me diga.

Aliás, virou lugar comum preconceituosos afirmarem que o aeroporto no Brasil se tornou uma rodoviária devido a demanda de gente que jamais havia voado antes. Pois saibam que o aeroporto aqui além ter nome de um negro é mais que uma rodoviária, é uma rodoviária cheia de latinos. Gente da América Central, Caribe e América do Sul indo e voltando pra casa, visitando parentes e realizando tratamentos médicos na cidade dos anjos.

Show time

Para entrar na casa noturna é preciso enfrentar uma longa fila como aquelas que a gente vê em filmes e videoclipes. Apesar do frio as pessoas não parecem se importar, fazem freestyle, bebem e fumam sem nenhuma pressa. Do lado de dentro rolava uma pesada festa de rap em plena Chinatown, foi quando me dei conta de uma coisa óbvia: o californiano é o americano com sangue latino e a mistura de outros povos, assim como o brasileiro. Ali no baile a tranquilidade cessa, os DJ’s são monstros, a música é pesada, e o clima caliente derrete o gelo. Os caras não brincam em serviço e viram gigantes no palco. Seja no rap, no surf, no cinema ou no esporte. Quem é, é. E eles são artistas que encantam com toda a alma.

O cameleão Stamples Center é uma prova, impressiona ao se tingir com as cores do time da noite. Já pensou o mesmo estádio um dia se vestir de Corinthians, no outro de Palmeiras, e ainda com as cores do São Paulo? Ou se preferir ser Flamengo, Vasco e Fluminense e tudo na mesma semana? Pois é isso o que acontece por aqui quando a lojinha do torcedor, os banners do ginásio, e até o piso da quadra se intercalam entre os times da cidade, seja no hóquei no gelo com os King’s ou no basquete com os Clippers e os Lakers. Uma engenharia minuciosa e bilionária e nisso eles não brincam em serviço e nem esperam a novela acabar.

Lá nesse cenário testemunhei um histórico fato repercutido à exaustão: “Morre aos 90 anos o líder da revolução cubana Fidel Castro”. A cobertura respeitosa nos meios de comunicação estadunidense é de deixar encabulada nossa imprensa “ditabranda”. Minha primeira viagem internacional foi justamente para ilha rebelde. A ideologia que me revelou um internacionalista martela uma sentença que li escrita num grande cartaz em Havana, e que permanece como uma afronta à grande nação: “Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, nenhuma delas é cubana”.

Vale a pena o lembrete, não confunda o governo dos Estados Unidos com seu povo. Eu levei na bagagem muitos preconceitos que enterrei nessa viagem onde aprendi muito sobre a vida.

E você está disposto a enterrar os seus?

Nos vemos L.Á.!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS,  integrante do Portal Vermelho e criador do coletivo LiteraRUA.

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Um comentário sobre “A calçada da fama e os anônimos na rua

  1. Trabalho de um verdadeiro documentarista, um correspondente da periferia. Parabéns, Toni, por expor a nós o por detrás do luxo e ostentação transmitidos por séries e filmes. Os aspectos peculiares e toda uma atmosfera que tentam esconder de nós para deixar sobressair a enganadora imagem do “sonho americano”.

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