Cooperifa 15 anos, quando a poesia da periferia debuta

Por Toni C.*

A vida corrida não permite que se esbanje tempo, artigo de luxo. “Nem os grandes matemáticos poderiam resolver”, os poetas sim: “(…) as 24 horas do dia parecem 48.” sentencia o Papa Francisco antes de ordenar: “Merece um Nobel quem tem tempo para se dedicar aos filhos”. Imagina o mecânico ostentar um momento para lustrar as palavras, a dona de casa polir versos como quem area panelas e o artesão desbastar frases para ornamentar. Imaginou!?

Pois bem. Cooperifa é este quilombo, a viga mestra que protege os sobreviventes de serem esmagados pelos escombros da ignorância. Catástrofe que mais faz vítimas fatais em toda história humana.

Caso o leitor nunca tenha participado de um sarau e nem tenha ideia do que acontece num ambiente desses, não há motivo para constrangimento. Nenhum de nós sabíamos o que era isso também e soava como um ritual misterioso de alguma sociedade secreta. Até Sérgio Vaz e Marcos Pezão juntarem coragem em resgatar suas escritas diretamente das gavetas invisíveis e declamar em alto e bom som ainda no Garajão em Taboão da Serra.

“O primeiro sarau aconteceu mais ou menos com as pessoas que andavam com a gente no momento. Lembro de ligar para várias pessoas e elas não toparem, porque não entendiam muito bem o que a gente queria,” relata o poeta Sérgio Vaz no livro Cooperifa: antropofagia periférica (Aeroplano, 2008).

Insistiram, persistiram, de lá pra cá os saraus se tornaram uma verdadeira epidemia pelas periferias de São Paulo.

O superlativo se mantêm, em outra ponta do mapa, não mais no Garajão, o centro cultural segue no Bar do Zé Batidão, local que já pertenceu ao pai do Sérgio Vaz quando este era só um menino empinando pipa nas ruas de terra ou barro. O asfalto chegou, o menino se tornou poeta que desbica versos.

“Este ano vai ser pior…
Pior para quem estiver no nosso caminho.
Então que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para” (Novos Dias, Sérgio Vaz).
A agulha da bússola cultural da cidade aponta para o Piraporinha, entre o Capão e o Angela, uma espécie de triângulo das bermudas onde os jornais sensacionalistas tinham vasto material em putrefação em suas sanhas sensacionalistas. Hoje a pauta é outra, quer falar de arte que brota de casas semi acabadas e ruas tortuosas, vai para lá, os vértices do triângulo da zona show se expandiu para os limites de Santo Amaro, Campo Limpo e o Grajaú.
Entre os frequentadores apaixonados por literatura está uma das primeiras pessoas a chegar para ocupar seu lugar na primeira fila acompanhada por Dona Isabel. Nasceu numa cidadezinha de Minas onde não havia nem luz elétrica, há mais de 30 anos a diabetes retirou sua visão: “O conhecimento dá luz, dá saber, faz a gente enxergar, mesmo sem enxergar”, conta com voz suave e firme Dona Edite que passou a decorar as poesias gravadas pelos familiares. Recita Cora Coralina, Castro Alves, Sergio Vaz, Márcio Batista, tudo de cabeça. Entrega cada palavra como se fosse um abraço, o sarau vem abaixo. “Uh, Dona Edite…”

Cinema na Laje, Ajoelhaço, Poesia no Ar, Semana de Arte Moderna da Periferia, Várzea Poética, Mostra Cultural em sua nona edição, e outros tantos “eventos?” Nada disso, “movimento”, frisam orgulhosos os organizadores por onde é possível esbarrar com Mano Brown, Jeferson D, Zezé Motta, Chico Pinheiro, Marcelino Freire, Eliane Brum, MV Bill, Criolo só para mencionar algumas das pessoas incríveis que eu encontrei por lá. Com toda a certeza irá se deparar com poesias sinceras saída da boca de gente tão maravilhosa quanto as que mencionei incluindo Lu Souza, Jairo Periafricania, Kennya, Fernanda Coimbra, Márcio Vidal, Cocão, Rose Dórea, Ni Brisant, a lista é grande e os aplausos também… “Mais forte, mais forte!”.

Estamos em pleno mar

Uns vão outros vêm. Sou do tempo em que as pessoas eram acolhidas com as canções de Wesley Noog, recebiam os galanteios de Seu Lorival, rachavam com com o cordéis de Carlos Silva, quiça adquirir uns artesanatos com Lobão e não voltavam para casa sem vibrarem com o timbre de Elber Landislau.

Admito, Bob Dylan é imprescindível. Mas não conheço nenhum projeto literário que tenha feito as pessoas escreverem tanto quanto os saraus, não conheço ação que promova tanto a leitura quanto o Hip-Hop. O Nobel de Literatura deveria ser dividido entre Shakespeare e Cervan da quebrada, 400 anos depois diretamente da zona sul de São Paulo: Mano Brown e Sergio Vaz. Quer mais?

Poderia morrer nesse lugar, evidente, somente ao fim do sarau. Dessa forma seria arrebatado pela poesia e meu firmamento não estragaria o momento de nenhum poeta. De certa forma isso ocorre ao fim de cada sarau.

Ainda não consegue entender que lugar é esse? Sem novidades, não se pode explicar o que é o beijo, lembra Márcio Batista, não existe medidor para os kilowatts de energia que emana do poder da palavra versada.

Só há uma forma de compreender plenamente o que é este sarau, comungando da palavra como o pão repartido na mesa de um faminto.

Seja bem vindo ao Sarau da Cooperifa, onde o silêncio é uma prece e todos são bem vindos.

15 anos de labuta e agora debuta ao som da valsa da palavra: a poesia.

Uh, Cooperifa!

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS, integrante do Portal Vermelho e criador do coletivo LiteraRUA.

Fonte: Portal Vermelho.

 

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