2016, O Ano do Rap

Por Toni C.

Uns caçando Pokémom outros caçando assunto. E eu aqui caçando ideia.

“1994 é o ano do Rap
Quem nos critica, esquece”. (Sistema Negro, Poder da Rima).

13-batalha-de-rimas

Pleno emprego, autosuficiencia em petróleo, credor do FMI, moral nas galáxia e a porra toda.

Aí já viu né tio, é osso, vai rimar o que? Vai reclamar do que? Vai contestar o que? Rap é som de protesto, critica social… Né não?

O só, cheguei a escrever: “O Hip-Hop Está Morto!” em 2011.

Pra quem achou que tudo foi pro saco, o pesadelo acordou: É hoje, é agora, O ANO DO RAP.

Tava chato, us muleque cheirando a leite pagando de correntinha de ouro comprada no cartão. Aqui jaz o Funk Ostentação.

Desemprego, chacina, inflação, privatização… Agora é o seguinte: passa um cuspe na bombeta, bate a poeira do bobojaco, amacia o pisante que Compton é aqui.

… e eu dizendo que a quebrada tava doida pra bater panela também. Pensa que não? Tô doido ou acordei na mão dos coisa: o presidente, o governador e agora um prefeito, que nunca votei!?

GOG, seu refrão criado há 16 anos no álbum CPI da Favela é mais atual que nunca, parabéns:

“Isso acontece porque o presidente
Não é gente
Não é gente da gente”. (GOG, Ei Presidente)

Vê se pode!? A propaganda do João se passando por Jão, um cara humilde, veio do povo e se tornou o candidato dos ricos, ops… um rico candidato. Ah tenha Dó-ria, Nizan Guainazes seu mago, convenceu mesmo que o engomadinho de camisa alvíssima já lavou o pullover sobre os ombros alguma vez na vida. Você consegue imaginar o cara carregando a marmita no trem lotado? Só se for de caviar.

Os Dorias, são descendentes direto das Capitanias Hereditárias. Esqueceu das aulas de história na escola, né nada difícil, é só guardar uma lição do mestre P.MC quando ouviu alguém dizer a ele que seus antepassados vieram no mesmo barco: “Verdade, no mesmo barco, só que meu pessoal não veio pegando brisa no convés,” rebateu ele.

Deixa eu dizer uma vez só. Ninguém fica rico votando em playboy, ninguém ganha alforria amando o algoz, ninguém é poupado por abaixar a cabeça diante à guilhotina.

Mano Brown foi além: [a gente] “vive mal, come mal, vota mal, assiste programa ruim. (…) Agora nos últimos dias, eu vi a população virar as costas pra Dilma.” disse ele de cima do palco. Gerações de homens saquearam esse país por mais de 500 anos e agora colocaram a culpa em uma mulher inocente.

Pedro Paulo adverte: “Não cita o Mano Brown porque você pode acordar no precipício”.

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Fiz uma lista e segui atualizando até o último dia da campanha com uns trinta nomes de gente que de alguma forma são ligados ao Rap e concorreram nessas eleições. Sabe quantos desses se elegeram? Advinha você! Que eu saiba, justo quem escapou do meu radar. Áurea Carolina em Belo Horizonte, conheci quando ela pesquisava sobre o Hip-Hop na universidade, hoje é cientista política e se tornou a vereadora mais votada na capital mineira apesar de negra, apesar de mulher, apesar de pobre, apesar do Aécio, contra tudo e contra todos.

Cada um cada um. Mas o mano de São Paulo que votou no Russomanno precisa saber. Celso é tudo menos Russo ou Mano. Eu sei que tem os que se orgulha, afinal elegeu com votação histórica Eduardo Suplicy. Ótimo prêmio de consolação, vou fazer de conta que nem ví a votação do  Conte Lopes, Eduardo Tuma, e o preto racista de alcunha Holiday, vai vendo… enquanto você se acha o pá, esse filho da puta ainda vira deputado algum dia.

Pode fingir que você não tem nada a ver com isso, eu sei que é mais divertido falar do estilo do Costa Gold. Esquenta não, agora tá facin. Recicla aquela rima, mete o bobojaco, bermuda e bombeta. Vai voltar a fazer sentido Rap falando mal de pilantra, polícia e político.

Duas décadas depois do clássico do Sistema Negro, é a vez de Emicida sentenciar:

“Há 30 ano, todo ano é ano da serpente.” (Emicida, 8)

Quem é esse cara, tá forgado, tá boladão, tá se achando, tá tirando…
Nada disso.
Sou só um rapaz comum, lutando pela paz comum.

* Autor dos livros: Sabotage – Um Bom Lugar, e do romance “O Hip-Hop Está Morto!”, integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS,  integrante do Portal Vermelho e criador do coletivo LiteraRUA.

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